Triste símbolo nacional
Nascido no seio
Da alma de Portugal,
A miséria uiva
Por atenção
Numa bandeira ruiva
Do sangue de uma nação.
O que se fez não é mais
Identidade e norma,
O que se é deixou de ser
Enormidade e forma.
De nada adianta ficar pelo lamento,
De nada adianta
Ficar só pelo intento
De mudar o tom a esse fado;
O que entoo não me dá alento.
Deixa que desta vez
Sejam as palavras a levar o vento,
Elas que bombeiem o balão
Dos sentires apurados
E dessa alma desprovida de sustento,
Que vence batalhas de respeito
Com vestígios de argumento
E o mínimo despeito.
Florbela Espanca (1894-1930) é uma escritora/poetisa muito importante no panorama nacional. Tida por uns como louca, por outros como genial, é certo que deixou um legado forte na literatura portuguesa, se tivermos em conta a efemeridade da sua vida.
Assim como as suas opiniões e discursos em vida, Florbela Espanca é alvo de avaliações extremas. Ou se ama a sua obra, ou não se gosta de todo. Penso que em parte isso se deve a toda a intensidade com que ela exaltava temas marcantes como o Amor ou a Saudade, nos quais para a poetisa a palavra era verbo, era acção. Florbela Espanca não se limitou a escrever o que sentia, como também viveu o que escreveu, e por isso apresenta-nos uma escrita que é liricamente bela mas também rica em toda uma dimensão carnal e feminista. Curiosamente, o livro que trago hoje para a conversa foi editado postumamente, mas é para mim o mais intenso (é mesmo a palavra que me vem sempre à cabeça quando falo de Florbela Espanca), o mais sensível, o mais sentido.
Charneca em Flor (1931) é um dos livros mais conhecidos de Florbela Espanca, muito por causa de nele se encontrarem presentes alguns dos sonetos mais perfeitos da escritora, como o sensual Volúpia, o desesperado Amar! ou o inigualável Ser Poeta, imortalizado através da musicalidade dos Trovante de Luís Represas e João Gil. É considerado quase unanimemente o livro mais sincero da poetisa, pois é nele que esta se abre de forma declarada ao Mundo e nos faz um auto-retrato fiel e sentido da fase mais complicada daquela que foi a sua curta vida, e ainda hoje este livro representa um dos maiores depoimentos escritos de um coração lusitano imensamente massacrado, pertencente àquela de quem Fernando Pessoa disse um dia (no poema À memória de Florbela Espanca) ter uma "alma sonhadora / Irmã gémea da minha".