quarta-feira, 31 de julho de 2013

Sentidos

Quero tanto escrever
Mas ganha chumbo a pena,
Mão tolhida por um sonho
Na forma de presença de tez clara,
Dona da beleza mais rara.

Foi num só dia que me preencheste
No mesmo dia me prendeste,
Deste vida ao que estava enfermo,
Ficaste comigo no meu lar ermo
E foi nele que aconteceste.

E que eu morra no dia em que fique cego
Se nunca mais te puder ver,
E que eu morra no dia em que fique surdo
Se nunca mais te puder ouvir,
Que me acabe a vida quando perder o tacto
Por não poder dar-te a mão sem deixar de a sentir.

domingo, 21 de julho de 2013

Labirinto

Enveredaste por esse caminho
Complexo e enfadonho
E deste por ti desorientado
Num cruzamento medonho
Que te leva a um percurso
Que nunca podes dar por terminado,
Mais pesadelo que sonho.

E tu andas, e andas,
Deambulas em busca de rumo
Levado à exaustão,
Queres ver-te derrubado
Mas nem para isso tens solução,
Já que nem funciona o teu Fio de Prumo
Para saberes se ainda estás levantado.

O que será mais irónico
São as paredes desse labirinto,
Feitas da mais efémera terra
Mas suficientes para te deixarem faminto,
És único mas não chegas,
E o teu ideal acabará extinto
Porque não foste lesto a cavar
E acabaste apeado,
Porque temias o que havia do outro lado.

Por isso não curves ao sabor da estrada,
Segue em frente, em linha recta
Que com menos de nada não ficas
E podes chegar a tudo,
Aí serás peixe graúdo.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Círculo

Já viste como o Ciclo da Vida
É algo tão literal?
Não é uma coisa normal
Mas não é como se não te tivessem avisado:
Falam-te das voltas que a Vida dá
E de como trocar as voltas a alguém é pecado,
Ou de como contos de terror baratos
Pedem um narrador bem acompanhado.

No fundo és um ponteiro de relógio
Entre meias noites e dias,
Os teus picos não surgem
Quando as tuas vontades urgem,
Esquece o sonho de teres o que querias.

Devias ter percebido mais cedo
Pois procuraste tanto e não viste
Porcos de bicicleta e galinhas com dentes,
É o receio de que não cantes este Fado triste
E vás em busca do que não entendes.

Mas até contra isso a Vida se guardou,
Manda-te viajar para longe em linha recta
E dás por ti circulando o Mundo
Voltando à estaca zero sem cortares a meta.
Aguardas imensos sucessos
Com base no que a esperança te promete
E acabas no mesmo lugar após tantos regressos;
Vês como a História se repete?

Não é uma porta que se fecha e outra que abre,
É só a mesma constantemente aberta,
E essa é a tua salvação:
Podem fazer-te andar em círculos grandes e pequenos
A fazer mais ou até menos,
Mas tu decides a direcção.

sábado, 6 de julho de 2013

Biblioteca Sabática #8

Será que, em relação a um determinado autor, podemos sentir-nos mais fascinados por um livro que sabemos não ser o mais genial e pensado do mesmo e talvez nem sequer o nosso preferido? Nunca me tinha acontecido até agora, mas posso garantir que é possível.
Vou poupar nas palavras a José Saramago, porque o próprio as dispensa. Vencedor do Prémio Camões em 1995 e do Prémio Nobel da Literatura em 1998, tem conquistado o Mundo com o seu tremendo espírito criativo e genialidade, mesmo após o seu falecimento, há cerca de três anos.


Claraboia foi editado em 2011 apesar de ter sido escrito por Saramago com uma idade a rondar os 28 anos, quando ainda era um desconhecido do Mundo da literatura. Não foi editado em vida do autor por este considerar a obra como que indigna de ser publicada, por não corresponder a certos padrões impostos por si.
Vou ser pragmático: Claraboia é um livro ingénuo, talvez demasiado ingénuo em algumas passagens. Somos apresentados a um prédio e aos seus moradores, às interacções entre eles, às vidas que têm e que anseiam ter, aos erros que cometem e as consequências que de lá advêm. Mas este é um livro demasiado "sincero", um livro em que o autor não consegue disfarçar grandemente que os sonhos e esperanças de algumas personagens não são nada mais nada menos que os seus. Mas por muito paradoxal que possa parecer, é curiosamente o grande ponto fraco do livro que o torna fascinante.
Pensemos em José Saramago, no homem e escritor que se tornou. Pensemos agora no jovem Saramago com 27 anos, um rapaz cheio de vontade mas também muitas inseguranças, sem tiques na sua escrita (para os mais críticos do estilo de Saramago: a pontuação aqui ainda é feita da forma "usual" na Língua Portuguesa) um jovem que no seu interior trava uma luta interior entre o sonho e o medo. Um jovem que guarda em si o desejo de ser alguém e num só livro distribui sobre diversas personagens todo esse desejo, na tentativa de atribuir diversos finais possíveis aos transportadores dessa vontade e com a esperança de que a ele calhe uma das histórias de sucesso, apesar de o fracasso lhe estar igualmente presente na memória. E portanto, acabamos por obter uma interessante luta entre o optimismo e o negativismo dentro de um só edifício, que neste caso já não é o prédio de Claraboia mas sim a mente de um Saramago que não sabe o que esperar do futuro. A magia que este livro acaba por nos passar é precisamente essa, a revelação da evolução de um jovem desconhecido mas com potencial até se tornar num escritor de renome, vencedor de Prémio Nobel. Tecnicamente, apesar de não ir em nenhum lado figurar na lista de melhores livros de sempre e de provavelmente só merecer destaque por ter sido escrito por Saramago, Claraboia é uma metáfora sobre perseguirmos os nossos sonhos e no sucesso que chega quando lutamos pelo que queremos com persistência e convicção, ultrapassando os nossos receios. O único aspecto negativo do livro é o facto desta história ser extra-enredo, mas ainda assim é uma obra literária merecedora da nossa atenção, porque ainda assim tem algumas passagens bonitas.


"Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo. Para nunca mais! Ouviste? Para nunca mais. Quanto mais forte for o teu desejo de felicidade, mais infeliz serás. A felicidade não é coisa que se conquiste. Hão de dizer-te que sim. Não acredites. A felicidade é ou não é."

"Tudo o que não foi construído sobre o amor gerará ódio."


Boas Leituras!

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Pensamento #7

Constrói o teu castelo de cartas sobre uma mesa sólida. Se o castelo ruir tens uma mesa em que te apoiar. O contrário é impossível. Ao construíres uma mesa sólida sobre um castelo de cartas, sabes que mais cedo ou mais tarde vão ruir os dois e no fim não vais ficar com nada.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Cadeia Alimentar

O coelho sai da toca,
Não para procurar que comer
Mas ser apanhado pelo caçador,
Pois é mais fácil ser são e morrer
Que sobreviver em dor.