segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Perdição

Perdi-me enquanto te perdia
E não parecia,
Mas escreveste tu no vento
Para que mais tarde eu lesse.
Avançar era meu intento
Se por minha falta não desse,
Mas tantos ses
Colocam uma interrogação
Naquilo que acontece.
Ando então à minha procura
Por um vício que não largo,
Espreitando por cada rua escura
E por cada recanto amargo.
Lá me encontrei,
Salvo mas pouco são,
Apontei ao Norte
E a um coração,
Só para me perder
Numa nova indecisão.

sábado, 14 de novembro de 2015

Sem Fim

Ataca ferido
Atacado por ferido
Ferido por atacado.
No início era dor,
No fim também.

sábado, 7 de novembro de 2015

Negro

Mais uma noite
Em branco no breu.
Mais um par de olhos se fechava
Que não era meu.
Mas havia um par de olhos
Que ansiei toda uma vida ter.
Se os tivesse, podia adormecer.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Vácuo

Nada.

É o que sou, o que sei, o que tenho.
Não é o que procuro mas aquilo que encontro.
É o que vejo, quando vou e quando venho
E quando viajo mais um pouco.

Nada é o que dou,
Nada é o que escrevo,
Nada é quem me amou
E como tal é quanto devo.

Nada é o que tenho de memorável,
Nada é comigo num par de meses
E ainda assim tão mencionado
Pois tanta gente faz nada muitas vezes.

Nada é tudo o que digo
Por muito adornado que pareça,
Nada é um verdadeiro amigo
Com tudo o que me ocupa a cabeça.

Vendo bem, nada era o ideal
Porque nada é pura paz,
Mas como nada é o que aparenta
Não é nada o que este caminho me traz.

sábado, 19 de setembro de 2015

Um Estado de Trance

Tudo se inicia num silêncio, um silêncio que lentamente se começa a fazer ouvir. Os olhos abrem-se: bateu à porta uma nova etapa. É tudo novo e desconhecido, e as descobertas sucedem-se a um ritmo impensável, culminando num novo silêncio que deixa antever algo diferente.

De repente o jogo muda. O ritmo cresce, o nosso mundo cresce, nós crescemos e tudo à nossa volta se move a uma velocidade estonteante. Não, afinal somos nós quem corre. Não há tempo para parar. Tudo acontece, tudo quer acontecer. Cada momento importante se vai impondo à outrora normalidade do silêncio. Bebemos todos esses momentos: cada nota, cada batida do coração representam mais um segundo em que permanecemos vivos, mais um segundo do nosso mundo, mais um segundo de experiência. Estes segundos parecem tão efémeros, mas quando paramos para respirar constatamos que se acumularam tão rápido! Mas o caminho é em frente, hoje e sempre. É uma jornada de um só sentido, cheia de cruzamentos e bifurcações mas sem retorno. Podemos olhar para trás, não podemos voltar atrás. Continuemos, cada vez mais rápido e rápido, até não podermos mais! Há muito que passámos por metade da viagem, há muito que deixámos de ser inocentes, há muito que parámos para pensar! Há tanto para ver, ouvir, tocar! Há tanto para sentir! Mas vamos tão depressa, vamos tão depressa, há tanto a passar por nós a que não chegamos! É preciso abrandar.

Agora sim, mais devagar. Não foi uma travagem suave, antes algo progressivo, mas que nos deixa perceber tudo aquilo por que passámos e tudo aquilo que fomos e somos. Estamos cansados mas felizes. Somos tão pequenos e insignificantes aos olhos do Universo mas vivemos tanto que nos sentimos autênticos gigantes. Olhando para trás, podemos dizer que andámos por caminhos memoráveis. A viagem foi feita num sonho acordado, num estado de consciência anestesiada mas plena, num estado de transe. Foi uma jornada mágica. Pareceram ter sido alguns minutos, mas na realidade foi a imensidão de uma vida.

Regresse agora o silêncio.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Poetas de Naftalina

Alguns fazem hoje do ontem,
Vivem vidas de outrém.

Alguns só levantam a cabeça
Para olhar para trás,
Recuam no tempo
Para ver do que ele é capaz.

Alguns esperam ser empurrados
Quando precisam de empurrar,
Deitam-se e sonham
Onde imperava caminhar.

Alguns gastam os segundos que levam à felicidade
A dourar as palavras de desculpa à tristeza;
Guardam o que se devia deitar fora,
Fazem do "se" a sua certeza.

Alguns anseiam pelo dia em que mudem
Mas temem pelo dia em que tudo mude,
Que não tenham de cuidar de coisa alguma
E que o destino de tudo cuide.

Alguns morrem a inventar um sorriso
Quando eram eles tudo o que era preciso.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Caminho Para O Desconhecido

A nossa viagem chegou a um impasse:
Somos os mesmos e nunca iguais.
Cuidemos do temporário como se de eterno se tratasse,
Conservemos o eterno até este não existir mais.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Num Lugar

Homens e Mulheres
Aplaudiram-me e aceitaram-me.
Dizem de mim ser melhor do que aquele eu sentia
E melhor ainda do aquele que viam em mim.
Acredito na segunda.
Acredito ter encontrado um espaço por preencher,
E ocupo-o com todo o meu ser,
Sinto-me tão pleno assim.
Hoje pergunto-me se encontrei um lugar entre eles
Ou se foram eles a encontrarem-se em mim.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Casa

Não aconteço antes de acontecer,
Em casa não sou de ter.
Sou o quê? Nem sei bem:
Para ti sou só alguém,
Para mim sou lá alguém.
Entre tantos fazeres
Queria apenas ser
Neste mundo de com
Onde termino sem.
Queria tanto pertencer,
Mas não sei a quem.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Vistas

Ontem fui um,
Hoje sou outro,
Amanhã nem sei.
Já fui um, dois,
Já fui até ninguém
E já cheguei a não ser Eu.
Não, Eu fui sempre.
Mas nem sempre os olhos que me viram
Foram teus.

domingo, 12 de julho de 2015

Ferida Aberta

No silêncio desta melodia
Só se ouve o recreio
De uma noite tão fria
Cheia do meu receio,

Sei que chegou ao fim
Algo que nem teve início,
Eras tu alimento, fome
E ainda mais vício,

Mas até essa vontade
Matou cedo o sustento
Da nossa tenra verdade,

E só de olhar para ti
No seio da minha mente
Me diz que em mil e uma
Serás sempre diferente,

Mas quando o amor for egoísta
Que se me esgote o coração
Pois no amor da felicidade
Tendo a abrir mão,

E se um dia me recordares
Com os olhos que sempre quis
Morrerei com a alegria
De ser alegre por um triz.

sábado, 11 de julho de 2015

Carrossel

Pago bilhete à entrada,
Na mão esquerda tenho esperanças
Na direita não levo nada.
Prossigo para esta brincadeira de crianças
Sempre de olhar desconfiado,
Qual seria o interesse da vida
Se o ponto de chegada
Fosse a partida?

Mas à medida que circulo
E que me apanha a realidade
Percebo então o estímulo
De andar às voltas sem saída:
Viver nem sempre é uma corrida,
Às vezes é corrida sentado,
E o que pode vir a ser
Afinal podia ter sido.

Mas com tantos erros de cálculo
Aprendemos qualquer coisa,
E também quem se move menos
Pode ir evoluindo.

Repetir portanto a paisagem
Não é anormal enquanto me movo:
Mudando a cada passagem
O velho será sempre novo.
E neste bilhete de ida
Não deixa de haver volta
Se não páro permanecendo aqui
E os sonhos andam à solta.

domingo, 10 de maio de 2015

Ciência (in)Exacta

Ser como toda a ciência:
Sem qualquer dilema,
Uma só excepção
E uma única solução
Para cada problema.

Um caminho estreito, a direito
E objectivo
Conclui numa lei,
Num axioma,
Num imperativo.

E no surgimento de um paradoxo
Nada normal,
Chamar-lhe paradoxo é suficiente
Para fazer dele irracional;
E é na razão que a Ciência subsiste:
Tudo é, tudo faz, tudo existe.

Atalhando em frente
E com cuidado a cada desvio do pensamento,
O desespero tem então correspondente
Nas razões da mente impostas
E todas as perguntas têm respostas.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Sorte

Escolher um caminho e como caminhar:
A Terra para andar,
O Céu para voar.
Trágica a existência neste Futuro imenso:
Há tantos Mundos numa Vida
E a nenhum deles pertenço.

domingo, 19 de abril de 2015

Tentativas

Um rascunho não passa de um projecto inacabado que não sai do papel. Uma ideia, ou melhor, a ideia de uma ideia. Um rascunho surge quando não sabemos o que fazer ou quando não sabemos se aquilo que queremos resulta, e então tentamos experimentar algo não definitivo e testamos a viabilidade daquilo em que pensámos. Se não resultar, simples: passa-se uma borracha sobre o assunto e deitamos fora o tempo passado a trabalhar naquela ideia. O processo é repetido até se obter a obra-prima final.
Existe quem tenha sorte e não precise de recuar uma única vez até chegar àquilo que pretende. Os culpados encontrados são muitos: talento, destino, sorte, Deus. Há ainda quem agradeça à família por o ter posto no Mundo para produzir obra. E efectivamente não deixam de ter razão.
O Homem é uma grande obra por completar, um rascunho. Nasce e cresce continuamente (por dentro e por fora) até fechar os olhos para a eternidade. Quem achar que não, deixou realmente nesse momento de crescer também (um paradoxo curioso). Fazemos, esperamos, assimilamos e avaliamos os resultados dos nossos actos, e é a partir deles que decidimos se estamos no bom caminho para chegarmos à nossa Mona Lisa ou não. Novamente, se estivermos errados só temos de apagar e tentar de novo. Quer dizer, às vezes com o entusiasmo e a fé de que daquela vez é que vai sair bem carregamos com tanta força no lápis que mesmo que tentemos não conseguimos apagar tudo, e lá tem então de vir uma folha nova. E passamos uma vida assim, e gastamos oxigénio e árvores assim.
E depois existem ainda pessoas com o meu problema. Eu não sou uma obra em construção. Não sou um rascunho. Já foi dito que um rascunho se define como uma ideia testada no papel, uma teoria experimentada, mas o meu papel está em branco. Falhar, falhar exige força e empenho para se ter uma nova ideia depois da primeira não resultar. Mas as minhas ideias... Não sei, à partida não parecem grande coisa, portanto, para quê sujar um caderno? Para quê depositar esperanças em raciocínios e horas efémeras? Não é mais fácil dar asas à preguiça cobarde e não anotar nada? Talvez. Assim sou eu. Eu sou ideias, eu sou muitas ideias que não moram em lado algum e que não vão morar em nenhum local para além de uma prisão na minha mente. Eu sou tentativas que nunca aconteceram, metas nunca cortadas. Eu sou um quase. Um quase muita coisa. Um quase demasiada coisa. E não há nada em que seja completo, em que me sinta completo. Eu podia ser muito e não sou nada, porque se tentasse ser muito poderia no fim não ser mesmo nada. Desta forma, sou nada mas talvez fosse muito, se quisesse. Porque se aquele rascunho saísse mal, bem, o que restaria então?
Nunca ninguém viu um rascunho escrito a tinta permanente, não é verdade? Mas se faltasse algo nesse rascunho, de que serviria uma borracha? E se a tinta fosse tão intensa que manchasse as restantes folhas daquele caderno? Não há cadernos suficientes para todos, portanto não podemos estragar as folhas que quisermos.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Espelho

Ergo a cabeça e vejo escuridão,
Não uma escuridão cega
Mas de uma visibilidade repulsiva.
Vejo medo, ignorância, intolerância,
Vejo a presunção de quem me tenta superar.
Encontro-me perante uma besta,
Tão horrenda e destrutiva
Que já desfez vontades de viver e amar.
Pessoas chegam e partem
Com a mesma velocidade;
Pretenderam ficar,
Mas compreendem que não podem.
Pelo seu bem, pela sua sanidade,
Terão de desistir da vontade
De contrariar o resto dos Homens.
E eu não quero observar mais
Ao mesmo tempo querendo,
Desapareça a voz da razão,
E a tragédia e a solidão
Enquanto todo o novo torna a velho
São tudo o que vejo por este espelho.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Howl

Numa prisão sem aço
Onde uma mente é cativa,
Onde só há espaço
Para uma carcaça à deriva,

É maiúscula a ignomínia
Que devora a idade
De uma criança que cresce
Como escrava da verdade.

E as marés andaram
E as estações passaram
E as pessoas não olharam.

E um sonho foi tudo
O que permaneceu:
Construir castelos no céu.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Ruído

Cala Março na Primavera
Cala a soberba de quem muito tinha
Cala o Passado noutra Era
Cala a tua boca na minha.

Cala o aleatório com Filosofia
Cala a paz com as tuas armas
Cala o breu com o raiar do dia
Cala as sortes com os teus karmas.

Cala o crepitar da tua chama
Aquece o gelo do teu calor
Cala a voz de quem clama
Que o teu silêncio é ensurdecedor.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Semânticas

Não quer dizer Sim,
Assado é Assim,
Verdades são Eufemismos
Na dança dos Semantiquismos.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Saber

Do que sei só sei que não sei
Tudo o que sei ser lei,
Se o que acumulei
Não é mais do que o que não dei,
Se era bonito o horizonte
Na hora em que o contemplei.
Tão tarde falei que já não sei.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Manifesto Pró-Almada – Futurista e Defensor das Vontades, Combatente de Monos e Vaidades, Impulsionador do Descobrimento dos Excessos e Vanguardista nas Artes Várias. Tudo isto e muito mais, nunca menos.

Sonhemos! Emocionemos! Gritemos! Exasperemos! Façamos! Beijemos! Cantemos! Choremos! Que se possa errar e aprender com os erros! Que se possa errar e continuar, se aprouver! Que se usem as boas maneiras para exaltar quem merece, que se enfiem as boas maneiras num saco por quem as esquece! Que se ria muito, se coma muito e se beba ainda mais! Que o pouco seja para o que deve! Que não haja troça dos poetas e que haja se não passarem de lixo! Que não se benza lixo! Que não se bajule lixo! Parem-se as avalanches de sins quando faltam bons nãos! Haja revolta! Haja acção! Não à inércia, a mental! Que se possa dizer tudo e opinar tudo, que se possa criticar tudo! Que se tapem ouvidos e não bocas! Escreva-se à mão! Recuperem-se as máquinas de escrever! Vamos para a rua! Olhemo-nos nos olhos! Que bebamos da vida que brota desses olhos! Sejamos piegas de vez em quando! Revoltemo-nos sempre que necessário! Não viremos as costas àquilo que nos ataca à traição! Que se acabem com as futilidades e as sevícias! Que se mostre o bonito! Que se mostre o feio também! Que não se esconda nada! Que se experimente o Amor! Que se viva o Amor! Que se sofra por Amor! Que se foda o Amor! Que se usem palavrões como alívio da pressão! Que se use o cliché como desculpa! Que se justifiquem argumentos! Que não se justifiquem opiniões! Que se sigam as convicções! Mostre-se raiva! Mostre-se carinho! Haja melancolia e solidão, tristeza e depressão! Haja espanto e harmonia, haja histerismo e alegria! Haja Casal Garcia! Haja humor! Lixem-se as marcas! Acabem-se os provérbios e as frases feitas! Desapareçam os robots telecomandados! Que a nossa vida seja dona dela própria! Que a nossa vida não seja dona de ninguém! Dê-se voz à coerência sensata e um altar à incoerência febril! Faça-se novo! Faça-se de novo! Deite-se fora o velho! Guarde-se o antigo! Que tudo seja protegido mas nada intocável! Deseje-se a morte do Dantas! Que não morra o corpo do Dantas, que lhe morra a obra! Que se lhe morra a geração! Que seja o cigano a sentir-se ofendido ao ser comparado com o Dantas! Que venham as batalhas! Que venham as consequências! Que venham as veemências! Que a intensidade nos governe e as palavras no papel se cravem na memória como lâmina na carne! Que se recupere a vontade de escrever! Escreva-se! Escreva-se! Escreva-se! Sejamos Almadas, revolucionários e futuristas! Sejamos Pessoas, criadores e expansores de almas! Que não nos tornemos órfãos de ideias mas sim Orfeus de ideias! Que escrever seja quebrar as regras! Que se leiam páginas pela emoção e não pela pontuação! Que a pontuação exista não mais do que o necessário, como nos ensinou o José! Que não se paragrafe! Que todas as ideias sejam uma grande ideia! Arrumem-se os lirismos e floreados, que se sirvam cruas as palavras e se escalde o Mundo! Que ninguém se cale enquanto houver algo para dizer e que ninguém fale quando nada reste para falar!

A Poesia não está na liga perdida, mas na mulher que a perdeu.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Prováveis

Não gosto de probabilidades. Fazem-me sentir enganado, e eu não gosto nada de ser enganado. Aliás, sempre considerei ser essa uma das grandes funções do pseudo campo/ciência que são as probabilidades. Uma probabilidade não é mais do que uma invenção do Homem para tentar mostrar que controla e prevê acontecimentos que o superam, servindo simultaneamente de desculpa no caso de estar errado. Eis um diálogo recorrente no nosso quotidiano:

- Então, que te aconteceu? Estás todo encharcado!
- Oh, na meteorologia disseram que hoje havia uma probabilidade de 10% de chover, achei que não valia a pena ir carregado com um guarda-chuva...
- Pelos vistos estavas enganado...

E as pessoas adoram fazer o jogo perigoso das probabilidades. Quando um acontecimento é provável é como se deixassem de existir vários desfechos possíveis. Na mente de um leigo, uma moeda que em 5 lançamentos gera 5 caras só tem uma face. Um jogador de futebol que em 3 jogos seja expulso 3 vezes já tem o destino traçado no quarto jogo. Um político que vença 7 eleições vai vencer a oitava.
Basicamente, o ser humano abraçou a roleta russa das probabilidades e deixa que esta o governe a si e às suas tomadas de decisão. As probabilidades são, no fundo, uma forma que possuímos de evidenciar alguma sobranceria e arrogância perante um destino que nos engole mas que apesar de tudo é um destino que pretendemos dominar ou fingir que dominamos.
Quem não ouve uma probabilidade é imprudente, e mesmo depois de mostrar que estava certo torna-se um génio "louco". Curioso é que existam algumas excepções em que as probabilidades são esquecidas, como num jogo do Euromilhões. E a Santa Casa agradece que toda a gente jogue, apesar de a probabilidade de cada um vencer o sorteio seja igual a 0,000000003575561921%. É uma das poucas ocasiões em que o Homem se torna mais crédulo na sorte do que na probabilidade, porque somos todos boas pessoas e portanto coisas boas são o que nos tem de acontecer, não é verdade?
E é isto. Como seres irracionais que somos (apesar de nos acharmos seres muito pensadores cheios de capacidade para controlar o Mundo), criamos regras para viver em sociedade que quebrar quando nos convém. E vivemos felizes com isso. Mas atenção, nem todas as regras gozam desta capacidade de serem ignoradas. Como sociedade, continuamos na hipocrisia de criticar aquilo que sai dos padrões do que é socialmente aceite, excepto no caso em que somos os visados. Mas quando criticamos, é provável que aconteça só aos outros.
Fui educado para pensar que vou ser feliz e alcançar todas as metas a que me proponho, isto porque sou um bom menino e por isso mereço ser feliz e sentir-me realizado. Pois bem: provavelmente essa teoria é parva, porque muitas coisas más acontecem a gente boa. Mas também é provável que esta minha dissertação revoltada seja ridícula, simplesmente porque não me sinto feliz agora e provavelmente nunca me hei-de sentir feliz no Futuro. Ou então é provável que nada do que eu diga aqui faça sentido porque sou um poço de confusão de ideias e misturar conceitos e pensamentos numa grande sopa de palavras é o que eu faço, mas também porque tudo é possível em qualquer altura e em qualquer lugar, porque a vida é uma infinidade de possibilidades e não existe ninguém que possa prever ou que esteja certa acerca de tudo. Não sei. Mas é essa a questão dos Prováveis: há sempre uma forma de deixarem de o ser.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Pensamento #10

A repetição é o acto desesperado de tentarmos explicar a outros aquilo que só nós sentimos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Alma Líquida

Frustrantes,
As tentativas de agarrar a água do rio
Sem algo para guardar,
Sem saber se ela se correu ou fugiu.

A terra onde o rio corre
É menos permeável que a palma da minha mão
Mas o local que a água percorre
É a terra que piso e a que chamo chão.

Porque a terra não mente,
Não fala, não sente.
A terra não complica: encerra uma história
Que só mostra a quem tente.

Os sonhos são um rio que flui,
Correm com vontade até ao sal
Desisti de enclausurar água num punho
É tempo de abraçar um caudal.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Gladius

Esta vontade,
Esta ânsia que me pulsa nas veias
De distorcer a verdade,
De deitar mão à saudade,
De tatuar no papel
Uma distopia,
Uma alma cheia,
Uma meta vazia.
Escrever, escrever, escrever:
Não é a repetição
Que dela faz imperativo,
É a necessidade de me manter vivo
Que resulta como uma canção.
E se um dia as letras se apagarem
E as palavras se baralharem
Será o dia em que parou de me bater o coração.