Morre!
se ficas descalço em chão lauto,
Se o Futuro é vil e tu tão incauto,
Morre!
porque ficas quieto enquanto tudo em teu redor ande,
O Mundo é pequeno e tu tão grande,
Morre!
se te diluis no Universo,
Se faço da tua prosa meu verso,
Morre!
por uma Pátria sem Pai nem Mãe,
Se o que hoje te morre é de outro alguém,
Morre!
se a tua armada perde rumos e lemes
E a morte ainda é o que temes,
Morre!
porque tens de o fazer,
Nesse dia vais voltar a nascer.
sábado, 28 de dezembro de 2013
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Faz
Não sejas frio como o tempo
Se a época é para te aquecer o coração,
Se te enfartas e já estás farto
Olha para o lado e estende a mão.
Tu que te queixas da vida,
Tu que piscas o olho à morte,
Repara no que outros fazem
Com metade da tua sorte,
Com um terço do que assumes ser bem.
Tu que te fias no azevinho por anos,
Vai à rua e faz por amar,
Faz por seres feliz e cantar,
A neve cai lá fora e tu podes sonhar.
Um Feliz Natal para todos!!!
Se a época é para te aquecer o coração,
Se te enfartas e já estás farto
Olha para o lado e estende a mão.
Tu que te queixas da vida,
Tu que piscas o olho à morte,
Repara no que outros fazem
Com metade da tua sorte,
Com um terço do que assumes ser bem.
Tu que te fias no azevinho por anos,
Vai à rua e faz por amar,
Faz por seres feliz e cantar,
A neve cai lá fora e tu podes sonhar.
Um Feliz Natal para todos!!!
domingo, 22 de dezembro de 2013
Uma Mão Cheia de Nada
O Zero era um número muito triste. Nunca tinha tido amigos e todos o tratavam de forma diferente. Afinal, enquanto que o universo dos números se regia por quantidades, ele não tinha qualquer valor. Havia números mais positivos, outros havia que eram capazes de viver a vida de uma forma mais negativa, mas ao Zero ninguém dava atenção e companhia. Tinha havido aquela vez em que ele tentara travar amizade com o Menos Um, que andava sempre cabisbaixo por não encontrar a raiz dos seus problemas. Nos primeiros tempos as coisas correram bem, mas cedo este último se fartou de tentar compreender o Zero e arranjou um amigo imaginário.
Como tal o Zero questionava-se com frequência. "Que estou eu aqui a fazer? Não sirvo para nada! As pessoas não precisam de mim para falar de quantidades! Quando alguém quer falar de mim, eu estar ou não estar é exactamente a mesma coisa! A minha vida é miserável..."
Não o podiam acusar de não tentar. Um dia o Zero tentou somar-se ao Dois, mas aquele número ficou exactamente na mesma, o Zero não acrescentava nada à sua existência. Logo a seguir o Zero tentou subtrair-se, mas o resultado mantinha-se: os números não sentiam nada de diferente, nem uma leve comichão. Estar ou lá estar um certo algarismo de aspecto ovalado e simplista não fazia a mínima diferença.
Ele tentou dividir-se por alguns números, mas aí era ele que se mantinha igual; a situação não parecia melhorar. Tentou o recíproco, mas os outros números não aceitavam dividir-se por ele, diziam que o Zero como denominador era "um zero à esquerda". Depois lá está, à esquerda das vírgulas representava algo pequeno a que poucos ligavam, menor que uma unidade; já à direita da vírgula era completamente desprezado. Pobre Zero, não tinha sorte nenhuma!
Em última instância tentou algo com que sempre sonhara, tentou arranjar alguém com quem se multiplicar. E aí as coisas correram novamente mal. Foi nesta altura que o Zero percebeu que se sentia completamente inútil, pois não havia um único número que se queria multiplicar com ele. Todos argumentavam que se o fizessem ficariam também reduzidos a nada e as suas vidas tornar-se-iam igualmente miseráveis, sem nada a acrescentar ou retirar a uma tabuada ou a um caderno de Matemática.
Porque é que tinha de ser ele a representar a ausência? Porque é que tinha de ser ele a estar destinado à solidão? Era tão mais fácil ser como o Um, o Ministro da Numeração e Representante Oficial da Unidade, ou então o Oito, o Número da Criatividade, que quando se deitava para sonhar tornava-se infinito... Numa eternidade de números, porque tinha ele de ser aquele que não tinha qualquer interesse para ninguém? E ainda se sentia pior quando olhava para o Cem, o Mil, o Milhão ou até o Googol, números cheios de zeros mas de enorme valor para o Mundo da Numeração e para a sociedade em geral, em particular para os raptores dos filmes, fãs de números redondos e chorudos; e a única diferença que havia entre eles e o Zero era que eles ali à frente de uma infinidade de nadas tinham um singelo "1", e só isso é que os tornava tão diferentes... Aliás, depois de se ter um qualquer algarismo à frente, o Zero via outros semelhantes a si ganharem uma importância invejável, tornando o número de que faziam parte gigantesco e imponente.
Todas estas coisas colocaram o Zero no meio de uma enorme depressão, no meio de uma enorme dor. Era preciso parar aquela dor, era preciso acabar com aquele sofrimento. O Zero decidiu naquele momento que se ia apagar de todos os livros e computadores da Terra, e assim não mais precisava de suportar uma vida em que não era importante para ninguém.
Ora, isto criou-lhe mais um problema. Por muito que ele gastasse todas as borrachas existentes e queimasse os livros que pudesse, não se conseguia eliminar, porque iam surgindo sempre novos livros. O Zero não era apenas um grafismo representativo do nada, era um conceito que vivia nas mentes das pessoas. E como os conceitos são eternos, cedo o pobre Zero concluiu que se encontrava destinado a passar a eternidade com a horrível sensação da inutilidade da sua vida. Pior do que ser nada, pior do que a dor que não passava, era o sentimento de impotência para mudar o destino que fazia com que este algarismo perdesse toda a alegria de viver. Não havia uma única acção a tomar, não havia possibilidade de mudar o rumo da história, e o Zero passa agora pela provação de sobreviver a gerações consecutivas sem ser notado.
Mas há algo que nunca ninguém disse ao Zero...
Todos os gráficos precisavam de uma origem, e essa origem era o zero. O universo formou-se no princípio de tudo, no segundo zero do minuto zero da hora zero do ano zero. Todas as músicas bonitas começam aos zero segundos. A água congela a partir dos zero graus. A fórmula resolvente para equações do segundo grau exigia que estas fossem iguais a zero. O império romano não sobreviveu ao tempo e não usava o zero. Já a numeração árabe foi a primeira a incluir o zero e eram eles os mais avançados na História em termos de medicina e ciência, enquanto na Idade Média a Europa era retrógrada. Na infinidade do Espaço a gravidade era zero. Sem o Zero e a sua relativa menor importância, todos os outros números tornar-se-iam menos importantes também, por comparação.
Tudo isto fazia do Zero um número único e muito especial. E ele desconhecia-o, tudo porque não existiu quem lhe apontasse os méritos, porque estavam todos muito preocupados em mostrar que eram números mais interessantes que um pequeno algarismo que representava uma panóplia de sinónimos como nada, nulo, ausência, falta ou vácuo.
No fundo, Zero.
Em última instância tentou algo com que sempre sonhara, tentou arranjar alguém com quem se multiplicar. E aí as coisas correram novamente mal. Foi nesta altura que o Zero percebeu que se sentia completamente inútil, pois não havia um único número que se queria multiplicar com ele. Todos argumentavam que se o fizessem ficariam também reduzidos a nada e as suas vidas tornar-se-iam igualmente miseráveis, sem nada a acrescentar ou retirar a uma tabuada ou a um caderno de Matemática.
Porque é que tinha de ser ele a representar a ausência? Porque é que tinha de ser ele a estar destinado à solidão? Era tão mais fácil ser como o Um, o Ministro da Numeração e Representante Oficial da Unidade, ou então o Oito, o Número da Criatividade, que quando se deitava para sonhar tornava-se infinito... Numa eternidade de números, porque tinha ele de ser aquele que não tinha qualquer interesse para ninguém? E ainda se sentia pior quando olhava para o Cem, o Mil, o Milhão ou até o Googol, números cheios de zeros mas de enorme valor para o Mundo da Numeração e para a sociedade em geral, em particular para os raptores dos filmes, fãs de números redondos e chorudos; e a única diferença que havia entre eles e o Zero era que eles ali à frente de uma infinidade de nadas tinham um singelo "1", e só isso é que os tornava tão diferentes... Aliás, depois de se ter um qualquer algarismo à frente, o Zero via outros semelhantes a si ganharem uma importância invejável, tornando o número de que faziam parte gigantesco e imponente.
Todas estas coisas colocaram o Zero no meio de uma enorme depressão, no meio de uma enorme dor. Era preciso parar aquela dor, era preciso acabar com aquele sofrimento. O Zero decidiu naquele momento que se ia apagar de todos os livros e computadores da Terra, e assim não mais precisava de suportar uma vida em que não era importante para ninguém.
Ora, isto criou-lhe mais um problema. Por muito que ele gastasse todas as borrachas existentes e queimasse os livros que pudesse, não se conseguia eliminar, porque iam surgindo sempre novos livros. O Zero não era apenas um grafismo representativo do nada, era um conceito que vivia nas mentes das pessoas. E como os conceitos são eternos, cedo o pobre Zero concluiu que se encontrava destinado a passar a eternidade com a horrível sensação da inutilidade da sua vida. Pior do que ser nada, pior do que a dor que não passava, era o sentimento de impotência para mudar o destino que fazia com que este algarismo perdesse toda a alegria de viver. Não havia uma única acção a tomar, não havia possibilidade de mudar o rumo da história, e o Zero passa agora pela provação de sobreviver a gerações consecutivas sem ser notado.
Mas há algo que nunca ninguém disse ao Zero...
Todos os gráficos precisavam de uma origem, e essa origem era o zero. O universo formou-se no princípio de tudo, no segundo zero do minuto zero da hora zero do ano zero. Todas as músicas bonitas começam aos zero segundos. A água congela a partir dos zero graus. A fórmula resolvente para equações do segundo grau exigia que estas fossem iguais a zero. O império romano não sobreviveu ao tempo e não usava o zero. Já a numeração árabe foi a primeira a incluir o zero e eram eles os mais avançados na História em termos de medicina e ciência, enquanto na Idade Média a Europa era retrógrada. Na infinidade do Espaço a gravidade era zero. Sem o Zero e a sua relativa menor importância, todos os outros números tornar-se-iam menos importantes também, por comparação.
Tudo isto fazia do Zero um número único e muito especial. E ele desconhecia-o, tudo porque não existiu quem lhe apontasse os méritos, porque estavam todos muito preocupados em mostrar que eram números mais interessantes que um pequeno algarismo que representava uma panóplia de sinónimos como nada, nulo, ausência, falta ou vácuo.
No fundo, Zero.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Cru
O bebé acabou de abrir os olhos.
Não sabe o que o rodeia.
Chora para dormir e comer.
Ainda agora acabou de nascer.
O bebé já diz as primeiras palavras.
Já conhece as pessoas e o amor.
Chora quando tem alguma dor.
Ainda não sabe se quer crescer.
O bebé foi para o infantário.
Faz amigos e sonha muito com o que o Mundo pode trazer.
Queria entrar num conto de fadas.
Pensa no que quer ser quando crescer.
O bebé já está na escola.
Acha que os adultos não confiam em si.
Brinca às escondidas e não pára de correr.
Quer cada vez mais crescer.
Mas o bebé agora já não abre os olhos,
Já não chora por coisa alguma,
Já não sente qualquer dor,
Já não brinca com os amigos,
Já não sabe o que é o amor,
Já não sonha com contos antigos,
Já não reflecte sobre o mundo dos adultos,
Já não vai à escola,
Já parou de correr.
O bebé não vai chegar a crescer.
Não sabe o que o rodeia.
Chora para dormir e comer.
Ainda agora acabou de nascer.
O bebé já diz as primeiras palavras.
Já conhece as pessoas e o amor.
Chora quando tem alguma dor.
Ainda não sabe se quer crescer.
O bebé foi para o infantário.
Faz amigos e sonha muito com o que o Mundo pode trazer.
Queria entrar num conto de fadas.
Pensa no que quer ser quando crescer.
O bebé já está na escola.
Acha que os adultos não confiam em si.
Brinca às escondidas e não pára de correr.
Quer cada vez mais crescer.
Mas o bebé agora já não abre os olhos,
Já não chora por coisa alguma,
Já não sente qualquer dor,
Já não brinca com os amigos,
Já não sabe o que é o amor,
Já não sonha com contos antigos,
Já não reflecte sobre o mundo dos adultos,
Já não vai à escola,
Já parou de correr.
O bebé não vai chegar a crescer.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Biblioteca Sabática #13
E desta vez, uma obra que até à data ainda não se encontra traduzida para português mas que me diz muito.
Stephen Chbosky (Pittsburgh, 25 de Janeiro de 1970) é um romancista, argumentista e realizador americano. Apesar de não ter grande quantidade de obras de relevo reconhecidas pelo público, foi co-autor e argumentista da série televisiva Jericho, e entes disso arranjou tempo para escrever um livro brilhante, no qual posteriormente baseou um filme (que acabou por ser o meu favorito de 2012).
The Perks Of Being A Wallflower foi escrito em 1999, tendo a oportunidade de se transformar num filme 13 anos depois. Passa-se no início dos anos 90 e conta a história de Charlie, um rapaz escritor tímido e que passa facilmente despercebido onde quer que vá, prestes a iniciar o seu primeiro ano de Secundário. Na forma de cartas com destinatário desconhecido, Charlie vai relatando na primeira pessoa as ocorrências da sua vida: a forma pouco convencional de ver o Mundo e de lidar com as escolhas, a Amizade com Patrick (um rapaz expansivo e extrovertido que se vê obrigado a esconder a sua homossexualidade) e Sam (a meia-irmã de Patrick) e as descobertas proporcionadas pelo Amor.
Um livro que Chbosky assumiu ser em parte autobiográfico, mas que me parece ser universalmente biográfico. Já todos fomos ou somos Charlies, Pattricks, Sams e outros tantos seres que se sentem únicos no Mundo, mas sentiram que toda essa diferença que tinham os fazia sentir que estavam sós, que não tinham quem os compreendesse. É quando descobrimos pessoas estranhas como nós, pessoas que recusam ceder às pressões da sociedade e ao que é politicamente correcto, que nos faz sentir livres e compreendidos, parte de uma simbiose perfeita na qual o destino nos coloca.
Quem somos? O que fazemos? Será que temos direito a sermos especiais? Qual é a razão da nossa existência? Faz sentido amarmos e sermos amados? Faz sentido esperarmos sermos recompensados por lutarmos, ou será que tudo o que nos acontece está programado? Será que temos todos talentos únicos? Será que devemos apresentar os nossos talentos à luz do dia e suarmos para que eles se revelem um bem maior? Porque nos sentimos sozinhos? Porque temos necessidade de fazer com que os outros nos aceitem? Porque é que temos medo de acabar sem ninguém a chorar por nós, sem alguém que ache que a nossa vida teve importância? Merecemos ser felizes? São estas e muitas outras perguntas que The Perks Of Being A Wallflower nos coloca desde a primeira à última palavra. Umas são respondidas, outras não. Mas não é algo que dependa do livro e sim do leitor, pois nós somos moldados pelas nossas acções enquanto seres humanos e portanto vamos ler nas entrelinhas que quisermos, e retirar a beleza que pretendermos de uma obra única. Fica uma só certeza: estas páginas não dão lugar à indiferença. Neste livro, o fim é apenas o início.
Boas Leituras!
P.S.: Preguiçosos, não se limitem a ver o filme (apesar de também o aconselhar vivamente). Não se vão arrepender.
Quem somos? O que fazemos? Será que temos direito a sermos especiais? Qual é a razão da nossa existência? Faz sentido amarmos e sermos amados? Faz sentido esperarmos sermos recompensados por lutarmos, ou será que tudo o que nos acontece está programado? Será que temos todos talentos únicos? Será que devemos apresentar os nossos talentos à luz do dia e suarmos para que eles se revelem um bem maior? Porque nos sentimos sozinhos? Porque temos necessidade de fazer com que os outros nos aceitem? Porque é que temos medo de acabar sem ninguém a chorar por nós, sem alguém que ache que a nossa vida teve importância? Merecemos ser felizes? São estas e muitas outras perguntas que The Perks Of Being A Wallflower nos coloca desde a primeira à última palavra. Umas são respondidas, outras não. Mas não é algo que dependa do livro e sim do leitor, pois nós somos moldados pelas nossas acções enquanto seres humanos e portanto vamos ler nas entrelinhas que quisermos, e retirar a beleza que pretendermos de uma obra única. Fica uma só certeza: estas páginas não dão lugar à indiferença. Neste livro, o fim é apenas o início.
Boas Leituras!
P.S.: Preguiçosos, não se limitem a ver o filme (apesar de também o aconselhar vivamente). Não se vão arrepender.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Viagem pelos Caminhos da Mente: Volume 7
Corro sem parar, corro sem fôlego até que os sapatos fiquem sem nada mais do que a minha pele por baixo. Vi-me neste labirinto sem saber porquê nem como, e agora só sei que me resta correr. Não sei para onde vou, não sei de onde vim, mas vislumbro por entre a densidade da vida uma réstia de luz, e é para lá que caminho, é para lá que quero caminhar, é lá que quero estar.
Olho para a curva diante de mim e penso no que aí virá. Pode ser um fim ou princípio, pode ser um precipício ou pior ainda, outra curva igual. De que serve correr se a sensação é a de que não saímos do lugar?
Doem-me os pés e o coração, acho que me estou a cansar de correr sem direcção. Talvez fosse melhor voltar para trás, abdicar do que aí vem em favor do que o destino já me garantiu… Mas quando olho para trás, constato que o solo que piso se desmorona no vazio no mesmo instante. Já não é opção voltar para trás, já não é válido sequer parar. Resta correr em direcção ao Sol, confiar no desconhecido e passar a conhecer o infinito. Lá, no sítio onde moram os sonhos.
Subscrever:
Comentários (Atom)

