quinta-feira, 24 de abril de 2014

quinta-feira, 10 de abril de 2014

inDesejo

Era uma vez um Desejo.
Um dia, cansado de não contribuir para um Mundo melhor, o Desejo decidiu conceder-se a Ele.
Sem hesitar, Ele pediu para ser colocado no centro do local mais belo da Terra, um local que Ele pudesse amar e admirar por toda a eternidade.
O Desejo colocou-O então no meio do campo mais vasta e densamente florido, onde reinava a beleza mais simples e simultaneamente etérea alguma vez vista.
No entanto, e apesar de o princípio se ter revelado frutífero, a magia cedo deu lugar ao desespero. Ele queria progredir, desenvolver aquela relação com aquele lugar que escolhera para viver até ao final dos seus dias, mas para onde quer que ele olhasse só havia flores, frágeis e delicadas flores. Virava-se ele para qualquer ponto e via-se impedido de andar, pois um único passo bastava para destruir um pouco daquele campo. E quantos mais passos desse, mais era a quantidade de flores que dizimaria no seu caminho. Ele encontrava-se então numa encruzilhada: ou apostava na sua própria liberdade e destruía aquilo que tinha de mais fascinante na vida, ou preservava aquele sítio sofrendo como consequência nunca mais se poder mover.
E Ele tomou a única decisão que podia tomar. Era impossível viver consigo próprio sabendo que tinha sido responsável pela deterioração daquilo que Ele considerava puro. Era algo que Ele não podia permitir, destruir algo perfeito, digno do seu amor. Como tal, amaldiçoando o dia em que pudera realizar um desejo, Ele ficou imóvel até ser pó, prisioneiro do seu próprio sonho.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

...

Fazes-me falta. É egoísta dizer isto, mas fazes-me mesmo muita falta.
Não sei se alguma vez te dei a entender a verdadeira importância que tinhas para mim. Agora é tarde, eu sei. É tarde para te mostrar o quanto gosto de ti, porque já não me podes ouvir.
Sinto-me hipócrita por continuar a ser assolado por estes pensamentos, porque tu agora não precisas que te façam sentir bem e te digam o quão importante sempre foste. Tu não precisas de nada disso, não precisas sequer de mim, eu é que preciso de ti neste momento e a forma mais discretamente egocêntrica de o mostrar é dizendo que queria mais oportunidades contigo.
Eras o meu escape deste violento Mundo dos Adultos. Por muito desanimado que eu estivesse, a tua presença era suficiente para me deixar a sorrir, mas mesmo assim tu sabias quando me animar, e nessa altura conseguias fazer-me sentir como se nada à minha volta merecesse a minha preocupação. E aí para te fazer a vontade todo o desafio era superado, desde sessões de karaoke de música comigo a cantar música pimba, as danças parvas que hoje fazem toda a gente rir-se de mim e que foram desenvolvidas contigo, as minhas sessões de imitação de vídeos de quedas ou as 200 visualizações do Shrek.
É ridículo que me esteja a sentir assim num dia que durante 10 anos me encheu de felicidade. Gostava de o conseguir evitar, mas não consigo. Continuo com a esperança ridícula de poder olhar-te nos olhos e ver o teu sorriso inocente e cheio de vida, mas o mais perto que consigo estar de ti e de te ver hoje é através de um bloco de pedra polida. E onde havia amor há agora raiva, e onde havia felicidade há agora escuridão. E onde havia uma enormidade de sonhos a cumprir por ti existe agora apenas incapacidade e resignação.
É egoísta e injusto dizer que a culpa é tua por eu não ser neste momento nada do que aquilo que já fui e podia ser. Não é que sejas a responsável por sentir tantas coisas más, mas és a responsável por não conseguir sentir nada de bom. E eu só queria que me olhasses nos olhos e me fizesses sentir que consigo tudo, porque neste momento não consigo. E irrita-me que seja tão fraco para fazer de alguém tão especial um post de blog igual aos outros; tu merecias um blog só para ti, ou até um livro.
Fazes-me falta.

domingo, 6 de abril de 2014

Plágios

O Plágio é um conceito muito curioso. É normalmente algo que se atribui, com algum desprezo e condescendência, a escritores de terceira categoria mais preocupados com lucros do que com arte. Não é uma palavra comum, própria do quotidiano de um leigo, nem é sequer uma daquelas palavras que represente sequer um defeito com que a maioria das pessoas se identifique: não, um plagiador é uma figura quase mitológica, só aparece nas notícias ou é detectável por algum especialista nas redes sociais. Para todos os efeitos, o plágio praticamente não existe na vida real.

Tretas.

Vivemos num Mundo que é completamente rodeado e dependente do plágio. Uma "invenção" não é mais do que um melhoramento ou junção de algo já existente. Um CD é um vinil mais pequeno e digital, um refrigerante é água aromatizada e uma pastilha elástica é só um pedaço de plasticina comestível.
Desde tenra idade somos confrontados com uma educação em nada original. Numa vida em que há pavor pelo que é estranho, somos obrigados a assimilar rapidamente as regras que a sociedade criou para evitar surpresas e aprendemos na escola, não a pensar, mas a decorar o que outros descobriram.
Aqueles que não se sentem encaixados neste Mundo são um tipo mais ingénuo de plagiador. Passam a vida a dizer "ninguém me compreende", "eu sou especial", "eu sou único". Não é estranho que haja assim tanta gente a sentir-se da mesma forma? Não percebem que é uma pista? Vocês não sabem é relacionar-se com os outros, e consequentemente vai ser difícil que conheçam pessoas como vocês, com esse mesmo problema. Mas elas existem, o que significa que a ironia de acharmos que somos especiais faz de nós pessoas absolutamente comuns, simples ladrões de ideias.
Já a sociedade é, per se, tanto hipócrita como amedrontada pelo conceito de plágio. A Segunda Guerra Mundial terá desempenhado, nesse sentido, um papel muito importante no comportamento geral actual. Depois das atrocidades cometidas por um ser humano (?) que pretendia criar uma raça em que as pessoas fossem todas o mais iguais possível (Hitler, seu plagiador!), a sociedade tem tentado compensar as minorias de forma exagerada e descompensada, através de campanhas de sensibilização que visam dizer o quê? Que europeus, asiáticos, africanos, etc, somos todos iguais (oh, a ironia...). É algo natural e esperado; afinal, depois de um acto terrorista é quando as pessoas prestam mais atenção à maldade no Mundo e à falta de segurança que as rodeia. O ridículo aqui é o dinheiro que se gasta em publicidade e que poderia ser usado para comprar roupas, comida ou vacinas para algumas dessas pessoas "iguais a nós" e que se encontram em necessidade. Não, o que interessa é mostrar o sucesso aquele senhor indiano fez na Medicina, ou como aquele senhor africano é um atleta de excelência, para mostrar que afinal eles são tão bons como nós.
Pessoalmente, percebo pouco de Medicina e por atleta de excelência também não passo, o que significa que estas pessoas até serão melhores do que eu, mas claro que a hipocrisia aqui está no facto de nos ser implantada a ideia de que o facto de eu ser branco e europeu me coloca à partida em pé de igualdade com um génio nascido num país de Terceiro Mundo. A tentativa aqui de mostrar as qualidades de outras culturas esbarra no egoísmo e narcisismo do Mundo Moderno, e o esforço de apelar à ideia de "igualdade" é simplesmente mais uma forma de mostrar a inferioridade dos outros. Uma espécie de bullying às minorias, mas de uma forma tão sublimemente acutilante e discreta que tanto o senhor Adolf como o senhor Ary dos Santos ficariam (por motivos diferentes) orgulhosos.
Por falar em bullying às minorias, o plágio está tão incorporado na História que se criou uma expressão que refere que ela "se repete" e ainda houve quem inventasse termos como "déjà vu" ou "coincidência". Isto porque "plágio" é uma coisa horrível, claro, e quem é que não aprecia um bom eufemismo?
Também plagiamos no Amor. Temos normalmente a vontade de amar alguém que nos compreenda, que se assemelhe a nós, que tenha gostos idênticos aos nossos, mas aquele medo terrível que a sociedade tem do plágio e das descriminações fez com que começasse a circular o mito de que os opostos se atraem. A "cara-metade" deixou de ser alguém que nos entende para ser alguém que nos complementa. Se eu não quiser ser louco e passar o tempo todo a praticar desportos radicais não posso, porque a minha "cara-metade" tem que ser passada da cabeça. Tem lógica? Não. No entanto, gostava de ver isto implementado nos Estados Unidos, só para assistir a constantes tentativas de acasalamento entre Democratas e Republicanos. Gosto de ver séries como Game Of Thrones, portanto acho que para os padrões da realidade até era capaz de gerar uma quantidade de sangue engraçada.
Vamos pôr os pontos nos is: o plágio não tem resolução. Atente-se neste texto: ou eu admito que sou especial e que nunca ninguém na vida resolveu escrever acerca do plágio e estarei a plagiar aquela quota de pessoas que se acham únicas (o que parece provável a avaliar pelos cerca de 1.040.000 resultados que o Google obteve para a palavra referida), ou então aceito que estou a fazer aquilo que uma ou mais pessoas já se lembraram de fazer, e que no fim de contas não tenho assim tanta importância nem criatividade (outro conceito bem dúbio). No entanto, e como a sociedade se esconde atrás de dogmas estúpidos e crenças ilusórias, a aceitação de que não somos aquilo que pretendíamos mas sim derivações daquilo que outros já foram é, por mais paradoxal que pareça, a melhor forma de mostrarmos ao Mundo que somos diferentes.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Mente

Mente mente demente,
Não tens salvação possível,
És miragem do que eras
E o chão que pisas é sensível.

Mente mente demente,
O limbo é o teu lar
Haja quem não o sente
E te venha salvar.

Ouves o silêncio?
É ausência de solução,
Afinal não és diferente,

Estás quebrado,
Irremediavelmente;
Por isso mente, mente demente.