Na cidade que não dorme
Fiz meus sonhos de outras gentes,
Construí muralhas, derrubei portas,
Tomei castelos em várias mentes
E fiz-me senhor de um Império
Tomado de assalto sem critério.
Mas a segurança escasseia
E o motivo não é alheio:
Foi quando tudo usurpei
Que me senti homem meio;
Muito posso ter levado
Mas muito foi o que de mim deixei.
A conquista não faz o Homem
Nem a inércia o mantém,
É fazer o que não foi feito
Que faz dele alguém.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Passados
És um adulto a viver da memória
De quando eras criança
E procuravas glória,
Não te preocupavas com o Mundo
Ou com o abismo que te roubava o chão
Era a tua trajectória
Que te enchia o coração
Da forma mais completa,
Mesmo sendo aleatória
E a tua mente deserta
Com as mudanças da História
Vistas a 3 palmos do solo
E relatadas sem dotes de oratória,
Até que olhes de cima o céu
Em que um dia te hás-de perder
E a conversa sobre o futuro te soe irrisória,
Pois crescer é morrer.
De quando eras criança
E procuravas glória,
Não te preocupavas com o Mundo
Ou com o abismo que te roubava o chão
Era a tua trajectória
Que te enchia o coração
Da forma mais completa,
Mesmo sendo aleatória
E a tua mente deserta
Com as mudanças da História
Vistas a 3 palmos do solo
E relatadas sem dotes de oratória,
Até que olhes de cima o céu
Em que um dia te hás-de perder
E a conversa sobre o futuro te soe irrisória,
Pois crescer é morrer.
domingo, 8 de setembro de 2013
Biblioteca Sabática #10
Ken Follett (nascido em Cardiff, em 1949) é um escritor de créditos firmados nas áreas da literatura policial, dos romances históricos e dos thrillers de espionagem. Desde a década de 70 que publica obras, primeiro sob vários pseudónimos e uns anos mais tarde em nome próprio, e foi já a assinar em nome próprio que o autor conseguiu, em 1978, publicar o seu primeiro best-seller, The Eye Of The Needle (O Estilete Assassino), o qual iria catapultar a sua carreira internacionalmente, ajudando a que hoje em dia tenha mais de 100 milhões de cópias vendidas em todo o Mundo e vários prémios ganhos.
Apesar de a maioria das suas obras abordar o tema da espionagem durante as duas Guerras Mundiais (ou períodos ainda mais recentes), Ken Follett tem como uma das obras mais famosas do seu "reportório" uma história que não tem nada a ver com o século XX. Aliás, este é um romance histórico que em termos temporais se situa bem longe desse período.
Os Pilares Da Terra (The Pillars Of The Earth, 1989) representa a primeira aventura de Ken Follett na escrita de romances históricos, e relata a história da construção da Catedral de Kingsbridge, em Inglaterra, no século XII (durante o período histórico conhecido como A Anarquia), fruto da vontade de um pedreiro chamado Tom, que tinha precisamente como sonho construir uma catedral durante a sua vida, para deixar como legado algo bonito e majestoso.
É quase impossível fazer um resumo de qualidade de uma obra que consiste em 2 volumes e mais de 1000 páginas no conjunto, mas há que referir que aquilo que parece à partida um enredo simples se vai transformar num romance épico de proporções imensas. Vemos os interesses políticos por parte de Nobreza e Clero e a persistência dos heróis das classes baixas, cujas vontades são ameaçadas tanto pelos poderosos como por membros do seu próprio estrato social.
A narrativa é fantástica e fluída e o enquadramento com os factos históricos está muito bem conseguido, deixando-nos a nós, leitores, constantemente ávidos por ler o capítulo seguinte com a maior rapidez possível. Para além disso, Ken Follett mostra-nos aqui, como em todos os seus restantes livros, personagens muito bem construídas; o espaço temporal não nos impede de reconhecer a coerência e veracidade das suas acções (os vilões são excelentes, causando raiva, desespero e frustração genuínos no leitor, fugindo ao normal do autor, que nos consegue muitas vezes colocar a torcer ou sentir uma ponta de pena pelo "mau da fita"). E se na realidade a única crítica negativa a apontar a esta obra se prenda com o facto de o final não conseguir fugir a alguns clichés habituais, não deixa de ser verdade que isso não belisca em nada a grandiosidade de uma história que tem vindo ao longo dos anos a apaixonar pessoas de todas as idades, naquela que foi uma primeira saída da zona de conforto muito bem sucedida por parte de Ken Follett.
Boas Leituras!
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Triangulação
Olha lá no alto, tão grande a lua
Perto e longe, como outros tantos bens,
És soldado numa guerra que não é tua
Para proteger o que não sabes se tens.
Vê se o caminho está livre
E o inimigo não está no campo de visão,
Pega nas armas que encontras
E lança-te de coração.
Não podem matar o que não vive
Por isso não há como perder,
Na guerra tudo muda
E o que não eras, passas a ser.
Perto e longe, como outros tantos bens,
És soldado numa guerra que não é tua
Para proteger o que não sabes se tens.
Vê se o caminho está livre
E o inimigo não está no campo de visão,
Pega nas armas que encontras
E lança-te de coração.
Não podem matar o que não vive
Por isso não há como perder,
Na guerra tudo muda
E o que não eras, passas a ser.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Devaneios de uma Pontuação Transtornada
Era uma vez um sinal de pontuação, um Ponto e Vírgula, que vivia na tecla do computador de uma Biblioteca Municipal. Há muito tempo que ele ali vivia, mas naquele momento andava com alguns problemas, nomeadamente uma grande crise de identidade.
Não é que o Ponto e Vírgula (PV para os amigos, e ele ainda tinha alguns) vivesse infeliz. Afinal ele tinha um lar e tinha dezenas de amigos que moravam perto de si nas teclas do computador, que mais podia pedir, certo? Mas havia algo que faltava, algo que não soava bem na vida normal de um sinal de pontuação... O calor humano.
Computadores em bibliotecas são como lojas do cidadão, estão sempre com gente. Todos os dias aquele computador era usado: era o menino da escola básica que ia pesquisar sobre o mais recente filme dos Vingadores, o universitário com dúvidas de Química Orgânica, a solteirona que morava ali ao lado que ia à procura de novos esquemas de ponto cruz. A electricidade era bombeada pelo cabo como sangue pelas veias, nessa busca incessante que o ser humano travava por informação de utilidade variável. Todos andavam em modo de trabalho naquela máquina, mas tinham ainda outra coisa em comum: não usavam o Ponto e Vírgula.
Nos primeiros tempos parecia algo normal, já que o PV tinha ouvido dizer que a sociedade andava por maus caminhos literários, e toda a gente se perdia com facilidade na arte de escrever bem. E ele dizia para si coisas como "tudo bem, se calhar ainda não repararam em mim, para a próxima é que é"! Mas nunca chegou a ser. Mesmo entre amigos nem tudo corria bem. Dois estrangeiros residentes no teclado com os quais o Ponto e Vírgula se dava, o Enter e o Delete, tratavam-no por "Semicolon" e ao Dois Pontos por "Colon". Não fazia sentido. Ele, PV, era um sinal de pontuação mais complexo, constituído por duas marcas tão diferentes como o ponto e a vírgula, e era tratado como metade de algo, e aquele que se repetia é que era tratado como um inteiro?
O PV desesperava, e numa fase de maior transtorno decidiu consultar um especialista em Semântica Psiquiátrica e expôs-lhe a situação:
- Senhor Doutor, ninguém quer saber de mim! Dos 8 aos 80, homem ou mulher, ninguém me dá atenção, ninguém sabe para que sirvo! Acho que já nem nas escolas falam da minha função na Língua Portuguesa! Serei assim tão insignificante?
- Meu caro, permita-me explanar-lhe a a ocorrência de uma forma o mais sintética e exemplar possível, possibilitando-me e possibilitando-o simultaneamente usufruir de maneira prática das minhas soberbas capacidades linguísticas! Ora bem, existe efectivamente uma probabilidade avultada de sua excelência se encontrar neste preciso momento vítima de ignorância, mas não pressinto motivos para o desespero! O Destino encontra-se em constante fabrico de situações de cumprimento de uma feliz justiça que age sempre no favorecimento daqueles que praticam o bem, como aparenta ser o seu caso... Como tal, recomendo-lhe que deixe o tempo actuar nesta tão crucial questão, e verá que não tardará a descobrir alguém que lhe dê o devido valor!
- Mas... Mas...
"Mas que raio de resposta, ora essa! O senhor linguista é cheio de salamaleques e palavras caras, com ideias motivacionais muito engraçadas no papel, mas nem ele foi capaz de usar um sinalzinho deste aspecto ( ; ) na porcaria de um parágrafo gigantesco e inócuo", era o tipo de pensamento que ocorria ao frustrado PV.
Os dias iam passando, a tristeza aumentando. Havia uma tecla que definhava com velocidade acrescida ao longo do tempo, e era a que tinha um ponto e uma vírgula. Mas que poderia ele fazer para que gostassem dele?
Foi então que ele teve uma ideia. Porque não tentar ouvir as pessoas, tentar saber do que elas gostavam e precisavam, e então dar-lhes isso? Era excelente! PV começou então a prestar atenção redobrada aos usuários daquele computador, e percebeu que havia dois tipos de pessoas: as apressadas e as pachorrentas. O primeiro tipo claramente queria despachar-se a todo o vapor daquela missão de pesquisa. Queriam lá saber da pontuação, e quando a usavam eram vírgulas, porque faziam as pausas mais curtas. Já o segundo tipo eram as mais vagarosas, mais lentas. Queriam saber tudo com a maior certeza antes de acabar a pesquisa. Faziam muitas pausas na escrita. Frases curtas e muitos pontos finais no texto, para permitirem uma respiração longa e relaxada.
Era então esse o problema! As pessoas queriam pausas curtas ou longas, não queriam saber de quem lhes possibilitava pausas intermédias, que não se coadunavam com a sua personalidade! Bem, o PV queria amigos, portanto era justo que ele fizesse algo por isso... Decidiu então mostrar apenas metade de si a cada um dos grupos de pessoas que usavam o computador da biblioteca. Aos apressados, mostrava só a sua metade de Vírgula, aos vagarosos, só aparecia como Ponto.
Que tempos felizes! Todos queriam saber dele, todos se davam com ele, todos pediam para o utilizar em pesquisas, trabalhos, livros, composições! A vida era tão alegre, com pessoas que lhe davam atenção! Não havia nada que ele quisesse agora, excepto... Bem, era uma coisa parva, mas quando estavam com o PV, as pessoas acabavam por reconhecê-lo pela faceta que conheciam dele: uns chamavam-lhe "Ponto", outros "Vírgula", mas ninguém o tratava por "Ponto e Vírgula"... Mas gostavam dele, isso é que interessava... Pelo menos...
Oh, vida cruel! O Ponto e Vírgula andava triste por ninguém querer saber dele, e agora que isso acontecia, ele continuava infeliz. É que as pessoas importavam-se com ele, as pessoas davam-lhe a atenção que ele sempre desejou, mas apenas (acabara ele de se aperceber) porque ele fingia perante elas ser algo que não era exactamente. Não que ele não tivesse uma parte de ponto final ou de vírgula dentro de si, mas havia mais, muito mais! Ele não era só metades interessantes, ele também era desinteressante! Ele estava cheio de regras sobre como devia ser utilizado, para que nem todos se pudessem servir dele para magoar um qualquer texto desleixado! Ele era assim porque achava que era o correcto, e tinha esquecido que a sua natureza era o que fazia de si especial. Quem gostasse dele e o usasse teria de o fazer com consciência dos seus defeitos e virtudes, para o poder fazer correctamente. Afinal, no dia em que encontrasse alguém assim, o PV sabia que estava perante alguém verdadeiramente especial. Era só preciso que o Ponto e Vírgula não renunciasse àquilo que era verdadeiramente, e o Destino encarregar-se-ia do resto (bolas, o doutor dos salamaleques tinha razão...).
E foi então que pela primeira vez na sua vida, a solidão não diminuiu a felicidade do PV. A expectativa mantinha-se alta, todos os dias, mas o desespero já não o assolava. A hora dele ainda não tinha chegado, mas não tardaria! E o que é certo é que não tardou mesmo.
Foi numa tarde de Primavera a fugir para temperaturas veranis que ela surgiu. Uma rapariga morena de pele delicada e cabelo comprido de ar rebelde que contrastava com a calma transmitida pelo resto da figura. Sentou-se, abriu o editor de texto e começou a escrever. Foi aí que o Ponto e Vírgula sentiu que aquela rapariga era diferente. Aquele ser humano de ar delicado e tímido, ao toque na primeira tecla, transformou-se imediatamente na dona de um corpo furioso a escrever, no meio de um turbilhão de ideias e emoções. Foi impressionante, e naquele momento, o PV desejou ser notado. E então, num repente, a rapariga olha para o teclado, repara no facto de a tacla do Ponto e Vírgula apresentar um desgaste do uso infinitamente inferior às restantes, e disse:
- Olha, é mesmo de ti que preciso!
O Ponto e Vírgula nem queria acreditar:
- De mim?!
- Claro! Pretendo ligar duas orações independentes sem recurso a qualquer conjunção, porque ando um bocado farta delas. Vou ser sincera, as conjunções têm sempre a mania que são muito úteis e sabichonas, sempre com algo relevante a acrescentar - disse a rapariga. - Às vezes dão muito jeito, e é um facto de que não conseguimos viver sem elas, mas eu cá não gosto de estar dependente de nada nem ninguém! Importas-te de me auxiliar?
Era um sonho tornado realidade. Alguém que se importava com o Ponto e Vírgula e que lhe pedia ajuda numa situação válida para ele ser usado!
- Claro que ajudo! És a primeira pessoa a convidar-me a entrar num texto de forma correcta, sabes?
- A sério?! Estas pessoas, francamente... Não sabem o que andam a perder! Sempre te achei extremamente interessante! Tens tanto para oferecer e enriqueces tanto os textos onde apareces! Se as pessoas não te davam o devido valor, elas é que perdem! E eu ganho! - Afirmou com um sorriso nos lábios.
E foi assim que nasceu uma bela história de paixão pela literatura, e foi também assim que o Ponto e Vírgula se intrometeu numa simples linha de uma simples página de um singelo livro que iniciou a carreira de uma vencedora de Prémio Nobel. Com a alegria estampada no rosto, o discurso de agradecimento teve direito a uma menção ao importante amigo que um dia a ajudou a escrever uma frase pela qual ela ficaria conhecida:
"É o Amor que nos corrói; é o Amor que nos constrói."
"É o Amor que nos corrói; é o Amor que nos constrói."
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