Lembras-te
como nos conhecemos? Eu cá não; para mim, conheci-te no dia em que falei
contigo pela primeira vez, o dia em que reparei em ti pode ter sido um
qualquer, é um mero apontamento.
Não
gostava lá muito de ti no início; parecias-me má. Achei-te muito senhora do teu
nariz. Não que isso fosse necessariamente mau, mas eu estava disposto a mostrar
a mim mesmo que não me queria meter com gajas cheias de mania. Enganei-me.
Também
não me lembro acerca do que falámos da primeira vez. Não me interessou muito o
que dizias, mas o tom de voz com que falaste para mim. Nunca tinha ouvido um
anjo falar para mim. Um anjo mau, é certo, mas não deixavas de ser um anjo.
Normalmente
é assim, quando nos apaixonamos. Os outros são perfeitos, e nós fracas figuras
com tão pouco para oferecer. Os mais audazes atiram-se de cabeça e tentam a sua
sorte, com a certeza de que o “não” está garantido. Os mais contidos, ou
demoram demasiado tempo e perdem a oportunidade, ou preferem embarcar numa
“amizade colorida” unilateral, da qual não dão conhecimento à outra parte. Tudo
com medo de se magoarem.
O
que é certo é que ninguém se mete no Amor confiante. Até os tais corajosos vão
à espera do “não”, porque ninguém se acha bom o suficiente para ouvir um “sim”.
O Amor pode ser bom, mas também nos faz muito mal. O cérebro deixa de
funcionar, e quando funciona é de forma deficitária, e o coração não tem nada
de racional. Para que serve o Amor então? Bom, para quê, não sei, mas se não
existe íamos sentir-nos todos mais pobres. Podemos viver sem amígdalas, não
podemos? Claro que sim, mas o facto de as termos proporciona um momento tão
belo como aquele que acontece quando somos operados para as tirar, e no qual o médico
nos recomenda comer gelados, para aquilo sarar mais depressa. É um momento
único na vida, um médico a receitar gelado. Com o Amor acontece mais ou menos o
mesmo: sofremos muito, mas de permeio somos presenteados com meia dúzia de
(para quem é sortudo) acontecimentos felizes na nossa vida.
Comigo
aconteceu o mesmo. Tu eras má, mas ainda assim boa de mais para mim. Não eras a
mais bonita e também não eras a mais inteligente, não eras a mais simpática nem
a mais bondosa; não eras a mais altruísta nem a mais decidida, e não eras de
todo a mais interessada em “dar-te” comigo. Aliás, acho que nem a seres má eras
a melhor. Não por falta de esforço, diga-se.
Mas era isto que eu gostava em ti. Não eras a melhor
em nada, mas eras real. O mais bonito, o mais feio, o mais fantástico, o mais
isto, o mais aquilo, etc., tudo isto são coisas que só aparecem nas histórias
dos livros ou do cinema. Nós nunca conhecemos ninguém assim. Tu eras muitas
coisas e ao mesmo tempo não eras nenhuma. Eras apenas tu. Com tudo o que tinhas
de bom e (ainda mais) de mau. E como eu gostava de ti.


