segunda-feira, 22 de setembro de 2014

q.b.

Louvo e abomino a tragédia
De sentir tanto de tão pouco,
De gritar até ficar rouco
Se nem no copo de água há tempestade.

Gravo na carne um sopro do vento,
Clamo pelo recuar da idade,
Nem sei porque tento
Se morro com a verdade.

O fim está perto
Ainda que coberto,
Despeço-me deste veneno.

Afinal sempre soube:
A Vida é tão grande
E eu tão pequeno.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Mudo

Tens de fazer muita merda,
Mas que envolva mais alguém,
Que a merda é de quem a herda.
Dorme de luz acesa
E deixa a conta abandonada,
Esconde-te debaixo da mesa
E oculta a respiração cansada
E come a sobremesa sem usar uma colher.
Abraça a tristeza
E arranja uma linda mulher
Só para estragares tudo a seguir,
E olha que o agora já vem tarde;
Impede-te de rir
E se puderes, os outros também
Cria vidas miseráveis, poucas serão cem;
Segura-te para não tentares subir
E sê um filho da mãe
Deprimido e nojento e descrente,
De quem todos tenham pena
Mas ninguém aguente.
Mantém-te só contigo mesmo,
Que se te enganas podem tentar fazer-te feliz;
Entra numa luta de tasca
E parte um nariz
E que de preferência não seja o teu,
Apropria-te do mais adequado linguajar rasco
Que soe a teu,
Que provoque asco
Suficiente para que te considerem demente
Ou que "pessoa" passe a ser uma hipérbole usada para te descrever.
Basicamente, vive uma vida miserável
E corta com tudo o que é razoável,
Mantém o tom até a Morte te rasgar devagarinho
E assim fará sentido quando partires sozinho.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Aquilo Que Fazes

Onde parece existir nada
O espaço é teu de direito,
Subiste tudo no teu leito;
O final já está escrito:
Perdes-te em ti,
Ganhaste o passado
Tão efémera de espírito,
Em tempos foste futuro,
Não passas agora de pecado.
Não voltas a nada,
Um onde ou um quem,
Não és nada para além de tudo
Só que nem teu nem de ninguém.
Selvagem nessa tua dança,
Hoje vais à caça
De ser criança
Inocente numa carcaça;
Voltaste à vida
Num minuto desperto
E voaste num mero segundo.
Como o acaso se desajeita
E o infinito passou tão perto,
Com todos os teus defeitos
És mais do que perfeita.