sexta-feira, 31 de maio de 2013

ReAgir

Na tormenta em que se navega
A coragem é ilusão,
É a percepção do medo
Que guia o Homem
Por entre infortúnios da razão,
Em segredo se sofre
E em segredo se cresce,
Por muito que doa
Este jogo de cadeiras
Onde o Rei não traz coroa,
Em que vive na morte o que se levantou
E se perde em vida quem se sentou.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Fado

Triste símbolo nacional
Nascido no seio
Da alma de Portugal,
A miséria uiva
Por atenção
Numa bandeira ruiva
Do sangue de uma nação.
O que se fez não é mais
Identidade e norma,
O que se é deixou de ser
Enormidade e forma.
De nada adianta ficar pelo lamento,
De nada adianta
Ficar só pelo intento
De mudar o tom a esse fado;
O que entoo não me dá alento.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

(In)Verso

Deixa que desta vez
Sejam as palavras a levar o vento,
Elas que bombeiem o balão
Dos sentires apurados
E dessa alma desprovida de sustento,
Que vence batalhas de respeito
Com vestígios de argumento
E o mínimo despeito.

domingo, 5 de maio de 2013

Mommy

Ela do nada consegue fazer tudo
E com a precisão de um relógio suíço
Gere uma profissão não paga
Sempre com o mesmo sorriso.

Gere esse negócio sem estudo
Com sucesso imenso e sem pesquisa a fundo
Para nos ombros que levam o menino
Carregar os problemas do Mundo.

É perfeita com toda a virtude
Mas muito chata quando convém,
É do tempo que ela é Senhora,
É de Vida que ela é Mãe.

Biblioteca Sabática #6

Florbela Espanca (1894-1930) é uma escritora/poetisa muito importante no panorama nacional. Tida por uns como louca, por outros como genial, é certo que deixou um legado forte na literatura portuguesa, se tivermos em conta a efemeridade da sua vida.
Assim como as suas opiniões e discursos em vida, Florbela Espanca é alvo de avaliações extremas. Ou se ama a sua obra, ou não se gosta de todo. Penso que em parte isso se deve a toda a intensidade com que ela exaltava temas marcantes como o Amor ou a Saudade, nos quais para a poetisa a palavra era verbo, era acção. Florbela Espanca não se limitou a escrever o que sentia, como também viveu o que escreveu, e por isso apresenta-nos uma escrita que é liricamente bela mas também rica em toda uma dimensão carnal e feminista. Curiosamente, o livro que trago hoje para a conversa foi editado postumamente, mas é para mim o mais intenso (é mesmo a palavra que me vem sempre à cabeça quando falo de Florbela Espanca), o mais sensível, o mais sentido.


Charneca em Flor (1931) é um dos livros mais conhecidos de Florbela Espanca, muito por causa de nele se encontrarem presentes alguns dos sonetos mais perfeitos da escritora, como o sensual Volúpia, o desesperado Amar! ou o inigualável Ser Poeta, imortalizado através da musicalidade dos Trovante de Luís Represas e João Gil. É considerado quase unanimemente o livro mais sincero da poetisa, pois é nele que esta se abre de forma declarada ao Mundo e nos faz um auto-retrato fiel e sentido da fase mais complicada daquela que foi a sua curta vida, e ainda hoje este livro representa um dos maiores depoimentos escritos de um coração lusitano imensamente massacrado, pertencente àquela de quem Fernando Pessoa disse um dia (no poema À memória de Florbela Espanca) ter uma "alma sonhadora / Irmã gémea da minha".


Boas Leituras!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Um Amigo

Todos temos um amigo
Que nos ouve e para nós fala,
Permite-nos voar no sonho,
Voltar ao solo num Futuro risonho.

Todos temos um amigo
Que nos guia na leveza de uma dança,
Aquele que é único entre os comuns
E nos dá a melhor lembrança.

Quanto mais nos dá mais tem para oferecer,
É ele que nunca se esgota no tempo,
Que dá vida ao que se deixa morrer.

E o melhor deste amigo de algibeira
É que está à distância de um braço,
Ali pousado na prateleira.



Extremamente atrasado, mas fica aqui um singelo tributo em forma de soneto ao Dia Mundial do Livro (23 de Abril)