sábado, 28 de dezembro de 2013

Morre!

Morre!
se ficas descalço em chão lauto,
Se o Futuro é vil e tu tão incauto,

Morre!
porque ficas quieto enquanto tudo em teu redor ande,
O Mundo é pequeno e tu tão grande,

Morre!
se te diluis no Universo,
Se faço da tua prosa meu verso,

Morre!
por uma Pátria sem Pai nem Mãe,
Se o que hoje te morre é de outro alguém,

Morre!
se a tua armada perde rumos e lemes
E a morte ainda é o que temes,

Morre!
porque tens de o fazer,
Nesse dia vais voltar a nascer.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Faz

Não sejas frio como o tempo
Se a época é para te aquecer o coração,
Se te enfartas e já estás farto
Olha para o lado e estende a mão.
Tu que te queixas da vida,
Tu que piscas o olho à morte,
Repara no que outros fazem
Com metade da tua sorte,
Com um terço do que assumes ser bem.
Tu que te fias no azevinho por anos,
Vai à rua e faz por amar,
Faz por seres feliz e cantar,
A neve cai lá fora e tu podes sonhar.



Um Feliz Natal para todos!!!

domingo, 22 de dezembro de 2013

Uma Mão Cheia de Nada

O Zero era um número muito triste. Nunca tinha tido amigos e todos o tratavam de forma diferente. Afinal, enquanto que o universo dos números se regia por quantidades, ele não tinha qualquer valor. Havia números mais positivos, outros havia que eram capazes de viver a vida de uma forma mais negativa, mas ao Zero ninguém dava atenção e companhia. Tinha havido aquela vez em que ele tentara travar amizade com o Menos Um, que andava sempre cabisbaixo por não encontrar a raiz dos seus problemas. Nos primeiros tempos as coisas correram bem, mas cedo este último se fartou de tentar compreender o Zero e arranjou um amigo imaginário.
Como tal o Zero questionava-se com frequência. "Que estou eu aqui a fazer? Não sirvo para nada! As pessoas não precisam de mim para falar de quantidades! Quando alguém quer falar de mim, eu estar ou não estar é exactamente a mesma coisa! A minha vida é miserável..."
Não o podiam acusar de não tentar. Um dia o Zero tentou somar-se ao Dois, mas aquele número ficou exactamente na mesma, o Zero não acrescentava nada à sua existência. Logo a seguir o Zero tentou subtrair-se, mas o resultado mantinha-se: os números não sentiam nada de diferente, nem uma leve comichão. Estar ou lá estar um certo algarismo de aspecto ovalado e simplista não fazia a mínima diferença.
Ele tentou dividir-se por alguns números, mas aí era ele que se mantinha igual; a situação não parecia melhorar. Tentou o recíproco, mas os outros números não aceitavam dividir-se por ele, diziam que o Zero como denominador era "um zero à esquerda". Depois lá está, à esquerda das vírgulas representava algo pequeno a que poucos ligavam, menor que uma unidade; já à direita da vírgula era completamente desprezado. Pobre Zero, não tinha sorte nenhuma!
Em última instância tentou algo com que sempre sonhara, tentou arranjar alguém com quem se multiplicar. E aí as coisas correram novamente mal. Foi nesta altura que o Zero percebeu que se sentia completamente inútil, pois não havia um único número que se queria multiplicar com ele. Todos argumentavam que se o fizessem ficariam também reduzidos a nada e as suas vidas tornar-se-iam igualmente miseráveis, sem nada a acrescentar ou retirar a uma tabuada ou a um caderno de Matemática.
Porque é que tinha de ser ele a representar a ausência? Porque é que tinha de ser ele a estar destinado à solidão? Era tão mais fácil ser como o Um, o Ministro da Numeração e Representante Oficial da Unidade, ou então o Oito, o Número da Criatividade, que quando se deitava para sonhar tornava-se infinito... Numa eternidade de números, porque tinha ele de ser aquele que não tinha qualquer interesse para ninguém? E ainda se sentia pior quando olhava para o Cem, o Mil, o Milhão ou até o Googol, números cheios de zeros mas de enorme valor para o Mundo da Numeração e para a sociedade em geral, em particular para os raptores dos filmes, fãs de números redondos e chorudos; e a única diferença que havia entre eles e o Zero era que eles ali à frente de uma infinidade de nadas tinham um singelo "1", e só isso é que os tornava tão diferentes... Aliás, depois de se ter um qualquer algarismo à frente, o Zero via outros semelhantes a si ganharem uma importância invejável, tornando o número de que faziam parte gigantesco e imponente.
Todas estas coisas colocaram o Zero no meio de uma enorme depressão, no meio de uma enorme dor. Era preciso parar aquela dor, era preciso acabar com aquele sofrimento. O Zero decidiu naquele momento que se ia apagar de todos os livros e computadores da Terra, e assim não mais precisava de suportar uma vida em que não era importante para ninguém.
Ora, isto criou-lhe mais um problema. Por muito que ele gastasse todas as borrachas existentes e queimasse os livros que pudesse, não se conseguia eliminar, porque iam surgindo sempre novos livros. O Zero não era apenas um grafismo representativo do nada, era um conceito que vivia nas mentes das pessoas. E como os conceitos são eternos, cedo o pobre Zero concluiu que se encontrava destinado a passar a eternidade com a horrível sensação da inutilidade da sua vida. Pior do que ser nada, pior do que a dor que não passava, era o sentimento de impotência para mudar o destino que fazia com que este algarismo perdesse toda a alegria de viver. Não havia uma única acção a tomar, não havia possibilidade de mudar o rumo da história, e o Zero passa agora pela provação de sobreviver a gerações consecutivas sem ser notado.
Mas há algo que nunca ninguém disse ao Zero...
Todos os gráficos precisavam de uma origem, e essa origem era o zero. O universo formou-se no princípio de tudo, no segundo zero do minuto zero da hora zero do ano zero. Todas as músicas bonitas começam aos zero segundos. A água congela a partir dos zero graus. A fórmula resolvente para equações do segundo grau exigia que estas fossem iguais a zero. O império romano não sobreviveu ao tempo e não usava o zero. Já a numeração árabe foi a primeira a incluir o zero e eram eles os mais avançados na História em termos de medicina e ciência, enquanto na Idade Média a Europa era retrógrada. Na infinidade do Espaço a gravidade era zero. Sem o Zero e a sua relativa menor importância, todos os outros números tornar-se-iam menos importantes também, por comparação.
Tudo isto fazia do Zero um número único e muito especial. E ele desconhecia-o, tudo porque não existiu quem lhe apontasse os méritos, porque estavam todos muito preocupados em mostrar que eram números mais interessantes que um pequeno algarismo que representava uma panóplia de sinónimos como nada, nulo, ausência, falta ou vácuo.

No fundo, Zero.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Cru

O bebé acabou de abrir os olhos.
Não sabe o que o rodeia.
Chora para dormir e comer.
Ainda agora acabou de nascer.

O bebé já diz as primeiras palavras.
Já conhece as pessoas e o amor.
Chora quando tem alguma dor.
Ainda não sabe se quer crescer.

O bebé foi para o infantário.
Faz amigos e sonha muito com o que o Mundo pode trazer.
Queria entrar num conto de fadas.
Pensa no que quer ser quando crescer.

O bebé já está na escola.
Acha que os adultos não confiam em si.
Brinca às escondidas e não pára de correr.
Quer cada vez mais crescer.

Mas o bebé agora já não abre os olhos,
Já não chora por coisa alguma,
Já não sente qualquer dor,
Já não brinca com os amigos,
Já não sabe o que é o amor,
Já não sonha com contos antigos,
Já não reflecte sobre o mundo dos adultos,
Já não vai à escola,
Já parou de correr.
O bebé não vai chegar a crescer.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Biblioteca Sabática #13

E desta vez, uma obra que até à data ainda não se encontra traduzida para português mas que me diz muito.
Stephen Chbosky (Pittsburgh, 25 de Janeiro de 1970) é um romancista, argumentista e realizador americano. Apesar de não ter grande quantidade de obras de relevo reconhecidas pelo público, foi co-autor e argumentista da série televisiva Jericho, e entes disso arranjou tempo para escrever um livro brilhante, no qual posteriormente baseou um filme (que acabou por ser o meu favorito de 2012).


The Perks Of Being A Wallflower foi escrito em 1999, tendo a oportunidade de se transformar num filme 13 anos depois. Passa-se no início dos anos 90 e conta a história de Charlie, um rapaz escritor tímido e que passa facilmente despercebido onde quer que vá, prestes a iniciar o seu primeiro ano de Secundário. Na forma de cartas com destinatário desconhecido, Charlie vai relatando na primeira pessoa as ocorrências da sua vida: a forma pouco convencional de ver o Mundo e de lidar com as escolhas, a Amizade com Patrick (um rapaz expansivo e extrovertido que se vê obrigado a esconder a sua homossexualidade) e Sam (a meia-irmã de Patrick) e as descobertas proporcionadas pelo Amor.
Um livro que Chbosky assumiu ser em parte autobiográfico, mas que me parece ser universalmente biográfico. Já todos fomos ou somos Charlies, Pattricks, Sams e outros tantos seres que se sentem únicos no Mundo, mas sentiram que toda essa diferença que tinham os fazia sentir que estavam sós, que não tinham quem os compreendesse. É quando descobrimos pessoas estranhas como nós, pessoas que recusam ceder às pressões da sociedade e ao que é politicamente correcto, que nos faz sentir livres e compreendidos, parte de uma simbiose perfeita na qual o destino nos coloca.
Quem somos? O que fazemos? Será que temos direito a sermos especiais? Qual é a razão da nossa existência? Faz sentido amarmos e sermos amados? Faz sentido esperarmos sermos recompensados por lutarmos, ou será que tudo o que nos acontece está programado? Será que temos todos talentos únicos? Será que devemos apresentar os nossos talentos à luz do dia e suarmos para que eles se revelem um bem maior? Porque nos sentimos sozinhos? Porque temos necessidade de fazer com que os outros nos aceitem? Porque é que temos medo de acabar sem ninguém a chorar por nós, sem alguém que ache que a nossa vida teve importância? Merecemos ser felizes? São estas e muitas outras perguntas que The Perks Of Being A Wallflower nos coloca desde a primeira à última palavra. Umas são respondidas, outras não. Mas não é algo que dependa do livro e sim do leitor, pois nós somos moldados pelas nossas acções enquanto seres humanos e portanto vamos ler nas entrelinhas que quisermos, e retirar a beleza que pretendermos de uma obra única. Fica uma só certeza: estas páginas não dão lugar à indiferença. Neste livro, o fim é apenas o início.

Boas Leituras!


P.S.: Preguiçosos, não se limitem a ver o filme (apesar de também o aconselhar vivamente). Não se vão arrepender.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Viagem pelos Caminhos da Mente: Volume 7

Corro sem parar, corro sem fôlego até que os sapatos fiquem sem nada mais do que a minha pele por baixo. Vi-me neste labirinto sem saber porquê nem como, e agora só sei que me resta correr. Não sei para onde vou, não sei de onde vim, mas vislumbro por entre a densidade da vida uma réstia de luz, e é para lá que caminho, é para lá que quero caminhar, é lá que quero estar.
Olho para a curva diante de mim e penso no que aí virá. Pode ser um fim ou princípio, pode ser um precipício ou pior ainda, outra curva igual. De que serve correr se a sensação é a de que não saímos do lugar?
Doem-me os pés e o coração, acho que me estou a cansar de correr sem direcção. Talvez fosse melhor voltar para trás, abdicar do que aí vem em favor do que o destino já me garantiu… Mas quando olho para trás, constato que o solo que piso se desmorona no vazio no mesmo instante. Já não é opção voltar para trás, já não é válido sequer parar. Resta correr em direcção ao Sol, confiar no desconhecido e passar a conhecer o infinito. Lá, no sítio onde moram os sonhos.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Queria Ser Um Anjo

Queria ser um anjo;
Um ser alado e despreocupado a voar pelo céu,
Um ser que não se vê réu,
Que viaja cegamente entre o real e o mito,
Que se descobre no infinito.

Queria ser tudo e muito mais
Queria ser Deus entre outros tais,
Ter poder para ser alguém
Completo sem estar deslocado,
Para ser rochedo sem ter amado.

Mas só o Sonho fala de anjos.
Não há pessoa que seja pássaro
Nem desgraça que seja contente,
Eu podia voar com o corpo
Mas escolhi voar com a mente.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Nim

Água que se esconde no deserto,
Sol que rompe no dia nublado,
Prazer que surge na dor
Ou um certo tão errado.

Procrastinando activamente
Num sorriso sem expressão,
Mágoa que por vezes não pesa
Quando chega ao coração.

É carta enviada sem selo
E coloca pressa na calma,
É calor que derrete gelo,
É calor que gela a alma.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Biblioteca Sabática #12

Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo seu pseudónimo literário George Orwell (Motihari, 25 de Junho de 1903 - Londres, 21 de Janeiro de 1950), foi um escritor e jornalista inglês conhecido essencialmente por colocar na maioria das suas obras uma grande perspicácia, inteligência e uma clara exposição das injustiças sociais, tudo isto muitas vezes temperado com a dose certa de sátira.
Tido como um dos escritores ingleses mais influentes do século XX,  o trabalho de George Orwell perdura nos dias de hoje a nível popular e político, com vários neologismos criados pelo autor a serem adoptados pelo público e com duas das suas obras a destacarem-se em termos de vendas e reconhecimento de todas as outras: a profundamente satírica Animal Farm e o distópico Nineteen Eighty-Four. E é deste último que vamos falar.


Nineteen Eighty-Four, também conhecido por 1984 (publicado em 1949) retrata o quotidiano num regime político totalitário e repressivo no ano em questão. Somos apresentados a uma sociedade oligárquica altamente repressiva perante aqueles que se tentam revoltar.
O narrador da história é Winston Smith, um homem a quem é atribuída a missão de perpetuar a propaganda do regime através da falsificação de documentos públicos e livros, de modo a que o Povo pense que o governo é um exemplo de correcção e de defesa dos direitos humanos. No entanto, há medida que vai avançando na sua tarefa, Winston vai ficando cada vez mais desiludido com o governo e com a miserabilidade da sua vida, e é então que decide organizar uma rebelião contra o sistema.
Esta obra mostra-nos Orwell em todo o seu esplendor, pela acutilância e inteligência com que nos apresenta um mundo fictício que poderia ser facilmente confundido com o real. Temos um tema  que era apropriado para a época em que foi editado, que se mantém actual e consistente no Presente e que continuará a ser uma obra de referência no Futuro, onde os Homens tem sempre tendência a seguir caminhos mais directos e menos legítimos para alcançar o Poder e exercer o controlo sobre os Homens.

"Big Brother is watching you."


Boas Leituras!

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Nada

Vácuo, lacuna ou zero
Tantos vocábulos que expressam o que quero:
Um vazio ilimitado de ideias,
De uma criatividade que se esvai
Escondida atrás das ameias
Dessa fortificação prestes a ruir,
Um deserto sem oásis
Que insiste em manter-se por perto
Oferecendo resistência a fluir.
O que é do Homem sem algo?
O nada não é mais que a ausência de tudo,
Mas vestígio de terreno fértil que já deu fruto
Consumido de um trago antes que virasse amargo,
E antes a memória do que já houve
Que o luto do que nunca virá.

sábado, 12 de outubro de 2013

Indecisão

Quase todos a preferem suave e aveludada,
Capaz de satisfazer sonhos de infância;
Há quem a prefira de tal forma adocicada
Que se fica pela doçura e perde em substância.

Existem as que contêm obstáculos,
Triturados para de lá se retirar prazer,
E os puritanos gostam de a sentir bem amarga,
Mas com toda a essência que ela deve ter:
Sofrendo em primeira instância,
Acabando a florescer.

Ah! Tanta celeuma e debate
Na hora de escolher uma tablete de chocolate!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Efémero

O que tem valor não perdura,
O verbo usado
Não ganha postura
E a fraqueza revela-se pelo que não é dito.
E pela forma como se subsiste
Numa redoma de enganos
Dos momentos em que se insiste
Em sonhar ser alguém,
Um ser único a elevar-se do abismo
Onde caímos tantas vezes
Em horas de cataclismo
Durante dias, semanas, meses.
É dor sem pai nem mãe,
É antítese iletrada
Em história cravada a ferros
Na frágil pele desnudada.

sábado, 5 de outubro de 2013

Biblioteca Sabática #11

Alexandre Herculano (1810-1877) foi um escritor, poeta, jornalista e historiador de vital importância no panorama da literatura nacional, por ter sido um dos rostos do Romantismo em Portugal e um dos grandes impulsionadores da prosa de ficção moderna no nosso país.
Influenciado por toda uma panóplia de acontecimentos ocorridos em solo nacional durante o início da sua vida, como as invasões francesas, o domínio inglês ou as ideias liberais trazidas da Revolução Francesa, Alexandre Herculano acabou por se destacar dos demais escritores da sua geração, por toda a alma e intensidade que colocava nas suas obras.


Eurico, O Presbítero (1844) é sem dúvida uma dessas obras, e uma das mais conhecidas do autor. Somos apresentados à história de amor proibida de Eurico e Hermengarda, na Espanha visigótica do século VIII. Depois de travar e vencer batalhas ao lado do Rei de Espanha, o valoroso Eurico, de origens humildes, pede ao Duque de Cantábria a mão da sua filha Hermengarda em casamento, sendo que este recusa ao saber que Eurico não é nobre.
É então que este se entrega à vida religiosa tornando-se Presbítero de Carteia, mais por necessidade de afastar as memórias de Hermengarda do seu pensamento do que por vocação, mas o amor verdadeiro é inesquecível e proporciona muitas reviravoltas no mundo de Eurico.
Eurico, O Presbítero é um romance apaixonante e vibrante sobre dois destinos travados pelo peso do interesse e da estratégia política que muito estiveram em voga durante grande parte da História que já se escreveu e daquela que é permanentemente escrita. Às vezes é mais fácil fugirmos daquilo que não podemos ter por não acreditarmos ter valor para mudar o que o destino tem escrito para nós, e isso deixa-nos infelizes e de braços caídos, reduzidos à insignificância da nossa vida. Claro que podemos sempre escolher lutar contra aquilo que nos está reservado na tentativa de alcançarmos aquilo que almejamos, mas será possível alterar aquilo que já está escrito? Uma coisa é certa: ser infeliz sem tentar é muito diferente do que ser infeliz com a consciência de que se fez tudo o que era possível.
Não posso terminar sem deixar de dar o meu "selo de qualidade" a esta obra: quando alguém me fala em "Romeu e Julieta", a minha primeira reacção é dizer sempre "Eurico e Hermengarda". Talvez haja quem ache exagero, mas qual é a grande história de amor que não vive de exageros?

Boas Leituras!

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

In Vitro

Na cidade que não dorme
Fiz meus sonhos de outras gentes,
Construí muralhas, derrubei portas,
Tomei castelos em várias mentes
E fiz-me senhor de um Império
Tomado de assalto sem critério.

Mas a segurança escasseia
E o motivo não é alheio:
Foi quando tudo usurpei
Que me senti homem meio;
Muito posso ter levado
Mas muito foi o que de mim deixei.

A conquista não faz o Homem
Nem a inércia o mantém,
É fazer o que não foi feito
Que faz dele alguém.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Passados

És um adulto a viver da memória
De quando eras criança
E procuravas glória,
Não te preocupavas com o Mundo
Ou com o abismo que te roubava o chão
Era a tua trajectória
Que te enchia o coração
Da forma mais completa,
Mesmo sendo aleatória
E a tua mente deserta
Com as mudanças da História
Vistas a 3 palmos do solo
E relatadas sem dotes de oratória,
Até que olhes de cima o céu
Em que um dia te hás-de perder
E a conversa sobre o futuro te soe irrisória,
Pois crescer é morrer.

domingo, 8 de setembro de 2013

Biblioteca Sabática #10

Ken Follett (nascido em Cardiff, em 1949) é um escritor de créditos firmados nas áreas da literatura policial, dos romances históricos e dos thrillers de espionagem. Desde a década de 70 que publica obras, primeiro sob vários pseudónimos e uns anos mais tarde em nome próprio, e foi já a assinar em nome próprio que o autor conseguiu, em 1978, publicar o seu primeiro best-seller, The Eye Of The Needle (O Estilete Assassino), o qual iria catapultar a sua carreira internacionalmente, ajudando a que hoje em dia tenha mais de 100 milhões de cópias vendidas em todo o Mundo e vários prémios ganhos.
Apesar de a maioria das suas obras abordar o tema da espionagem durante as duas Guerras Mundiais (ou períodos ainda mais recentes), Ken Follett tem como uma das obras mais famosas do seu "reportório" uma história que não tem nada a ver com o século XX. Aliás, este é um romance histórico que em termos temporais se situa bem longe desse período.


Os Pilares Da Terra (The Pillars Of The Earth, 1989) representa a primeira aventura de Ken Follett na escrita de romances históricos, e relata a história da construção da Catedral de Kingsbridge, em Inglaterra, no século XII (durante o período histórico conhecido como A Anarquia), fruto da vontade de um pedreiro chamado Tom, que tinha precisamente como sonho construir uma catedral durante a sua vida, para deixar como legado algo bonito e majestoso.
É quase impossível fazer um resumo de qualidade de uma obra que consiste em 2 volumes e mais de 1000 páginas no conjunto, mas há que referir que aquilo que parece à partida um enredo simples se vai transformar num romance épico de proporções imensas. Vemos os interesses políticos por parte de Nobreza e Clero e a persistência dos heróis das classes baixas, cujas vontades são ameaçadas tanto pelos poderosos como por membros do seu próprio estrato social.
A narrativa é fantástica e fluída e o enquadramento com os factos históricos está muito bem conseguido, deixando-nos a nós, leitores, constantemente ávidos por ler o capítulo seguinte com a maior  rapidez possível. Para além disso, Ken Follett mostra-nos aqui, como em todos os seus restantes livros, personagens muito bem construídas; o espaço temporal não nos impede de reconhecer a coerência e veracidade das suas acções (os vilões são excelentes, causando raiva, desespero e frustração genuínos no leitor, fugindo ao normal do autor, que nos consegue muitas vezes colocar a torcer ou sentir uma ponta de pena pelo "mau da fita"). E se na realidade a única crítica negativa a apontar a esta obra se prenda com o facto de o final não conseguir fugir a alguns clichés habituais, não deixa de ser verdade que isso não belisca em nada a grandiosidade de uma história que tem vindo ao longo dos anos a apaixonar pessoas de todas as idades, naquela que foi uma primeira saída da zona de conforto muito bem sucedida por parte de Ken Follett.

Boas Leituras!

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Triangulação

Olha lá no alto, tão grande a lua
Perto e longe, como outros tantos bens,
És soldado numa guerra que não é tua
Para proteger o que não sabes se tens.

Vê se o caminho está livre
E o inimigo não está no campo de visão,
Pega nas armas que encontras
E lança-te de coração.

Não podem matar o que não vive
Por isso não há como perder,
Na guerra tudo muda
E o que não eras, passas a ser.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Devaneios de uma Pontuação Transtornada

Era uma vez um sinal de pontuação, um Ponto e Vírgula, que vivia na tecla do computador de uma Biblioteca Municipal. Há muito tempo que ele ali vivia, mas naquele momento andava com alguns problemas, nomeadamente uma grande crise de identidade.
Não é que o Ponto e Vírgula (PV para os amigos, e ele ainda tinha alguns) vivesse infeliz. Afinal ele tinha um lar e tinha dezenas de amigos que moravam perto de si nas teclas do computador, que mais podia pedir, certo? Mas havia algo que faltava, algo que não soava bem na vida normal de um sinal de pontuação... O calor humano.
Computadores em bibliotecas são como lojas do cidadão, estão sempre com gente. Todos os dias aquele computador era usado: era o menino da escola básica que ia pesquisar sobre o mais recente filme dos Vingadores, o universitário com dúvidas de Química Orgânica, a solteirona que morava ali ao lado que ia à procura de novos esquemas de ponto cruz. A electricidade era bombeada pelo cabo como sangue pelas veias, nessa busca incessante que o ser humano travava por informação de utilidade variável. Todos andavam em modo de trabalho naquela máquina, mas tinham ainda outra coisa em comum: não usavam o Ponto e Vírgula.
Nos primeiros tempos parecia algo normal, já que o PV tinha ouvido dizer que a sociedade andava por maus caminhos literários, e toda a gente se perdia com facilidade na arte de escrever bem. E ele dizia para si coisas como "tudo bem, se calhar ainda não repararam em mim, para a próxima é que é"! Mas nunca chegou a ser. Mesmo entre amigos nem tudo corria bem. Dois estrangeiros residentes no teclado com os quais o Ponto e Vírgula se dava, o Enter e o Delete, tratavam-no por "Semicolon" e ao Dois Pontos por "Colon". Não fazia sentido. Ele, PV, era um sinal de pontuação mais complexo, constituído por duas marcas tão diferentes como o ponto e a vírgula, e era tratado como metade de algo, e aquele que se repetia é que era tratado como um inteiro?
O PV desesperava, e numa fase de maior transtorno decidiu consultar um especialista em Semântica Psiquiátrica e expôs-lhe a situação:
- Senhor Doutor, ninguém quer saber de mim! Dos 8 aos 80, homem ou mulher, ninguém me dá atenção, ninguém sabe para que sirvo! Acho que já nem nas escolas falam da minha função na Língua Portuguesa! Serei assim tão insignificante?
- Meu caro, permita-me explanar-lhe a a ocorrência de uma forma o mais sintética e exemplar possível, possibilitando-me e possibilitando-o simultaneamente usufruir de maneira prática das minhas soberbas capacidades linguísticas! Ora bem, existe efectivamente uma probabilidade avultada de sua excelência se encontrar neste preciso momento vítima de ignorância, mas não pressinto motivos para o desespero! O Destino encontra-se em constante fabrico de situações de cumprimento de uma feliz justiça que age sempre no favorecimento daqueles que praticam o bem, como aparenta ser o seu caso... Como tal, recomendo-lhe que deixe o tempo actuar nesta tão crucial questão, e verá que não tardará a descobrir alguém que lhe dê o devido valor!
- Mas... Mas...
"Mas que raio de resposta, ora essa! O senhor linguista é cheio de salamaleques e palavras caras, com ideias motivacionais muito engraçadas no papel, mas nem ele foi capaz de usar um sinalzinho deste aspecto ( ) na porcaria de um parágrafo gigantesco e inócuo", era o tipo de pensamento que ocorria ao frustrado PV.
Os dias iam passando, a tristeza aumentando. Havia uma tecla que definhava com velocidade acrescida ao longo do tempo, e era a que tinha um ponto e uma vírgula. Mas que poderia ele fazer para que gostassem dele?
Foi então que ele teve uma ideia. Porque não tentar ouvir as pessoas, tentar saber do que elas gostavam e precisavam, e então dar-lhes isso? Era excelente! PV começou então a prestar atenção redobrada aos usuários daquele computador, e percebeu que havia dois tipos de pessoas: as apressadas e as pachorrentas. O primeiro tipo claramente queria despachar-se a todo o vapor daquela missão de pesquisa. Queriam lá saber da pontuação, e quando a usavam eram vírgulas, porque faziam as pausas mais curtas. Já o segundo tipo eram as mais vagarosas, mais lentas. Queriam saber tudo com a maior certeza antes de acabar a pesquisa. Faziam muitas pausas na escrita. Frases curtas e muitos pontos finais no texto, para permitirem uma respiração longa e relaxada.
Era então esse o problema! As pessoas queriam pausas curtas ou longas, não queriam saber de quem lhes possibilitava pausas intermédias, que não se coadunavam com a sua personalidade! Bem, o PV queria amigos, portanto era justo que ele fizesse algo por isso... Decidiu então mostrar apenas metade de si a cada um dos grupos de pessoas que usavam o computador da biblioteca. Aos apressados, mostrava só a sua metade de Vírgula, aos vagarosos, só aparecia como Ponto.
Que tempos felizes! Todos queriam saber dele, todos se davam com ele, todos pediam para o utilizar em pesquisas, trabalhos, livros, composições! A vida era tão alegre, com pessoas que lhe davam atenção! Não havia nada que ele quisesse agora, excepto... Bem, era uma coisa parva, mas quando estavam com o PV, as pessoas acabavam por reconhecê-lo pela faceta que conheciam dele: uns chamavam-lhe "Ponto", outros "Vírgula", mas ninguém o tratava por "Ponto e Vírgula"... Mas gostavam dele, isso é que interessava... Pelo menos...
Oh, vida cruel! O Ponto e Vírgula andava triste por ninguém querer saber dele, e agora que isso acontecia, ele continuava infeliz. É que as pessoas importavam-se com ele, as pessoas davam-lhe a atenção que ele sempre desejou, mas apenas (acabara ele de se aperceber) porque ele fingia perante elas ser algo que não era exactamente. Não que ele não tivesse uma parte de ponto final ou de vírgula dentro de si, mas havia mais, muito mais! Ele não era só metades interessantes, ele também era desinteressante! Ele estava cheio de regras sobre como devia ser utilizado, para que nem todos se pudessem servir dele para magoar um qualquer texto desleixado! Ele era assim porque achava que era o correcto, e tinha esquecido que a sua natureza era o que fazia de si especial. Quem gostasse dele e o usasse teria de o fazer com consciência dos seus defeitos e virtudes, para o poder fazer correctamente. Afinal, no dia em que encontrasse alguém assim, o PV sabia que estava perante alguém verdadeiramente especial. Era só preciso que o Ponto e Vírgula não renunciasse àquilo que era verdadeiramente, e o Destino encarregar-se-ia do resto (bolas, o doutor dos salamaleques tinha razão...).
E foi então que pela primeira vez na sua vida, a solidão não diminuiu a felicidade do PV. A expectativa mantinha-se alta, todos os dias, mas o desespero já não o assolava. A hora dele ainda não tinha chegado, mas não tardaria! E o que é certo é que não tardou mesmo.
Foi numa tarde de Primavera a fugir para temperaturas veranis que ela surgiu. Uma rapariga morena de pele delicada e cabelo comprido de ar rebelde que contrastava com a calma transmitida pelo resto da figura. Sentou-se, abriu o editor de texto e começou a escrever. Foi aí que o Ponto e Vírgula sentiu que aquela rapariga era diferente. Aquele ser humano de ar delicado e tímido, ao toque na primeira tecla, transformou-se imediatamente na dona de um corpo furioso a escrever, no meio de um turbilhão de ideias e emoções. Foi impressionante, e naquele momento, o PV desejou ser notado. E então, num repente, a rapariga olha para o teclado, repara no facto de a tacla do Ponto e Vírgula apresentar um desgaste do uso infinitamente inferior às restantes, e disse:
- Olha, é mesmo de ti que preciso!
O Ponto e Vírgula nem queria acreditar:
- De mim?!
- Claro! Pretendo ligar duas orações independentes sem recurso a qualquer conjunção, porque ando um bocado farta delas. Vou ser sincera, as conjunções têm sempre a mania que são muito úteis e sabichonas, sempre com algo relevante a acrescentar - disse a rapariga. - Às vezes dão muito jeito, e é um facto de que não conseguimos viver sem elas, mas eu cá não gosto de estar dependente de nada nem ninguém! Importas-te de me auxiliar?
Era um sonho tornado realidade. Alguém que se importava com o Ponto e Vírgula e que lhe pedia ajuda numa situação válida para ele ser usado!
- Claro que ajudo! És a primeira pessoa a convidar-me a entrar num texto de forma correcta, sabes?
- A sério?! Estas pessoas, francamente... Não sabem o que andam a perder! Sempre te achei extremamente interessante! Tens tanto para oferecer e enriqueces tanto os textos onde apareces! Se as pessoas não te davam o devido valor, elas é que perdem! E eu ganho! - Afirmou com um sorriso nos lábios.
E foi assim que nasceu uma bela história de paixão pela literatura, e foi também assim que o Ponto e Vírgula se intrometeu numa simples linha de uma simples página de um singelo livro que iniciou a carreira de uma vencedora de Prémio Nobel. Com a alegria estampada no rosto, o discurso de agradecimento teve direito a uma menção ao importante amigo que um dia a ajudou a escrever uma frase pela qual ela ficaria conhecida:
"É o Amor que nos corrói; é o Amor que nos constrói."

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Misantropia

É um reino sem Rei,
Onde o povo é rico
E o acontecer não tem lei.

A ajuda não vem,
A sorte é madrasta,
Há mal no bem.

A terra não é cultivada
Porque o agricultor não quer nada,
Porque a terra não merece amor.

Não há sonho nem esperança
Até a inércia virar vontade,
Vontade nas mãos de uma criança.

sábado, 17 de agosto de 2013

Segredo

É na praia que se encerra
A história da areia e do mar:
A areia, seca e grumosa
Viu a água e começou a sonhar
Com o dia em que gostariam dela
E não iriam para casa para a tirar
Porque o mar é salgado e perigoso
Mas todos falam de a areia atrapalhar.

Com todos estes pensamentos
Ela esqueceu-se de viver;
Vieram ondas vigorosas
Levar a areia, que começou a desaparecer.

E muitos são os tesouros que a areia esconde
E o mar desterra,
Mas apesar das agruras que a vida encerra
É só deles o momento
Quando o Sol toca a linha do horizonte,
As palavras que ambos trocam,
Talvez num sopro o vento as conte.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Insolúvel

Chego à eleição
Com complexos de inferioridade
Por não ter qualquer noção
Por quem estás na realidade.

Escondes o jogo, para meu receio,
Como é desde já teu apanágio,
Ainda assim, e apesar do obscuro
Apresento-me a sufrágio.

Mas longa é a noite
E repleta de terror,
Vou de julgado a mal amado,
Julgo eu que não tenho valor.

Porque é que concorro
Se já perdi?
Se há candidato mais valoroso
A recolher atenções para si?

Não sou ambicioso nem pulha
E só para mim é que sou crítico,
A culpa é toda minha
Por achar que dava bom político.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Biblioteca Sabática #9

Pedindo desde já desculpa pelo atraso nesta publicação, cabe-me anunciar que desta vez trago uma obra que, não sendo propriamente "literária", faz parte de uma colecção bastante interessante sobre o comportamento humano.
Mas primeiro, os autores. Allan e Barbara Pease são os dos mais bem sucedidos casais no mundo do tratamento das emoções e da linguagem corporal.
Allan, conhecido internacionalmente como  Mr. Body Language, começou a sua carreira como músico, tendo depressa desistido e começado a trabalhar como vendedor de seguros de vida. Foi durante este emprego que a observação de diversos clientes o tornou num bom leitor de linguagem corporal e num óptimo comunicador, o que subsequentemente levou a que este editasse o seu primeiro livro, Body Language (Linguagem Corporal) em 1981, nunca mais tendo parado.
Barbara juntou-se ao marido neste tema mais tarde, sendo actualmente a CEO da Pease International Pty Ltd., a empresa fundada pelos dois e que é o meio responsável pelos livros, palestras e marketing relacionado com a investigação de ambos. Juntos, Allan e Barbara Pease já escreveram 6 bestsellers, traduzidos e vendidos um pouco por todo o Mundo. O livro apresentado em seguida é um deles.


Porque é que os Homens nunca ouvem nada e as Mulheres não sabem ler os mapas de estrada (Why Men Don't Listen And Women Can't Read Maps: How We're Different and What To Do About It na versão original), editado em 1998, quebra um estigma que a sociedade moderna tenta enfiar-nos à  força na mente: a de que homens e mulheres são iguais. Confunde-se muito igualdade de direitos com igualdade. Nada mais errado, e que este livro desmistifica com base na Ciência e na História. O estudo do ser humano desde o início da espécie revela que algumas características ficaram para nós, descendentes dos primeiros Homens e Mulheres, para além da descoberta de que os cérebros de ambos têm constituições e funcionamentos diferentes. Como tal, indivíduos do sexo masculino têm por norma melhores aptidões para umas coisas, enquanto que os indivíduos do sexo feminino para outras. Dizer o contrário é tentar forçar a Natureza a não seguir o seu rumo natural, como nos ensina este livro de forma clara, concisa, divertida e sobretudo descontraída, exactamente como desejamos o nosso Verão! :)

Boas Leituras!


Nota: Para quem gostar do tema, ou caso leiam este livro e fiquem fãs, consultem as restantes obras deste casal (ou em alternativa outras do senhor Allan sozinho ou noutras parcerias) que não se vão arrepender!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Sentidos

Quero tanto escrever
Mas ganha chumbo a pena,
Mão tolhida por um sonho
Na forma de presença de tez clara,
Dona da beleza mais rara.

Foi num só dia que me preencheste
No mesmo dia me prendeste,
Deste vida ao que estava enfermo,
Ficaste comigo no meu lar ermo
E foi nele que aconteceste.

E que eu morra no dia em que fique cego
Se nunca mais te puder ver,
E que eu morra no dia em que fique surdo
Se nunca mais te puder ouvir,
Que me acabe a vida quando perder o tacto
Por não poder dar-te a mão sem deixar de a sentir.

domingo, 21 de julho de 2013

Labirinto

Enveredaste por esse caminho
Complexo e enfadonho
E deste por ti desorientado
Num cruzamento medonho
Que te leva a um percurso
Que nunca podes dar por terminado,
Mais pesadelo que sonho.

E tu andas, e andas,
Deambulas em busca de rumo
Levado à exaustão,
Queres ver-te derrubado
Mas nem para isso tens solução,
Já que nem funciona o teu Fio de Prumo
Para saberes se ainda estás levantado.

O que será mais irónico
São as paredes desse labirinto,
Feitas da mais efémera terra
Mas suficientes para te deixarem faminto,
És único mas não chegas,
E o teu ideal acabará extinto
Porque não foste lesto a cavar
E acabaste apeado,
Porque temias o que havia do outro lado.

Por isso não curves ao sabor da estrada,
Segue em frente, em linha recta
Que com menos de nada não ficas
E podes chegar a tudo,
Aí serás peixe graúdo.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Círculo

Já viste como o Ciclo da Vida
É algo tão literal?
Não é uma coisa normal
Mas não é como se não te tivessem avisado:
Falam-te das voltas que a Vida dá
E de como trocar as voltas a alguém é pecado,
Ou de como contos de terror baratos
Pedem um narrador bem acompanhado.

No fundo és um ponteiro de relógio
Entre meias noites e dias,
Os teus picos não surgem
Quando as tuas vontades urgem,
Esquece o sonho de teres o que querias.

Devias ter percebido mais cedo
Pois procuraste tanto e não viste
Porcos de bicicleta e galinhas com dentes,
É o receio de que não cantes este Fado triste
E vás em busca do que não entendes.

Mas até contra isso a Vida se guardou,
Manda-te viajar para longe em linha recta
E dás por ti circulando o Mundo
Voltando à estaca zero sem cortares a meta.
Aguardas imensos sucessos
Com base no que a esperança te promete
E acabas no mesmo lugar após tantos regressos;
Vês como a História se repete?

Não é uma porta que se fecha e outra que abre,
É só a mesma constantemente aberta,
E essa é a tua salvação:
Podem fazer-te andar em círculos grandes e pequenos
A fazer mais ou até menos,
Mas tu decides a direcção.

sábado, 6 de julho de 2013

Biblioteca Sabática #8

Será que, em relação a um determinado autor, podemos sentir-nos mais fascinados por um livro que sabemos não ser o mais genial e pensado do mesmo e talvez nem sequer o nosso preferido? Nunca me tinha acontecido até agora, mas posso garantir que é possível.
Vou poupar nas palavras a José Saramago, porque o próprio as dispensa. Vencedor do Prémio Camões em 1995 e do Prémio Nobel da Literatura em 1998, tem conquistado o Mundo com o seu tremendo espírito criativo e genialidade, mesmo após o seu falecimento, há cerca de três anos.


Claraboia foi editado em 2011 apesar de ter sido escrito por Saramago com uma idade a rondar os 28 anos, quando ainda era um desconhecido do Mundo da literatura. Não foi editado em vida do autor por este considerar a obra como que indigna de ser publicada, por não corresponder a certos padrões impostos por si.
Vou ser pragmático: Claraboia é um livro ingénuo, talvez demasiado ingénuo em algumas passagens. Somos apresentados a um prédio e aos seus moradores, às interacções entre eles, às vidas que têm e que anseiam ter, aos erros que cometem e as consequências que de lá advêm. Mas este é um livro demasiado "sincero", um livro em que o autor não consegue disfarçar grandemente que os sonhos e esperanças de algumas personagens não são nada mais nada menos que os seus. Mas por muito paradoxal que possa parecer, é curiosamente o grande ponto fraco do livro que o torna fascinante.
Pensemos em José Saramago, no homem e escritor que se tornou. Pensemos agora no jovem Saramago com 27 anos, um rapaz cheio de vontade mas também muitas inseguranças, sem tiques na sua escrita (para os mais críticos do estilo de Saramago: a pontuação aqui ainda é feita da forma "usual" na Língua Portuguesa) um jovem que no seu interior trava uma luta interior entre o sonho e o medo. Um jovem que guarda em si o desejo de ser alguém e num só livro distribui sobre diversas personagens todo esse desejo, na tentativa de atribuir diversos finais possíveis aos transportadores dessa vontade e com a esperança de que a ele calhe uma das histórias de sucesso, apesar de o fracasso lhe estar igualmente presente na memória. E portanto, acabamos por obter uma interessante luta entre o optimismo e o negativismo dentro de um só edifício, que neste caso já não é o prédio de Claraboia mas sim a mente de um Saramago que não sabe o que esperar do futuro. A magia que este livro acaba por nos passar é precisamente essa, a revelação da evolução de um jovem desconhecido mas com potencial até se tornar num escritor de renome, vencedor de Prémio Nobel. Tecnicamente, apesar de não ir em nenhum lado figurar na lista de melhores livros de sempre e de provavelmente só merecer destaque por ter sido escrito por Saramago, Claraboia é uma metáfora sobre perseguirmos os nossos sonhos e no sucesso que chega quando lutamos pelo que queremos com persistência e convicção, ultrapassando os nossos receios. O único aspecto negativo do livro é o facto desta história ser extra-enredo, mas ainda assim é uma obra literária merecedora da nossa atenção, porque ainda assim tem algumas passagens bonitas.


"Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo. Para nunca mais! Ouviste? Para nunca mais. Quanto mais forte for o teu desejo de felicidade, mais infeliz serás. A felicidade não é coisa que se conquiste. Hão de dizer-te que sim. Não acredites. A felicidade é ou não é."

"Tudo o que não foi construído sobre o amor gerará ódio."


Boas Leituras!

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Pensamento #7

Constrói o teu castelo de cartas sobre uma mesa sólida. Se o castelo ruir tens uma mesa em que te apoiar. O contrário é impossível. Ao construíres uma mesa sólida sobre um castelo de cartas, sabes que mais cedo ou mais tarde vão ruir os dois e no fim não vais ficar com nada.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Cadeia Alimentar

O coelho sai da toca,
Não para procurar que comer
Mas ser apanhado pelo caçador,
Pois é mais fácil ser são e morrer
Que sobreviver em dor.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Prisão

Já te perguntaste
Se o que vês é uma mentira
E o que faz de ti o que és
Não é mais que uma partida?

Mas que grande revés,
Saberes que és um brinquedo
Nas mãos de um Mundo cruel,
Em que sobrevives por entre o medo!

E não podes ler o papel
Que a caneta do Destino escreveu
Onde te põem numa redoma
Da qual te retiram para veres o que aconteceu.

Destruição sem hipótese de retoma
Mesmo que o mal seja invisível,
O que te aguarda é um Futuro condenado
Num qualquer lugar de ambiente sofrível.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Únicos

Faz o que faço,
Diz o que digo,
Não te conheço e sou um amigo
Que te aconselha a correr
Sem teres medo de cair,
Olhares o medo a sorrir.
Cresce a sonhar
E deixa a ideia fluir,
Vive a tentar,
Acabas a conseguir.
Enjeita ser mais do que um
Se te pluralizas sendo como nenhum,
A força vem de onde não vinha
Aparecendo de quem não a tinha
E deixando o Mundo a nu,
Vê como foste apanhado pela eternidade
Pois te tornaste grande sendo tu.





Aqui fica uma pequena homenagem ao melhor poeta português, Fernando Pessoa. Nascido a 13 de Junho de 1888, celebrou-se o 125º ano do seu nascimento.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Teste

Talvez receio,
Muito nervo decerto,
Perco-me num momento
De ideias num deserto
Aprendo com o erro, estou sedento
De lutar pelo que acredito
E suplantar o que é mito
Sempre foi meu intento,
Oh, destino maldito!
Sinto-me fraco e quase desisto
E só eu sei porque insisto,
Espero essa maré de sorte que vai e vem
Mostrando ser mais porque resisto.

sábado, 1 de junho de 2013

Biblioteca Sabática #7

Hoje é Dia Mundial da Criança, e achei que esse facto merecia uma comemoração apropriada da minha parte, visto que tinha de escrever esta rubrica também.
Uma pequena nota para falar sobre o autor (e claro que vão já saber a que obra me refiro). Antoine de Saint-Exupéry (eu não disse que já sabiam que livro era?), nascido a 29 de Junho de 1900 em Lyon, França, foi um homem de muitos ofícios. Entre outras coisas, tornou-se conhecido como escritor, ilustrador e aviador na Segunda Guerra Mundial.
A vida de Saint-Exupéry dava um bom filme, e dela só eu faria uma grande rubrica, em tamanho e qualidade. O pequeno Antoine desde cedo se interessou por perceber o funcionamento das máquinas que o rodeavam, e logo se percebeu que este pequeno apaixonado por Mecânica (e em particular por aviões) iria incorporar este gosto na sua carreira futura. Após uma tentativa falhada em ingressar na Escola Naval, em 1921, Saint-Exupéry inicia então o Serviço Militar no Regimento de Aviação de Estrasburgo, tornando-se no ano seguinte piloto militar.
Acabaria precisamente durante a Segunda Guerra Mundial que Saint-Exupéry viria a falecer, depois de não regressar de uma viagem de reconhecimento a Grenoble, em 1944. Primeiro dado como desaparecido, mais tarde como morto, foi em vão que se tentaram recolher provas do incidente até 2004, altura em que parte dos destroços do avião que pilotava deram à costa em Marselha. O corpo, todavia, nunca foi encontrado.
A perda de Antoine de Saint-Exupéry foi enorme para o Mundo, mas ele fez o favor de não nos deixar sem antes escrever uma das obras infantis mais geniais de sempre. "A" Obra Infantil.


O Principezinho (Le Petit Prince no original), editado em 1943, é uma obra que tem marcado gerações, por tudo aquilo que transmite. É fantástico como, na sua plena simplicidade, uma história se pode carregar de tanto simbolismo e mudar tantas mentalidades.
O Principezinho conta-nos as aventuras de um menino que vive sozinho no seu planeta e, farto da rotina do seu próprio planeta, decide partir à descoberta do desconhecido, e trava conhecimento com muitas personalidades distintas ao longo da sua jornada por diversos planetas: ainda no seu planeta de origem, temos a flor vaidosa e exigente, que acha que o Mundo gira à sua volta; depois há o Rei no seu trono majestoso; o vaidoso; o bêbado que em pouco tempo deixou o menino mergulhado numa profunda melancolia; o homem de negócios que estava tão ocupado que nem podia levantar a cabeça para olhar para o seu visitante; o acendedor de lampiões que vivia com um lampião num planeta minúsculo que mal dava para os dois; o geógrafo que desenhava mapas mas desconhecia o seu próprio planeta; o agulheiro que envia os comboios para diferentes direcções; a raposa esclarecedora e realista.
Todos temos a oportunidade de sermos crianças, de sermos puros e sonhar. Todos temos momentos na vida que nos fazem perceber para onde queremos ir. Mas quando crescemos procuramos ser aceites pela máquina que é a sociedade, que nos diz que ser normal é ser bom, que nos revela que devemos andar escondidos, pois as falhas são notadas e os sucessos ignorados. Onde se aplaudem quedas mas se afasta o olhar perante quem se reergue. É incrível como passamos uma infância inteira a sonhar e o resto de uma vida a adiar algo essencial, sermos felizes. Somos durante muito tempo tentados pelos adultos, dizendo que crescer é ganhar responsabilidades mas também autonomia, que tem coisas aborrecidas mas outras coisas muito boas. Nada mais errado. Tornamo-nos adultos quando desistimos de ser o que queremos para passarmos a ser aqueles que os outros querem que sejamos, para vivermos prisioneiros da nossa própria existência. Não há qualquer sentido em sonhar se não acordarmos para fazer dos sonhos substância. E é isso que O Principezinho nos ensina, como devemos respeitar os valores humanos, crescermos como meninos curiosos que desenham uma paisagem no papel e acabarmos como adultos que desenham no vento o seu próprio Futuro e que marcam este Mundo com esse mesmo Futuro. Não é por sermos seres humanos comuns e automatizados que somos alguém, mas sim por sermos pessoas que se destacam pela diferença na missão de fazer do tempo em que caminhamos na Terra um marco irrepetível na História, a nossa História. E aqui devemos aprender com Saint-Exupéry, que pressionado pela maturidade adulta para se dissolver na sociedade, decidiu levar avante a sua paixão por aviões e viver, de forma efémera, é verdade, mas a fazer o que amava. E morrer a fazer o que amava. Isto tudo, não sem antes ter superado o seu desgosto na infância para com a Língua Francesa para nos presentear com uma grande lição humanística, cuja qual o tempo não tem tido sucesso na tentativa de apagar.

Boas Leituras!



Nota: Porque muita gente conhece apenas esta obra de Saint-Exupéry apesar de ele ser autor de outras histórias magníficas (não infantis), aconselho os interessados a lerem dois livros em particular:

Voo Nocturno (1931), sobre um aviador que, após uma tempestade enquanto sobrevoa o Atlântico, descobre que perdeu o rádio e que o desvio por si feito para escapar à dita tempestade faz com que ele não tenha combustível suficiente para chegar a terra, sendo que acompanhamos a partir daí a história apaixonante sobre um homem que sabe estar condenado no seu destino;

- Terra dos Homens (1939), trabalho autobiográfico e que se foca em vários eventos da vida de Antoine de Saint-Exupéry, em particular um acidente de avião que sofreu em 1935 em pleno Deserto do Sahara com o navegador André Prévot, e no qual ambos quase morreram de desidratação. O livro fala de temas muito fortes como a amizade, a coragem, a morte, a busca desesperada por atribuir um sentido à vida, e dele se retiram diversas citações hoje sobejamente conhecidas, como "o amor não é olhar fixamente um para o outro, é olhar juntos na mesma direcção" .

sexta-feira, 31 de maio de 2013

ReAgir

Na tormenta em que se navega
A coragem é ilusão,
É a percepção do medo
Que guia o Homem
Por entre infortúnios da razão,
Em segredo se sofre
E em segredo se cresce,
Por muito que doa
Este jogo de cadeiras
Onde o Rei não traz coroa,
Em que vive na morte o que se levantou
E se perde em vida quem se sentou.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Fado

Triste símbolo nacional
Nascido no seio
Da alma de Portugal,
A miséria uiva
Por atenção
Numa bandeira ruiva
Do sangue de uma nação.
O que se fez não é mais
Identidade e norma,
O que se é deixou de ser
Enormidade e forma.
De nada adianta ficar pelo lamento,
De nada adianta
Ficar só pelo intento
De mudar o tom a esse fado;
O que entoo não me dá alento.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

(In)Verso

Deixa que desta vez
Sejam as palavras a levar o vento,
Elas que bombeiem o balão
Dos sentires apurados
E dessa alma desprovida de sustento,
Que vence batalhas de respeito
Com vestígios de argumento
E o mínimo despeito.

domingo, 5 de maio de 2013

Mommy

Ela do nada consegue fazer tudo
E com a precisão de um relógio suíço
Gere uma profissão não paga
Sempre com o mesmo sorriso.

Gere esse negócio sem estudo
Com sucesso imenso e sem pesquisa a fundo
Para nos ombros que levam o menino
Carregar os problemas do Mundo.

É perfeita com toda a virtude
Mas muito chata quando convém,
É do tempo que ela é Senhora,
É de Vida que ela é Mãe.

Biblioteca Sabática #6

Florbela Espanca (1894-1930) é uma escritora/poetisa muito importante no panorama nacional. Tida por uns como louca, por outros como genial, é certo que deixou um legado forte na literatura portuguesa, se tivermos em conta a efemeridade da sua vida.
Assim como as suas opiniões e discursos em vida, Florbela Espanca é alvo de avaliações extremas. Ou se ama a sua obra, ou não se gosta de todo. Penso que em parte isso se deve a toda a intensidade com que ela exaltava temas marcantes como o Amor ou a Saudade, nos quais para a poetisa a palavra era verbo, era acção. Florbela Espanca não se limitou a escrever o que sentia, como também viveu o que escreveu, e por isso apresenta-nos uma escrita que é liricamente bela mas também rica em toda uma dimensão carnal e feminista. Curiosamente, o livro que trago hoje para a conversa foi editado postumamente, mas é para mim o mais intenso (é mesmo a palavra que me vem sempre à cabeça quando falo de Florbela Espanca), o mais sensível, o mais sentido.


Charneca em Flor (1931) é um dos livros mais conhecidos de Florbela Espanca, muito por causa de nele se encontrarem presentes alguns dos sonetos mais perfeitos da escritora, como o sensual Volúpia, o desesperado Amar! ou o inigualável Ser Poeta, imortalizado através da musicalidade dos Trovante de Luís Represas e João Gil. É considerado quase unanimemente o livro mais sincero da poetisa, pois é nele que esta se abre de forma declarada ao Mundo e nos faz um auto-retrato fiel e sentido da fase mais complicada daquela que foi a sua curta vida, e ainda hoje este livro representa um dos maiores depoimentos escritos de um coração lusitano imensamente massacrado, pertencente àquela de quem Fernando Pessoa disse um dia (no poema À memória de Florbela Espanca) ter uma "alma sonhadora / Irmã gémea da minha".


Boas Leituras!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Um Amigo

Todos temos um amigo
Que nos ouve e para nós fala,
Permite-nos voar no sonho,
Voltar ao solo num Futuro risonho.

Todos temos um amigo
Que nos guia na leveza de uma dança,
Aquele que é único entre os comuns
E nos dá a melhor lembrança.

Quanto mais nos dá mais tem para oferecer,
É ele que nunca se esgota no tempo,
Que dá vida ao que se deixa morrer.

E o melhor deste amigo de algibeira
É que está à distância de um braço,
Ali pousado na prateleira.



Extremamente atrasado, mas fica aqui um singelo tributo em forma de soneto ao Dia Mundial do Livro (23 de Abril)

terça-feira, 23 de abril de 2013

Bons Tempos

Depois da chuva
Surge um imponente Sol
Carregado do álcool inebriante
Das palavras de conforto
Trazidas por um amante
De voz serena e andar elegante.
É o desabrochar da Vida
Que ninguém conhece
Mas nunca quis esquecer,
Pois com ela se ganha
O que se ousou perder.
Enfrente-se o fim da adversidade,
Dos tempos de natureza severa,
Chegámos à plenitude da Primavera.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Voar

Nasceu ave
De incógnito perfil,
E viu-se encurralada
Nas fortes chuvas de Abril.
Perante tal problema
Pensou como poderia fazer,
Virou avestruz,
E fez a imponência valer.
Mas o céu não se amedronta
Com aves de grande porte.
Afinal, foi motivo incerto
Que já o fez chorar a sua sorte.
A pobre avestruz,
Despida de confiança,
Agora tem que optar:
Só lhe resta correr para o Nada
Ou procurar terra macia
Para a cabeça enterrar.
Foi então que a ave percebeu:
Por tanto querer crescer
A sua verdadeira natureza esqueceu.
Afinal, depois de muito procurar dentro de si,
Mesmo no recanto mais profundo,
Descobriu que tinha alma de rouxinol,
Pequeno em tamanho
Mas capaz de dar a volta ao Mundo.
Por isso encheu-se de coragem
E Zás!
Bateu as asas e voou,
Voou sem nunca olhar para trás,
Sem voltar ao tempo
Em que não sabia do que era capaz.



Ilustração da responsabilidade da minha amiga Fipa, uma artista amadora fantástica e autora do blog The Doll House, um blog de rubricas de temas variados como cinema, moda, culinária, música e muito mais. Sintam-se à vontade para fazer uma visita! :)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Gouryella

Peguei numa tela
E cobri-a de verde,
Descobri que podia fazer dela
O que quisesse.

Pincelei-a com cor garrida:
Uma toada de Sol,
Outra de vida.

Surge então um belo Parque
Que a qualquer um apraz:
Qual Colombo viajante,
Vindo do desgosto acha Paz.

Por ela o tempo corre,
Desfaz-se em poesia e canção;
Afinal de contas,
Entre a magia está um pulmão.

domingo, 7 de abril de 2013

Ligaya

Don't give up
Because there's no rainbow
In the sky,
If you don't know how to fly
Just jump,
Shake your world
And scream to the people why.
You fell from a little hill,
Not from a bridge,
So get up and climb to the ridge.
Can you feel this?
It's called success,
When you can handle the pain
You'll end up finding happiness.

sábado, 6 de abril de 2013

Biblioteca Sabática #5

Stephen King é um dos escritores que mais aprecio. Poucos autores são têm o seu talento e capacidade de montar enredos com dezenas de camadas diferentes, dispondo-as da forma mais eficaz para sugar o leitor para dentro da história e fazer com que cada página seja devorada mais avidamente do que a anterior. Stephen King não é o Mestre do Terror; ele é sim e sem qualquer sombra de dúvida o Mestre das Emoções, e o livro que trago desta vez não é excepção, muito pelo contrário.


Em A História de Lisey (Lisey's Story no original) somos apresentados a Lisey Landon, mulher que compartilhava uma intimidade profunda e às vezes assustadora com seu marido, Scott, um escritor célebre e cheio de segredos. Um desses segredos era a fonte da sua imaginação, um lugar com a plena capacidade de curá-lo ou destruí-lo. Agora, dois anos depois da morte de Scott, chega a vez de Lisey enfrentar os demónios de seu marido, embarcando numa perigosa viagem à escuridão que ele habitava. A História de Lisey é uma parábola sobre a imaginação e o amor, e sobre o poder imenso que este tem de transformar e salvar alguém.

P.S.: Quem estiver habituado às obras de SK e não conhecer esta é capaz de estranhar, na medida em que os pilares nos quais este livro se suporta e por vezes a própria escrita ao longo da narrativa não são as usuais no autor, o que neste caso particular não é nada mau e resulta em algo fantástico! Como diria Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se". E de que maneira este livro se entranha!

Boas Leituras!

terça-feira, 2 de abril de 2013

(Clan)Destino

Está vento lá fora.
Entro numa velha taberna
Cansada pelos anos
E dou pelo adiantar da hora.
Enfim um abrigo,
Que eu já dera pela demora.
Olho em volta,
Vejo olhares em mim voltados,
Seres humanos desolados,
Uma lista de sonhos inacabados.
Surge em mim a melancolia
De uma estrutura abatida,
Ainda erguida
Mas longe da vida.
É triste terminar um sonho
Na forma de pesadelo,
Mas eis que o fado
Nos envolve no novelo
Do qual a fuga é relativa.
O velho a novo não volta,
E é do morto que a vida se solta.

terça-feira, 26 de março de 2013

From Abroad

I'm a foreigner
In my own skin,
Trying to fill the empty spaces
Of abandoned souls.
I don't know my nation
And my passport is blurred
By a coloured stain.
I don't care about the origins,
The places, or the rain!
I want be a part of it,
Not being from somewhere,
But everywhere!
Known for individual greatness
And not the tiny plurality!
I'm just the one
Who needs to be.

domingo, 24 de março de 2013

Poesia

O Poeta sonha
Com a obra que nasce
Da alegria que ele ponha
No papel,
Da vontade medonha
Em ser o que faz.
O poeta sente no interior
Mas quando passa para o exterior
É que mostra que é capaz,
Que escreve o que ama e ama o que escreve,
E para além das palavras
Não se conteve
Na verdade ou musicalidade
Dos conteúdos e pensamentos
Que surgem da ponta
Do lápis, da caneta, ou da pena.
É aí que a magia acontece,
Quando o Homem deixa de temer
O poder do vocábulo
E se deixa expor como mero Ser
Perante um tribunal repleto,
Pois quando for julgado
Será aclamado e completo,
De lado deixa o arrependimento
Saindo das sombras
A toda a brida!
Ser poeta não é viver Poesia
É poetisar a Vida!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia Mundial da Poesia

Feliz Dia Mundial da Poesia, uma data importante para todos os espíritos livres! Que se escreva cada vez mais, porque escrever tem um interminável número de benefícios: relaxa, treina o cérebro, aumenta o nosso campo lexical, e a principal razão de todas... Porque sim! Escrever, neste caso específico escrever poesia, deve ser algo feito com prazer e amor e não como obrigação, porque perde toda a beleza e sentido.
Bem, mas a minha intenção não é dissertar, e sim fazer um breve apontamento para assinalar a data. De forma bastante apropriada encontrei este vídeo delicioso das TED Talks com o Senhor Billy Collins, poeta envolvido num projecto para transformar algumas das suas obras em filmes de animação. Aconselho vivamente toda a gente a ver, quer gostem ou não de poesia!

"Combinando um humor apurado com uma profundidade artística, Billy Collins partilha um projecto no qual vários dos seus poemas se tornaram encantadores filmes animados em colaboração com o Sundace Channel. Cinco deles estão incluídos nesta fascinante e comovente conversa... e não perca o hilariante poema final!" (informação retirada do site das TED)

Alguma informação sobre Billy Collins


sábado, 16 de março de 2013

Poema do Avesso

Esta é a verdade.
Sim, foste tu quem me convenceu de que
A minha vida é inútil,
E que de maneira alguma
Vou ser uma pessoa feliz,
Se há algo que dou por garantido é que
Me senti um corpo estranho neste Mundo,
E que nunca, mas nunca,
Vivi plenamente com a noção do que é o Amor,
Agora só posso afirmar que
Gosto de viver ao contrário.



Nota: Pretendi com este jogo de palavras homenagear de forma singela o "Poema de Trás Pr'á Frente e Vice-Versa", um poema que sempre considerei bastante inteligente e engraçado (quanto à autoria, há quem diga que o poema em questão é de Cecília Meirelles, outros dizem que pertence a Clarice Lispector e ainda existem aqueles que afirmam que este não é de nenhuma delas e sim de um autor desconhecido. Há anos que tento desvendar este mistério, sem sucesso, mas se tivesse de apostar diria que é da autora brasileira, pelo tipo de escrita). Sempre gostei da ideia de se ter um poema de duplo sentido consoante a direcção da leitura, e já algum tempo que tinha pensado em experimentar para ver como saía. Depois de se perceber a estrutura necessária é bastante fácil criar textos destes.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Pensamento #6

Se tens um problema e achas que ele não tem solução, talvez então sejas tu o problema.

sábado, 9 de março de 2013

Pensamento #5

Um dos maiores problemas do Mundo é quando cumprimos o nosso objectivo de vida antes do tempo.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Engenharia

Sou engenheiro de pessoas
Mas trabalho com afinco
Em inanimados entorpecidos
Que me aturam até ao ano cinco.

Diz-se que o Homem é vivo
Mas não sei se será mais
Se lhe encontro semelhanças
Com o comum dos materiais.

Pois que os há polímeros,
Novos e por descobrir,
Complexos e úteis,
Mas usados e abusados
Até que os façam ruir.

Vejo também os metais,
Experientes e resistentes,
Há anos feitos para ajudar
E sob pressão mais fáceis de vergar.

Oh! E quantos cerâmicos
Encontramos entre emoções!
Aumentem temperaturas e pressões,
Quanta dureza a levar outros a reboque
Mas tanta fragilidade ao choque!

O que dizer dos semicondutores,
Materiais de tudo ou nada
Uma amostra manipulada
Sem poder e vontade própria
Trazem Inferno ou Cornucópia.

No meio de todos
Temos os Biomateriais
Vivem connosco,
Salvam-nos a vida
E enchem-nos de ideais!

Sou Engenheiro de pessoas
E estou em missão ruim.
Percebo os materiais
Mas não me entendo a mim.

sábado, 2 de março de 2013

Biblioteca Sabática #4

Jodi Picoult, nascida em 1966, é uma escritora americana de romances, talvez mais conhecida por ser a autora de "Para A Minha Irmã" (My Sister's Keeper), obra que foi adaptada para o cinema, com Cameron Diaz e Abigail Breslin nos papéis principais. Curiosamente, é um dos livros que eu pessoalmente menos aprecio desta escritora.
Jodi Picoult tem por hábito presentear-nos com histórias extremamente complexas do ponto de vista psicológico e ético. Em todos as obras somos confrontados com situações que nos fazem duvidar das nossas próprias convicções, que nos fazem repensar crenças que representavam dados adquiridos para nós. Nisto Jodi Picoult é mestre, ao mostrar-nos casos em que não há certo e errado, mas formas diferentes de ver o Mundo, com recorrência frequente aos flashbacks nos seus livros.


"Frágil" (Handle With Care na versão original, publicada em 2009) apresenta-nos a história de Willow O'Keefe, uma menina de 6 anos que sofre de Osteogénese Imperfeita de tipo 3, uma doença que provoca uma acentuada fragilidade óssea. Se der um simples tombo ou fizer um movimento mais brusco Willow pode fazer várias fracturas graves e passar meses enfiada num colete de gesso. Mas Willow é uma menina adorável, compensando a sua fragilidade física com grande doçura, e também com uma curiosidade e inteligência muito acima da sua idade.
Tratar vários anos de uma criança com Osteogénese Imperfeita acarreta grandes despesas, o que faz com que a família (constituída por Willow, a mãe, o pai e a irmã mais velha, Amelia) enfrente graves problemas financeiros e os tratamentos de Willow se encontrem em risco. É então que sugerem à sua mãe, Charlotte, a solução para estes problemas: processar a obstetra por negligência, por não ter descoberto a tempo a doença de Willow, o que possibilitaria a realização de um aborto a tempo. A indemnização asseguraria o futuro de Willow, mas essa decisão acarreta dois grandes contratempos, já que implica que Charlotte processe a sua melhor amiga e declare em tribunal que preferia que a sua filha amada não tivesse nascido...
"Frágil" é um livro tocante e apaixonante sobre os sacrifícios que estamos dispostos a fazer por Amor, e também sobre o facto de muitas vezes podermos ignorar coisas importantes quando nos fixamos demasiado em algo.

Boas Leituras!

Nota: Esta rubrica vai passar a ser mensal, sendo publicada no primeiro sábado de cada mês.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Recordando-te


Lembras-te como nos conhecemos? Eu cá não; para mim, conheci-te no dia em que falei contigo pela primeira vez, o dia em que reparei em ti pode ter sido um qualquer, é um mero apontamento.
Não gostava lá muito de ti no início; parecias-me má. Achei-te muito senhora do teu nariz. Não que isso fosse necessariamente mau, mas eu estava disposto a mostrar a mim mesmo que não me queria meter com gajas cheias de mania. Enganei-me.
Também não me lembro acerca do que falámos da primeira vez. Não me interessou muito o que dizias, mas o tom de voz com que falaste para mim. Nunca tinha ouvido um anjo falar para mim. Um anjo mau, é certo, mas não deixavas de ser um anjo.
Normalmente é assim, quando nos apaixonamos. Os outros são perfeitos, e nós fracas figuras com tão pouco para oferecer. Os mais audazes atiram-se de cabeça e tentam a sua sorte, com a certeza de que o “não” está garantido. Os mais contidos, ou demoram demasiado tempo e perdem a oportunidade, ou preferem embarcar numa “amizade colorida” unilateral, da qual não dão conhecimento à outra parte. Tudo com medo de se magoarem.
O que é certo é que ninguém se mete no Amor confiante. Até os tais corajosos vão à espera do “não”, porque ninguém se acha bom o suficiente para ouvir um “sim”. O Amor pode ser bom, mas também nos faz muito mal. O cérebro deixa de funcionar, e quando funciona é de forma deficitária, e o coração não tem nada de racional. Para que serve o Amor então? Bom, para quê, não sei, mas se não existe íamos sentir-nos todos mais pobres. Podemos viver sem amígdalas, não podemos? Claro que sim, mas o facto de as termos proporciona um momento tão belo como aquele que acontece quando somos operados para as tirar, e no qual o médico nos recomenda comer gelados, para aquilo sarar mais depressa. É um momento único na vida, um médico a receitar gelado. Com o Amor acontece mais ou menos o mesmo: sofremos muito, mas de permeio somos presenteados com meia dúzia de (para quem é sortudo) acontecimentos felizes na nossa vida.
Comigo aconteceu o mesmo. Tu eras má, mas ainda assim boa de mais para mim. Não eras a mais bonita e também não eras a mais inteligente, não eras a mais simpática nem a mais bondosa; não eras a mais altruísta nem a mais decidida, e não eras de todo a mais interessada em “dar-te” comigo. Aliás, acho que nem a seres má eras a melhor. Não por falta de esforço, diga-se.
Mas era isto que eu gostava em ti. Não eras a melhor em nada, mas eras real. O mais bonito, o mais feio, o mais fantástico, o mais isto, o mais aquilo, etc., tudo isto são coisas que só aparecem nas histórias dos livros ou do cinema. Nós nunca conhecemos ninguém assim. Tu eras muitas coisas e ao mesmo tempo não eras nenhuma. Eras apenas tu. Com tudo o que tinhas de bom e (ainda mais) de mau. E como eu gostava de ti.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Biblioteca Sabática #3

António Nobre nasceu no Porto, a 16 de Agosto de 1867, e faleceu a 18 de Março de 1900, com apenas 32 anos de idade. Licenciado em Direito, mas impedido de seguir a carreira diplomática por culpa da tuberculose, passou o resto dos seus dias em viagens entre locais como a Suíça e a Madeira em busca de cura para o seu mal. Entretanto, aproveitou para, no curto espaço temporal que foi a sua vida, tornar-se num dos maiores poetas portugueses, apesar de contar somente com três livros publicados no total. Curiosamente só uma dessas três obras, a mais grandiosa delas, foi publicada durante a vida de António Nobre.


"Só" é um livro especial. Considerado por muitos e pelo próprio autor como o livro mais triste da Literatura Portuguesa, representa sem dúvida um dos marcos da poesia em Portugal do século XIX, mas que ainda hoje perpetua como um dos melhores livros do género no país.
António Nobre foi alvo de uma vida curta e difícil, facto esse que deixa transparecer ao longo de toda a obra de uma forma sublime e extremamente tocante. Poemas como "Os Cavaleiros", "Adeus!", "Ladainhas" ou um dos meus preferidos, "Fala ao Coração", revelam bem a escrita de Nobre. Não se espere poesia marcadamente metafórica e subentendida. António Nobre é sinceridade, é paixão arrebatadora, é dor lancinante. António Nobre é directo e puro, e talvez por adivinhar uma vida breve acaba por viver com intensidade plena todas as palavras que redige. Um livro fantástico, produto do profundo íntimo de uma alma genial.

Boas Leituras!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Mjölnir

Toma por seu o ar,
Cai forte e concisa
E com destreza fulminante
Ataca precisa,
Severa solta-se da mordaça
Que a prende na condensação,
Desce veloz de onde
Clareia a escuridão
Para abrir a boca
No bater do coração,
Em que o natural não cede
Ao que é ser submisso
E vence o Homem
Num discurso omisso.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Carta para Alguém num Futuro Incerto

Querido Alguém:

Trato-te desta forma pouco ortodoxa por não fazer ideia da tua identidade. Não sei se és gorda nem magra, alta ou baixa, marreca ou com um olho de vidro. Não sei se ainda te estou para ver pela primeira vez, se já passei casualmente por ti na rua ou se te conheço desde sempre.
Nem sequer sei bem porque te estou a escrever neste momento. Poderá ser por sentir a tua falta no Presente? Curiosidade em saber quem és? Querer saber quando é que tu me vais aparecer definitivamente? Põe aí um grande "talvez" em cada uma delas.
Agora que escrevo, vai-me parecendo parva a ideia de que estou a dirigir-me a alguém que não sei quem é e que vai ler isto numa altura indeterminada. Mas por incrível que pareça, sabe bem. E eu ainda não disse nada de especial para além de andar aqui às voltas a tentar justificar-me. É libertador falar contigo, porque neste momento só ouves e eu preciso é de falar.
Tenho medo do Futuro e daquilo que ele me vai trazer. Tenho medo do olhar assustador com que o dia de amanhã me brinda, e só de pensar que imediatamente após esse dia vou ter de suportar outro amanhã, e outro, e outro... Queria poder dizer-me que me sinto seguro e desinibido, que vou viver para ver e fazer tudo o que quero e me faz feliz, mas não consigo... Assumir compromissos com entidades volúveis é sempre perigoso, e por muito que me digam para aproveitar cada dia como se fosse o último eu bloqueio sempre que penso que poderá ser o último.
Achas que deva ignorar isso? Seguir em frente? Estou a preocupar-me com o que não devo, não é? Ah pois  é, tu não me podes responder já... Afinal parece que até me dava jeito...
Mas por outro lado, se eu não viver a vida intensamente, reduzo as probabilidades de te encontrar... E se tu adorares passear, ou estiveres naquele dia naquele museu, naquela exposição, naquele concerto... E se passares em frente à porta da minha casa quando eu estiver lá fechado? Será que isso está a acontecer agora? Era preciso uma força qualquer do Além para proporcionar isso, não? Ou se calhar apenas o Destino... Espero que acredites no Destino, porque quando te encontrar é porque ele trabalhou bem: ouviu-me e colocou-me no teu caminho.
Nem sei o que tens a dizer, mas já estou a gostar muito de falar contigo. Parece que as nossas conversas vão ser muito produtivas e interessantes, já que sem dizeres nada me convenceste a libertar-me da prisão que me retinha em mim. Aliás, como é que mesmo calada puseste um Zé Ninguém envergonhado a falar pelos cotovelos! Imagino o quão fantástica és, para conseguires tudo isso sem proferir uma palavra! E por isso daqui a 2 dias ou 20 anos, quando te encontrar, vou-te mostrar isto para te explicar quando é que me apaixonei por ti, quando é decidi que te queria comigo antes de te olhar nos olhos, quando descobri que és perfeita. Não sei o que tu estás a pensar neste momento, mas acho sinceramente que começámos muito bem.

Espera por mim,

Alguém que te viu num tempo a que ainda não chegou

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Tecnologicamente

Homem feito máquina
E máquina que é animal,
É Era de igualdade
Em que diferente é ser normal.

Dispensável o contacto
De alguém que já amou,
O que falta é fornecido
Programando um robot.

O Progresso regride-me
Ano após ano,
Com ele cada vez me sinto
Menos humano.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Pensamento #4

É errado procurarmos por uma cara-metade. Só podemos aproveitar a felicidade com alguém quando nos sentirmos completos sozinhos. De outra forma, a necessidade de iludir a solidão suplanta a alegria proporcionada pelo Amor.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Biblioteca Sabática #2

Esta semana volto a recomendar um título que conheço há bastante tempo, que já li e reli inúmeras vezes e de uma das minhas autoras favoritas no Mundo.
Sou um enorme fã de policiais. Sobretudo daqueles que são escritos de forma exímia. Contrariamente ao que muita gente pensa, os melhores policiais não são aqueles de enredos complexos e soluções fantásticas. Neste caso, quanto mais simples melhor, como no caso da "Duquesa da Morte", Agatha Christie.
É preciso quebrar o mito. O mérito de Agatha Christie está na simplificação dos enredos. Muita gente pensa que as suas histórias são complicadas porque tendem sempre a complicar o fácil. Nos livros de AC, a solução mais simples é sempre a correcta, nós é que não avaliamos bem essa simplicidade por vezes.
O título que recomendo desta vez é "Espelho Quebrado", uma obra que contém a adorável Miss Marple como protagonista, uma velhota octogenária extremamente curiosa e perspicaz, que resolve crimes fazendo comparações entre os envolvidos na história e os habitantes da sua aldeia.
Este livro, não sendo um dos meus preferidos, é especial para mim por ter sido o primeiro em que descobri o "quem, como e porquê". Comecei a ler Agatha Christie com 10 anos, e depois de 2 ou 3 tentativas iniciais falhadas com outros livros foi uma grande alegria quando finalmente consegui descobrir o culpado num livro dela. A partir daí foi sempre a somar! :)


Em "Espelho Quebrado", a estrela de cinema Marina Gregg decide ir viver para uma mansão da pacata aldeia St. Mary Mead e muitos habitantes, fãs da actriz, ficam entusiasmados com a presença de tal presença famosa.
Entretanto, durante a recepção de Marina Gregg aos habitantes da aldeia, uma das convidadas, Heather Badcock, é envenenada. O caso é visto com admiração, pois a morta era uma senhora muito simples e bondosa, e não havia ninguém que a poderia querer matar. Mas durante a investigação surgem factos que lançam dúvidas quanto à real intenção do assassino. Teria Heather Badcock sido morta por engano? E se o verdadeiro alvo era Marina Gregg?
A partir daqui vemos Miss Marple a entrar em acção com a ajuda da sua amiga Dolly Bantry, no sentido de descobrir a verdade que acalme a abalada Marina Gregg, preocupada com a sua segurança.

Boas Leituras!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Simples

Não te percas nesse Mundo a que não pertences,
Onde não vives e tudo desaparece,
Perde-te naquele que te quer criar
Naquele em que largas e voltas a ganhar.
Vais ao fundo, à tona retornas
Com o infinito só para ti
Por seres pureza e não te transtornas
Com a verdade que conheci,
Já que sem maldade ou juízo
Recebes a alma num sorriso!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Pensamento #3

O cansaço físico derruba Homens; o cansaço mental derruba Mundos.

Tentar

Foram as palavras que usei:
A ti tudo o que afirmei
Foi o que acreditei
Até admitir que errei,
Foi pois então que neguei
Merecer o tanto que levei
Do pouco que te não dei.
Por ser aquilo que não serei
E por ser coisa que não terei
Enquanto achar ser lei.
Se doravante será melhor não sei;
A Vida dir-me-á se rimei.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Capital

Do alto da Torre se saboreia
A nata da vitória de um Povo
Que se funde com o passado do Mundo
Descoberto e tornado novo.

O vasto manto azul revela
Uma certa adoração monástica
Encerrada na forma de estrutura
Da arquitectura mais entusiástica.

Já foi vítima de derrubes,
Mas ascendeu em toda a sua Glória,
Revelando o engenho de Um
E expondo as agruras da História.

Ainda tem a Senhora das Águas,
Outrora imponente, agora vazia.
É a última das grandes riquezas
Que o Gigante de Pedra na outra ponta vigia.

E na Caravela os 33 revelam
As proezas que uma Nação alcançou,
Toca o braço do Monstro de Ferro
Em local que a Cimbali não domou.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Biblioteca Sabática #1

O termo sabático vem do hebraico shabbat, e significa repouso, descanso. O shabbat designa o período de descanso semanal dos judeus, entre o pôr-do-sol de sexta-feira e o pôr-do-sol de sábado, usado para reflectir sobre a criação Divina. Daí também deriva o termo "sábado", muito devido ao facto de coincidir na sua maioria com o período do shabbat.
Efectivamente, nós aproveitamos usualmente o sábado para descansar, para nos divertirmos, para fazermos algo de que gostamos. É o pico do fim-de-semana, já que tivemos a noite de sexta para "não fazer nenhum" e ainda temos pela frente o domingo para nos deixarmos deprimir pela proximidade de uma nova semana.
Como nem sempre aproveitamos de forma eficiente os sábados, pensei fazer deste dia um dia especial no blog. Em vez de apenas dar a conhecer um pouco da minha escrita, também mostrar o que leio e que uso como inspiração para possíveis criações. Não tenciono fazer críticas literárias complexas e técnicas; apenas pretendo recomendar um livro a quem eventualmente esteja farto de ler sempre o mesmo e ande à procura de algo diferente. Só vou recomendar coisas que já tenha lido e de que goste, aviso já!

Depois das explicações parto então para o que interessa. Estive indeciso entre recomendar o mais recente livro que li, focar-me num dos meus autores favoritos ou começar por um livro marcante. Decidi-me por esta última.

"O Amor é Fodido" (1994, Assírio & Alvim) é um dos livros mais conhecidos (e para mim o melhor) do escritor, cronista e jornalista Miguel Esteves Cardoso. MEC faz parte de um tipo de figuras que muito admiro, as pessoas que conseguem empregar em tudo o que escrevem ou dizem pragmatismo, humor e paixão. Este livro não é excepção à regra. Temos um protagonista, João, que aborda ao longo de 187 páginas a relação que teve com cada uma das mulheres da sua vida, dando especial destaque a Teresa, uma mulher peculiar: "má, vaidosa, cobarde, egoísta" mas, ainda assim, adorável e o grande Amor de João.
O livro começa com a recordação revoltada do suicídio de Teresa e prossegue com o protagonista a recordar com a memória da mesma todos os defeitos e virtudes daquela e de outras mulheres que passaram pela sua vida, numa linguagem bastante incisiva e pouco floreada (que torna este livro diferente dos outros, porque fá-lo soar a verdadeiro).
Há quem diga que o livro tem algo de autobiográfico (já que MEC foi conhecido por ser um bon vivant noutros tempos). Independentemente de tudo isso, se quiserem de uma só vez rir, chorar (para os sensíveis), reflectir e sentir que também há algo de vosso e verídico numa leitura, façam o favor de ler este livro tremendamente divertido, realista e apaixonante.
Deixo-vos o início do primeiro capítulo como mote:

"Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar. Merecias uma morte mais violenta. Se eu soubesse, não te tinha deixado suicidar com aquelas mariquices todas. Aposto que não sentiste quase nada. Não está certo. Eu não morri e sofri mais do que tu. Devias ter sofrido. Porque eras má. Eu pensava que não. Enganaste-me. Alguma vez pensaste no que isso representou na minha vida miserável? Agora apetece-me assassinar-te de verdade. É indecente que estejas morta.
Quando tomaste os comprimidos sabias que estavas a safar-te de boa. Confessa. Foi um bom negócio. As pessoas que levaram uma vida como a tua costumam morrer em circunstâncias que deixam muito a desejar. Afogadas em aquários. Estendidas de pernas abertas numa paragem de autocarro, esfaqueadas, sem cerimónias, e estranguladas por uma histérica na casa-de-banho. Eu tinha-te dado um tiro. Um tiro limpo nessa cabecinha - o suficiente para te assustar, mas rápido. A doer um bocadinho."

Se quiserem sugerir algum livro ou falar mais sobre este, estejam à vontade para enviar um mail para o endereço indicado à direita.
Boas leituras!