domingo, 30 de novembro de 2014

Alva

Cair-lhe água do rosto tornou-se trivial,
Com o Mundo do avesso
Esqueceu-se de que era especial,
Abriu as portas e abraçou a Dor,
Trancou-se de seguida sem mais nada em seu redor.
Mandou o Amor de viagem com bilhete só de ida
E escondeu-se como se não houvesse outra saída,
Mas a Dor sussurrou-lhe para que só ela escutasse
Que apenas visitava quem a si aguentasse:
Do coração fraco apenas restavam pedaços
Mas o dela, pequenino, resistia aos fracassos
Desta vida, da outra e da que estivesse para vir,
Encolhida no seu cantinho nada mais a podia ferir.
Bastava encontrar a luz e esperar o que viesse a seguir
E cedo se recordaria do seu destino e voltaria à estrada,
Porque perder-se no caminho fazia parte da jornada.

domingo, 23 de novembro de 2014

Oblívio

Hoje veio tão cedo
E eu não estava preparado,
Perdido nos meus planos para Amanhã,
Com Ontem recém-chegado
A inspirar o aroma do medo,
Dando o tempo como contado,
Contando-o como se tivesse acabado.
Nada permaneceu enquanto eu permaneci
E agora que tento mudar
Tudo foge de mim:
O chão debaixo dos meus pés,
O sal das marés,
As flores do jardim.
Tarde era quando achei ser possível,
Agora é apenas irrealidade;
Da minha revolução não brilha o sol
Nem urge tempestade.
Fui absorvido pela vontade
Que já não posso ter,
Pois o desejo agora é nada
E nada é o meu morrer,
E na despedida de mim e daquilo
Que quis pela manhã,
Lembro-me que todo o Ontem já foi um Amanhã.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Pensamento #9

A beleza e a fatalidade do Amor residem no facto de nada ser garantido e tudo poder acontecer.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Pensamento #8

Um poema não é mais do que um shot literário. Uma história concentrada contada em poucas palavras, mas que quando consumida nos embriaga por completo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Tetris

Nesta montanha-russa
Onde a falta de monotonia impera
Perde-se o Homem na sua essência de fera.
Com peças distintas numa infinidade de variáveis,
Difícil é manter o sucesso.
Há uma lei de aleatoriedades notáveis,
A pressão faz cair o nexo,
A carne é fraca e deixa-se viciar
Por uma força que tanto se eleva como baixa.
O Mundo anda de pernas para o ar
Mas no fim tudo se encaixa.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

q.b.

Louvo e abomino a tragédia
De sentir tanto de tão pouco,
De gritar até ficar rouco
Se nem no copo de água há tempestade.

Gravo na carne um sopro do vento,
Clamo pelo recuar da idade,
Nem sei porque tento
Se morro com a verdade.

O fim está perto
Ainda que coberto,
Despeço-me deste veneno.

Afinal sempre soube:
A Vida é tão grande
E eu tão pequeno.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Mudo

Tens de fazer muita merda,
Mas que envolva mais alguém,
Que a merda é de quem a herda.
Dorme de luz acesa
E deixa a conta abandonada,
Esconde-te debaixo da mesa
E oculta a respiração cansada
E come a sobremesa sem usar uma colher.
Abraça a tristeza
E arranja uma linda mulher
Só para estragares tudo a seguir,
E olha que o agora já vem tarde;
Impede-te de rir
E se puderes, os outros também
Cria vidas miseráveis, poucas serão cem;
Segura-te para não tentares subir
E sê um filho da mãe
Deprimido e nojento e descrente,
De quem todos tenham pena
Mas ninguém aguente.
Mantém-te só contigo mesmo,
Que se te enganas podem tentar fazer-te feliz;
Entra numa luta de tasca
E parte um nariz
E que de preferência não seja o teu,
Apropria-te do mais adequado linguajar rasco
Que soe a teu,
Que provoque asco
Suficiente para que te considerem demente
Ou que "pessoa" passe a ser uma hipérbole usada para te descrever.
Basicamente, vive uma vida miserável
E corta com tudo o que é razoável,
Mantém o tom até a Morte te rasgar devagarinho
E assim fará sentido quando partires sozinho.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Aquilo Que Fazes

Onde parece existir nada
O espaço é teu de direito,
Subiste tudo no teu leito;
O final já está escrito:
Perdes-te em ti,
Ganhaste o passado
Tão efémera de espírito,
Em tempos foste futuro,
Não passas agora de pecado.
Não voltas a nada,
Um onde ou um quem,
Não és nada para além de tudo
Só que nem teu nem de ninguém.
Selvagem nessa tua dança,
Hoje vais à caça
De ser criança
Inocente numa carcaça;
Voltaste à vida
Num minuto desperto
E voaste num mero segundo.
Como o acaso se desajeita
E o infinito passou tão perto,
Com todos os teus defeitos
És mais do que perfeita.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A ti, Leitora

Tu, que lês, és especial. Não vês só o que há em casa ou na rua, mas também o vento e o cheiro de uma nova manhã. És tu, querendo ser mais, mas não és quem não és.
Tu, que lês, és aventura. És acção prestes a realizar, sonho saído do sonhar. És desejo com crença, e crença com vontade. Sabes que o comprimento do braço não te impede de alcançar o que queiras, pois a distância é um termo relativo.
Tu, que lês, viajas. Num comboio, num avião ou num banco de jardim, nunca páras de (te) conhecer. Tudo é novo, inclusive o velho. Nada é vazio de significado, porque senão simplesmente não existia. E como o sentir é sentido! É fácil desenhares na mente o que ninguém escreveu na boca, como se subentendida fosse a palavra menos oca.
És tão igual a tantos e tão diferente dos demais. Estás tão só que a empatia é efeito secundário, e o fascínio de encontrar outra alma como a tua te afasta mais do que é ser compreendido. Mas é o que te deixa resiliente, o que te faz pegar em mais um livro e aspirar com sofreguidão o impacto da cafeína a percorrer-te cada veia. Sabes tanto e tão pouco que quando te distrais a tua força provoca uma reacção, e é muito semelhante a velocidade com que impressionas e desiludes.
Tu, que lês, és muito. E esse é o teu problema. Repara, depois de tantas letras bebidas o chão começa a ficar longe. Desejar é agora nada; o que tu queres é ser e fazer e provar e sentir. No fundo, cada centímetro da tua carne vibra por descobrir. Para ti, que lês, tenho apenas palavras. Eu, que escrevo, sou pouco mais do que grafismos e metáforas: a caneta é que vive, porque é dela a coragem, e eu não passo da extensão que lhe permite tal proeza.
Tu, que lês, caminhas para a próxima fase. Deixaste há muito de ser só quem lê e vais-te lentamente e com segurança tornando personagem narradora. Os livros foram manuais de instruções, mas tu já sabes comandar. Eu, naquilo a que chamas agora realidade, sou um mero ignorante. Os meus conhecimentos de Geografia resumem-se aos universos utópicos.
Eu pertenço ao Mundo, enquanto ele te pertence a ti. É por isso que, apesar de eu estar nas tuas mãos há tanto tempo, as minhas serão sempre demasiado pequenas para te agarrar.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Se

Estás aí?
Queria que me ouvisses
E adormecesses
E assutasses
E vivesses
E enternecesses
E alimentasses
E chorasses
E lesses
E jurasses
E chateasses
E bebesses
E quisesses.
Resumindo,
Gostava que estivesses.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Rascunho

Vou existindo
De pé no limbo
De semblante carregado
Ou sorrindo,
Sabendo-me estragado.
Enviam-me nesta cilada
Para sítio de nada
Onde o eterno acaba
E o ar é amargo,
Onde o mel do breu
Foi sorvido num Mundo
Que não é meu.
Tragam-me a escuridão,
Já que a luz é intriga
No que ludibria a visão,
Um gesto triste e assertivo.
Quero ser pouco
Na camuflagem da noite,
Quero estar só
E um futuro abrasivo,
Porque de dia sobrevivo
E é à que noite vivo.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Vozes

Tenho vozes dentro de mim.
Sins e nãos agregados
Para me desagregar
Naquilo a que chamo fim.
(AHHHHHHHHH!!!)
Gritos e desesperos
Mais altos do que a voz da razão!
PAREM! PAREM!
Já me sinto a cair, estou tão perto do chão!
Não há nada, não surge nada,
Tudo foge!

Por isso vem a calma, resignada;
Voar ainda não é permitido
E a realidade não é alada.
Ciência, gravidade
E outras forças que me empurram
Para baixo no vazio.
Não há nada, não há nada
Senão o peso do Mundo.
Deu-se o mergulho profundo
Num mar imenso.
E agora, o silêncio...

terça-feira, 17 de junho de 2014

Brinquedo

Esta história não sei onde vai,
Se este herói triunfa ou cai,
É melhor levantar-me para ver a acção
Se está alguém a lutar ou preciso de entrar
Para ajudar a escrever esta canção.

Sou a marioneta a quem puxam os fios errados,
Se me deixam na rua parto-me em bocados,
Se me fazem real então poderei ser
Uma esperança que cresce
Até tudo morrer.

Bebo a tinta da minha caneta com sofreguidão,
Enclausurado no livro sem saber a razão
Para me custar respirar quando olho para ti,
Quando me calço e divago sem qualquer direcção
Gosto de saber que tenho lugar aí.

domingo, 15 de junho de 2014

Essência

Como é inestimável
Quem me deixa tão doente,
Doença tão saudável,
Física ou da mente
De que sofre quem não a sente;
Tendo na pena uma casa
E na palavra cidade
De tantas ideias originais,
Únicas na multiplicidade
E inspirando quem expira
Sendo um entre os demais
E vítima de falsos doutos;
Essencialmente incomum,
Diferente de si e dos outros.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Dual

Há dois tipos de atitudes:
As certas e as memoráveis.

Há dois tipos de caminhos:
Os conhecidos e os da felicidade.

Há dois tipos de pessoas:
As que morrem precocemente e as que nunca param de sonhar.

Há dois tipos de momentos na minha vida:
Aqueles que passo contigo e aqueles em que estou à tua espera.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Memor

É Família
E é sonho,
É pedaço de memória,
Futuro risonho,
Página de história
Em tela amarga,
Horas de conversa
Num telemóvel
Sem carga;
É amor despido
De efemeridade,
É calor guardado
No baú da idade;
É sim, é não,
É um sopro no coração,
É mais do que um abrigo
A que gentilmente
Se chama "Amigo".

domingo, 18 de maio de 2014

Natura

Capa esconde
No livro a utopia
De ser história
Que personagem narra,
Ser livre é sabedoria
Que um louco agarra;
Fogem as letras das palavras
Que és por dentro,
A aventura é apêndice
Do que do certo foi centro,
E páginas depois
Tudo culminou
Num final que não finda
Porque a terra despertou
E as flores deram à Primavera
A fotografia despida
Da Quimera que rouba
A Natureza caída,
O simples e belo
São génio ou rotina,
O primeiro teu cabelo
Num segundo de vida,
Numa cultura de cultura
Inspirada a toda a brida.

sábado, 10 de maio de 2014

Ponte

O início e o fim
Fazem uma ponte:
O primeiro é a fonte
E ao outro digo sim,
Partindo em busca
De escrever história
Que outro conte.

Parto sem saber nada:
O perder do labirinto,
O subir da escada
Ou a monotonia do andar,
Que me adormece até acordar
Gigante escondido
No abismo;
Aliás, no vazio,
Porque em última instância
Olho até a queda
Para lhe encontrar substância.

Construo então tabuleiro
De xadrez
Para me mover feito peão,
Lento e curto no desejo,
De canção limitada
E história contada
Se é raro chegar ao que vejo.

E se o olhar não passa senão ideia
Para que o corpo se desamorfe
E seja a jornada odisseia?
E se a ponte não é passagem
Mas descaminho
E atalho para esse fim
Da tortura e vassalagem?

Do alto da ponte
Não se vê,
Mas o salto encerra
A mensagem na garrafa
E a imensidão do mar
E a vontade de nadar
E o sorriso do nunca visto
E o baú do tesouro
Que é ter tudo isto
E ser mais rico do que o ouro.
É afundar sem afogar.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

quinta-feira, 10 de abril de 2014

inDesejo

Era uma vez um Desejo.
Um dia, cansado de não contribuir para um Mundo melhor, o Desejo decidiu conceder-se a Ele.
Sem hesitar, Ele pediu para ser colocado no centro do local mais belo da Terra, um local que Ele pudesse amar e admirar por toda a eternidade.
O Desejo colocou-O então no meio do campo mais vasta e densamente florido, onde reinava a beleza mais simples e simultaneamente etérea alguma vez vista.
No entanto, e apesar de o princípio se ter revelado frutífero, a magia cedo deu lugar ao desespero. Ele queria progredir, desenvolver aquela relação com aquele lugar que escolhera para viver até ao final dos seus dias, mas para onde quer que ele olhasse só havia flores, frágeis e delicadas flores. Virava-se ele para qualquer ponto e via-se impedido de andar, pois um único passo bastava para destruir um pouco daquele campo. E quantos mais passos desse, mais era a quantidade de flores que dizimaria no seu caminho. Ele encontrava-se então numa encruzilhada: ou apostava na sua própria liberdade e destruía aquilo que tinha de mais fascinante na vida, ou preservava aquele sítio sofrendo como consequência nunca mais se poder mover.
E Ele tomou a única decisão que podia tomar. Era impossível viver consigo próprio sabendo que tinha sido responsável pela deterioração daquilo que Ele considerava puro. Era algo que Ele não podia permitir, destruir algo perfeito, digno do seu amor. Como tal, amaldiçoando o dia em que pudera realizar um desejo, Ele ficou imóvel até ser pó, prisioneiro do seu próprio sonho.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

...

Fazes-me falta. É egoísta dizer isto, mas fazes-me mesmo muita falta.
Não sei se alguma vez te dei a entender a verdadeira importância que tinhas para mim. Agora é tarde, eu sei. É tarde para te mostrar o quanto gosto de ti, porque já não me podes ouvir.
Sinto-me hipócrita por continuar a ser assolado por estes pensamentos, porque tu agora não precisas que te façam sentir bem e te digam o quão importante sempre foste. Tu não precisas de nada disso, não precisas sequer de mim, eu é que preciso de ti neste momento e a forma mais discretamente egocêntrica de o mostrar é dizendo que queria mais oportunidades contigo.
Eras o meu escape deste violento Mundo dos Adultos. Por muito desanimado que eu estivesse, a tua presença era suficiente para me deixar a sorrir, mas mesmo assim tu sabias quando me animar, e nessa altura conseguias fazer-me sentir como se nada à minha volta merecesse a minha preocupação. E aí para te fazer a vontade todo o desafio era superado, desde sessões de karaoke de música comigo a cantar música pimba, as danças parvas que hoje fazem toda a gente rir-se de mim e que foram desenvolvidas contigo, as minhas sessões de imitação de vídeos de quedas ou as 200 visualizações do Shrek.
É ridículo que me esteja a sentir assim num dia que durante 10 anos me encheu de felicidade. Gostava de o conseguir evitar, mas não consigo. Continuo com a esperança ridícula de poder olhar-te nos olhos e ver o teu sorriso inocente e cheio de vida, mas o mais perto que consigo estar de ti e de te ver hoje é através de um bloco de pedra polida. E onde havia amor há agora raiva, e onde havia felicidade há agora escuridão. E onde havia uma enormidade de sonhos a cumprir por ti existe agora apenas incapacidade e resignação.
É egoísta e injusto dizer que a culpa é tua por eu não ser neste momento nada do que aquilo que já fui e podia ser. Não é que sejas a responsável por sentir tantas coisas más, mas és a responsável por não conseguir sentir nada de bom. E eu só queria que me olhasses nos olhos e me fizesses sentir que consigo tudo, porque neste momento não consigo. E irrita-me que seja tão fraco para fazer de alguém tão especial um post de blog igual aos outros; tu merecias um blog só para ti, ou até um livro.
Fazes-me falta.

domingo, 6 de abril de 2014

Plágios

O Plágio é um conceito muito curioso. É normalmente algo que se atribui, com algum desprezo e condescendência, a escritores de terceira categoria mais preocupados com lucros do que com arte. Não é uma palavra comum, própria do quotidiano de um leigo, nem é sequer uma daquelas palavras que represente sequer um defeito com que a maioria das pessoas se identifique: não, um plagiador é uma figura quase mitológica, só aparece nas notícias ou é detectável por algum especialista nas redes sociais. Para todos os efeitos, o plágio praticamente não existe na vida real.

Tretas.

Vivemos num Mundo que é completamente rodeado e dependente do plágio. Uma "invenção" não é mais do que um melhoramento ou junção de algo já existente. Um CD é um vinil mais pequeno e digital, um refrigerante é água aromatizada e uma pastilha elástica é só um pedaço de plasticina comestível.
Desde tenra idade somos confrontados com uma educação em nada original. Numa vida em que há pavor pelo que é estranho, somos obrigados a assimilar rapidamente as regras que a sociedade criou para evitar surpresas e aprendemos na escola, não a pensar, mas a decorar o que outros descobriram.
Aqueles que não se sentem encaixados neste Mundo são um tipo mais ingénuo de plagiador. Passam a vida a dizer "ninguém me compreende", "eu sou especial", "eu sou único". Não é estranho que haja assim tanta gente a sentir-se da mesma forma? Não percebem que é uma pista? Vocês não sabem é relacionar-se com os outros, e consequentemente vai ser difícil que conheçam pessoas como vocês, com esse mesmo problema. Mas elas existem, o que significa que a ironia de acharmos que somos especiais faz de nós pessoas absolutamente comuns, simples ladrões de ideias.
Já a sociedade é, per se, tanto hipócrita como amedrontada pelo conceito de plágio. A Segunda Guerra Mundial terá desempenhado, nesse sentido, um papel muito importante no comportamento geral actual. Depois das atrocidades cometidas por um ser humano (?) que pretendia criar uma raça em que as pessoas fossem todas o mais iguais possível (Hitler, seu plagiador!), a sociedade tem tentado compensar as minorias de forma exagerada e descompensada, através de campanhas de sensibilização que visam dizer o quê? Que europeus, asiáticos, africanos, etc, somos todos iguais (oh, a ironia...). É algo natural e esperado; afinal, depois de um acto terrorista é quando as pessoas prestam mais atenção à maldade no Mundo e à falta de segurança que as rodeia. O ridículo aqui é o dinheiro que se gasta em publicidade e que poderia ser usado para comprar roupas, comida ou vacinas para algumas dessas pessoas "iguais a nós" e que se encontram em necessidade. Não, o que interessa é mostrar o sucesso aquele senhor indiano fez na Medicina, ou como aquele senhor africano é um atleta de excelência, para mostrar que afinal eles são tão bons como nós.
Pessoalmente, percebo pouco de Medicina e por atleta de excelência também não passo, o que significa que estas pessoas até serão melhores do que eu, mas claro que a hipocrisia aqui está no facto de nos ser implantada a ideia de que o facto de eu ser branco e europeu me coloca à partida em pé de igualdade com um génio nascido num país de Terceiro Mundo. A tentativa aqui de mostrar as qualidades de outras culturas esbarra no egoísmo e narcisismo do Mundo Moderno, e o esforço de apelar à ideia de "igualdade" é simplesmente mais uma forma de mostrar a inferioridade dos outros. Uma espécie de bullying às minorias, mas de uma forma tão sublimemente acutilante e discreta que tanto o senhor Adolf como o senhor Ary dos Santos ficariam (por motivos diferentes) orgulhosos.
Por falar em bullying às minorias, o plágio está tão incorporado na História que se criou uma expressão que refere que ela "se repete" e ainda houve quem inventasse termos como "déjà vu" ou "coincidência". Isto porque "plágio" é uma coisa horrível, claro, e quem é que não aprecia um bom eufemismo?
Também plagiamos no Amor. Temos normalmente a vontade de amar alguém que nos compreenda, que se assemelhe a nós, que tenha gostos idênticos aos nossos, mas aquele medo terrível que a sociedade tem do plágio e das descriminações fez com que começasse a circular o mito de que os opostos se atraem. A "cara-metade" deixou de ser alguém que nos entende para ser alguém que nos complementa. Se eu não quiser ser louco e passar o tempo todo a praticar desportos radicais não posso, porque a minha "cara-metade" tem que ser passada da cabeça. Tem lógica? Não. No entanto, gostava de ver isto implementado nos Estados Unidos, só para assistir a constantes tentativas de acasalamento entre Democratas e Republicanos. Gosto de ver séries como Game Of Thrones, portanto acho que para os padrões da realidade até era capaz de gerar uma quantidade de sangue engraçada.
Vamos pôr os pontos nos is: o plágio não tem resolução. Atente-se neste texto: ou eu admito que sou especial e que nunca ninguém na vida resolveu escrever acerca do plágio e estarei a plagiar aquela quota de pessoas que se acham únicas (o que parece provável a avaliar pelos cerca de 1.040.000 resultados que o Google obteve para a palavra referida), ou então aceito que estou a fazer aquilo que uma ou mais pessoas já se lembraram de fazer, e que no fim de contas não tenho assim tanta importância nem criatividade (outro conceito bem dúbio). No entanto, e como a sociedade se esconde atrás de dogmas estúpidos e crenças ilusórias, a aceitação de que não somos aquilo que pretendíamos mas sim derivações daquilo que outros já foram é, por mais paradoxal que pareça, a melhor forma de mostrarmos ao Mundo que somos diferentes.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Mente

Mente mente demente,
Não tens salvação possível,
És miragem do que eras
E o chão que pisas é sensível.

Mente mente demente,
O limbo é o teu lar
Haja quem não o sente
E te venha salvar.

Ouves o silêncio?
É ausência de solução,
Afinal não és diferente,

Estás quebrado,
Irremediavelmente;
Por isso mente, mente demente.

sábado, 29 de março de 2014

Revolvido

Pode ser uma ideia,
O vento que rapta areia,
A revolta do mar,
Feito fera difícil de domar
Ou o calor abafado de uma trovoada
A contrastar com a chuva gelada;
É o avançar da idade
E a dor da saudade,
A descrença da mente
Deixada ir na corrente
Quando o nada surge
Onde outrora havia tudo,
Onde o som é grave
E o grito mudo;
A letra de uma canção
E a melodia do meu coração:
São coisas que se movem num turbilhão.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Apalavrado

"No Princípio era o Verbo", era o que a Bíblia dizia. E não era a única. Também ele dizia isso.

Ele olhava para o Verbo da forma mais perdida que é possível a um apaixonado olhar. Era a palavra mais bonita que ele tinha visto. Pro-activo e empreendedor, aquele Verbo era acção na sua essência e despertava a harmonia num Mundo que precisava de e ter de fazer. Só por si o Verbo escrevia livros, mas também os lia; destruía destinos, mas também os consertava; reduzia-se a nada, mas dele também criava tudo. Ela era a palavra perfeita, e sem ela as frases não faziam sentido.
Já ele era um Adjectivo com tudo aquilo a que os adjectivos têm direito: um sonhador incorrigível, um observador nato e acima de tudo era aquele que ficava sentado num canto enquanto tudo acontecia, analisava tudo mas não participava. E isso para ele era um problema, porque como era suposto um Verbo experimentado e aventureiro gostar de um Adjectivo aborrecido e descritivo? Enquanto se completava e embelezava uma frase mil coisas aconteciam. Acção e descrição não simplesmente combinavam, e essa certeza doía.
Não é que o Adjectivo fosse o vocábulo mais inútil e insípido da Gramática, porque não era. Tinha-se escapado a ser barulhento e espalhafatoso como uma Onomatopeia ou incrédulo e ingénuo como uma Interjeição, mas ainda assim era certo que ele estava destinado a ser um actor secundário, e os seus sonhos não eram mais do que meras miragens. Nem tudo dependia dele, e nesse sentido a única acusação que lhe podiam imputar era a de sonhar, não demasiado alto, mas talvez com aquilo que não devia.
E assim a capacidade ambígua para elogiar e criticar fez surgir a dupla personalidade daquele Adjectivo. Ele amava aquele Verbo mas sabia que não era suficiente, que não merecia ser feliz com uma palavra tão perfeita que até sozinha podia formar frases. Ele acima de tudo queria que aquela palavra tão bela fosse feliz, e se isso significasse a sua infelicidade seria o que ele faria.
Mas é um facto de que por vezes o Adjectivo se esquecia dos motivos da sua tomada de decisão, e deu por si a abrir o coração a outros termos como o seu amigo Advérbio, um poço de informação e utilidade que porém pouco acrescentava aos pensamentos do Adjectivo ou ainda a Conjunção, uma especialista em ligações de orações que lhe dizia para ser mais confiante e acreditar que era possível a uma palavra com tantos predicados como ele alcançar as metas mais difíceis. E quando a Conjunção lhe apresentava os seus argumentos o Adjectivo quase enterrava os seus medos, mas não tardava a lembrar-se. E se por acaso conseguisse conquistar o Verbo e mas não tivesse capacidade para o fazer prosperar? E se não tivesse habilitações reais para cuidar daquele Verbo e lhe mostrar que era a palavra mais importante da sua vida? Não se tratava apenas de fazer o Verbo infeliz, mas também uma forma de o destino lhe dizer que ele não merecia sorrir. E essas eram duas situações que o Adjectivo, mesmo considerando no fundo que era um cobarde, não podia suportar que acontecessem. No fim de contas ele não era nenhum Pronome Possessivo, para estar mais preocupado em possuir uma alma pura do que em trabalhar para que essa mesma alma tivesse um futuro especial, digno daquilo que representava.
Talvez se em vez de uma palavra complementar ele fosse um Pronome Pessoal ou um Determinante, aqueles que comandam, que iniciam orações e definem números e géneros, poderia dar-se o caso de ganhar confiança e essa confiança permitir-lhe olhar em frente decidido a não estragar e com a convicção de que era capaz de vencer qualquer obstáculo pelo Amor e por todas as metas que queria ultrapassar, mas ele sabia que era demasiado inconstante e pequeno para estar à altura do desafio. Entristecia-o, mas era a verdade.
E fez então da felicidade do Verbo a sua missão, e eventualmente o Verbo conheceu um Substantivo que o complementava, apesar de ser incrivelmente linear e directo. No entanto juntos formavam frases com sentido, apesar de curtas, e as conversas nunca acabavam em silêncios desconfortáveis, e viveram felizes até ao fim dos seus dias. O Adjectivo acabou de certa forma satisfeito, tinha pela primeira e última vez conseguido terminar algo a que se tinha proposto. E já não doía tanto.

sábado, 15 de março de 2014

Minimal

Não começo
Nem sou começo,
Não salto
Nem sou salto,
Não sonho
Nem sou sonho.
Não sei o que me deu:
O Futuro não é risonho,
Nem eu.

terça-feira, 11 de março de 2014

Escridor

Escrevo, escrevo
E não paro,
Faço comum
Movimento raro
Enquanto eu e a pena somos um.
Só desenho o que a alma me dá,
Foi embora a calma,
Resta a dor cá.
E aí não paro,
Luto em fúria com as palavras,
O linguajar caro,
Um chorrilho de mágoas.
Escrevo dor, é o que sou,
Pássaro que não voou,
Barco que se afundou nas águas.
Do infeliz é que reza a História
E dos amargurados
É que perdura a memória.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Doutor Divago: Parte 2

Deixem-me, de uma vez por todas. Juro que não vos percebo, dizem-se pessoas racionais mas dirigem-me a palavra. Não há nada de racional nisso.
Sou absolutamente maquiavélico, um ser que pouco tem de humano, que nada tem para oferecer a este Mundo para além de podridão e revolta. É assim tão difícil entender isso? Estou estragado e estagnado, não tenho cura e sou doença. Daquelas infecciosas, que se espalham sem se dar por isso, mas capazes de matar de forma tudo menos indolor. Sou peste que causa putrefacção na carne e na alma, a merda de um buraco negro que absorve matéria positivista, um Dementor que suga toda felicidade, que remove sonhos e os retalha à frente dos donos sem direito a Expecto Patronum que me arrase. Arrasado já eu estou.
Não façam de mim bom nem altruísta, não digam que me acho mau porque só lido com as agruras alheias. Sim, preocupo-me com vocês nas vossas fases mais desesperadas, mas a realidade é que me estou cagar para vocês. Percebam que eu tenho de me autodestruir mas não sem antes vos levar a todos comigo. É uma idiossincrasia minha e é algo que não posso mudar. Nem quero. Sim, estou interessado no que vos aconteceu de mal, mas só para me certificar de que não vos posso enterrar mais profundamente no Inferno, para que ardam até que nem memória de vocês reste. Quero que apodreçam todos, que desapareçam da minha vista o mais rapidamente possível. Continuam com a intenção de viver vidas felizes e de chegar ao fim com um sentimento estúpido de realização? Então afastem-se, JÁ! Corram e não olhem para trás, não tentem contactar-me e, sobretudo, desistam de me salvar. Não existe a metade que me falta, por mais que queiram.
Eu quero ficar sozinho.
Eu tenho de ficar sozinho.
Eu mereço ficar sozinho.
E aquele título ridículo lá em cima só me enche de ainda mais nojo. Doutor. Como se eu não fosse já demasiado ridículo para ainda atribuir a mim próprio títulos destes.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Doutor Divago

Desisto.
Desisto de mim, desisto de ti, desisto de todos os outros. Desisto de ser, de ter, de chegar, de estar. Desisto de sonhar. Desisto de lutar contra uma dor que me assola e aterroriza a cada passo, como se eu não tivesse o direito de ser feliz. E é isso, não tenho.
Estou farto de que me digam que mereço, mesmo sem saberem o quão nojento e deprimente sou por dentro. Estou farto dessa hipocrisia de que a sociedade está cheia, em que somos fotocópias de quem veio antes e decidiu os padrões daquilo que é aceitável. A diversidade é nociva aos olhos de todos, quem é diferente e o sente é um ser a mais no Mundo. É assim que me sinto.
Claro que normalmente não há quem o faça de forma deliberada, mas as pessoas tentam mudar-te à sua imagem. Dizem que gostam de ti mas estão ao mesmo tempo a tentar que te tornes numa pessoa que não és. Vão-te moldando lentamente, e como tu não tens uma personalidade vincada vais permitindo, aos poucos, que os outros se apoderem de ti. E vais lentamente definhando, sem que mais ninguém se aperceba a não ser tu. Enquanto que fazes dos outros pessoas mais felizes vais-te afogando num local sem água e morres dolorosamente, bocadinho a bocadinho, até que nada teu reste e não haja ninguém que repare e te salve.
O pior são as pessoas que acham que te conseguem ajudar, referindo um conjunto de palavras vazias que supostamente representam as tuas qualidades, sem perceberem que isso te deixa com mais raiva de ti. Se eu sou assim tão bom e tenho valor para todos, por que razão não me sinto amado ou acarinhado? Se sou alguém único com características que agradam à partida a todos os que me rodeiam, então qual é o motivo para nunca me sentir feliz? Porque é que me sinto tão miserável? Há tanto mal no Mundo que é recompensado, porque é que não pode chegar a minha vez? Só encontro uma resposta: porque não mereço. Torna-se então inútil toda a motivação inútil que me tentam impingir, como se as pessoas se achassem donas da verdade e conhecedoras de tudo; pensam então que o meu caso é simples e faço birra ou sou um simples caso clínico. Se calhar até sou, e acabo por me tornar um hipócrita egoísta por considerar que tenho de ser diferente de todos os infelizes que cá andam. É um facto adquirido que não me importava de ser um novo Pessoa. Não pela genialidade, mas porque morreu novo e as pessoas sentiram falta dele mais tarde. Era reconfortante saber isso, pelo menos.
Já pensei em morrer, juro que sim. Acabava com o sofrimento, acho eu. O problema é se fosse impedido de alguma forma pelo Destino ou por mão humana e me amarrassem a uma cama para me impedir de concluir o objectivo. Confesso que a coragem me falta quando sou assolado por tais pensamentos.
O melhor nem era morrer. Isso não mudava o Mundo nem ninguém. Não, não quero morrer. Quero é que todos os outros morram! Morram todos, parem de me chatear, parem de me atormentar, parem de me fazer sentir como se nunca fosse suficiente, como se não conseguisse, como se não valesse nada. Mas bem, não se aflijam, se não morrerem não serei eu a ir-vos matar, também não tenho coragem para isso. Resta-me ficar aqui à espera do final dos meus dias, abraçado pelo desespero e pela ironia cortante. Esta última é que me assusta, porque quando a ironia cortante aparece, deixo de saber quem sou. Posso ser um auto-crítico implacável, mas também posso acabar a desferir golpes nas poucas pessoas que ainda amo. O Amor é estúpido, só atrapalha. Se não fosse ele a esta hora não teria dado ao trabalho de fazer um trocadilho parvo com o título, para atenuar a preocupação de quem não se devia preocupar comigo. Já que não posso matar as pessoas todas, gostava de acabar com o Amor. Seria possível?
Por favor dor, acaba. Contigo ou comigo, mas acaba. Os dois em simultâneo é que já não aguentamos, juntos neste mesmo esqueleto.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Amor

Oh Amor,
Tu o que és?
Sem desprimor,
Mas nem tu sabes.
Uns dias és calor,
Noutros solidão;
Noutros chegas a ser ódio
De tanta dor no coração.
Muito te disfarças:
De alegria e atitude,
De breu e vicissitude,
De inércia e melancolia.
Já te falei de seres alegria?
Frequentemente em grande escala,
Mas curta e saindo sem magia;
Certeira que nem bala,
Que magoa de tanto curar
Quando o inevitável surgia
E eu desamparado
Me deixava levar.

Oh Amor,
És tão cruel!
Sem ti o que faço?
Afogo a vida no papel
Com as lágrimas do que é Passado.
Será que passou?
É incerto este cálculo
Do que é verdade
E do que me enganou,
Mentiroso que sou...
Amor, fala comigo!
Senão do meu lado, como inimigo,
Lado oposto da trincheira,
Já não sei o que consigo
Sem ninguém à minha beira.

Oh Amor,
És tão estranho,
Direito nunca te endireitas,
Do avesso és capital romana,
Império gigante que pereceu.

Oh Amor,
Não será um pouco o que te aconteceu?

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Livr(e)

Um dia nasceu um Livro.
Era um simples Livro de capa dura e acinzentada e letras de linhas direitas e clássicas, mas o "simples" aqui dizia muito pouco sobre ele. Afinal, era um Livro. Descendente de uma longa linhagem literária, o Livro partilhava com os seus antepassados um ADN de Aventuras e Suspense, passado há muito na família de edição em edição.
Desde que nasceu que o Livro achou que estava num lugar estranho, em que quem o comandava era muito incoerente e inconsequente. O Homem era um ser muito invulgar. Apregoava coisas que não executava, gabava-se por alcançar metas que afinal estavam longínquas e promovia sentimentos como o respeito e o amor quando não conseguia passar um minuto sem se ver ao espelho. Era tão confuso para um objecto como ele conseguisse estar cheio de vida e um ser supostamente racional passasse o tempo todo a tentar objectificar-se. Os seres humanos não tinham cérebro e pensavam? Ele achava que sim, pelo menos era o que um dos seus primos lhe tinha dito e ele sabia certamente do que falava, visto ser um Livro Técnico de Anatomia Avançada...
Numa tarde melancólica de Outono o Livro ouviu uma coisa interessante (ironicamente falando) comentada por um conjunto de Homens. Apelidavam eles o Livro de "membro da Literatura Moderna" e falavam da evolução dos livros ao longo da História, por via de génios escritores capazes de editar livros brilhantes. Eis um pensamento que o deixou estupefacto com a ingnorância de uma espécie que se considerava o centro do Mundo, o centro da Vida, o centro de Tudo. Achariam mesmo eles que eram donos e senhores de tudo, que comandavam o próprio Destino? Nada estava mais longe da realidade.
O que consideravam os Homens que era um Livro? Esta era uma pergunta pertinente. Um Livro é uma história, um conjunto de palavras ordenadas de uma forma tão única que cada um deles era inigualável, como se fossem peças de artesanato intelectual. Não eram nada físico e palpável, mas de modo a criar uma ilusão na mente humana os Livros deixavam que as pessoas pensassem o contrário, porque era assim que eles eram e queriam continuar a ser, uma espécie altruísta que pretendia fazer o melhor possível pelos outros. A verdade é que os Livros nunca haviam evoluído com qualquer ser humano, mas muitos tinham sido aqueles que tinham crescido com os Livros. E os escritores, esses sujeitos snobs e instáveis com um complexo de Deus viviam permanentemente na certeza de que eram artistas fenomenais.
Estas eram coisas que o Livro no fundo cumpria mas não compreendia. Depois de as suas folhas ficarem amarelecidas e se deteriorarem com dureza e o negrume dos anos ele ia sobreviver através das suas palavras, porque estas são eternas e ficariam gravas no coração de quem o lesse, mas e os escritores? Após a sua morte o que ficava no Mundo que realmente lhes pertencesse? Nada mais do que o nome. E por mais estranho que isso fosse, as pessoas ficavam felizes por tão pouco, ter o seu nome recordado através do tempo, ainda que poucos soubessem os motivos da perenidade dessa memória.
Estranha raça, a dos Seres Humanos, essa que bradava direitos próprios e deveres alheios aos sete ventos e conscientemente esquecia os recíprocos. Estranha raça aquela que tinha todo o potencial para ser superior e inigualável e acabava apenas por apresentar esta última característica, e pelas mais indesejáveis razões. Estranha raça aquela que era tão egocêntrica que não considerava sequer a hipótese de não ter o Mundo nas suas mãos. Estranha raça aquela que cortava árvores e extinguia oxigénio para fabricar livros. E o mais estranho é que talvez fosse esta a única acção das pessoas que fazia sentido para o Livro, pois representava o momento excepcional na vida do Homem em que ele se matava um pouco para poder viver muito mais de seguida. Pois os Livros forneciam o poder para sonhar mais alto e para dizer aos Homens que os impossíveis não existiam, pois eles surgiam e eram contornados em contos de fadas ajudados a tornar intemporais por aqueles que por vezes deixavam de acreditar.
Isso o Livro já entendia, era esse o motivo pelo qual ele existia.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Super-Cálido-Frágil-Realístico

Há sete mil milhões
De pessoas no Mundo.
Umas são felizes
E muitas mais batem no fundo;
Há os sonhadores
E os realistas,
Os sofredores,
Os minimalistas...
Vemos os que lutam
E os desistentes,
Os frágeis
E os resistentes,
Há quem viva sem viver,
E quem nunca chegue a morrer.
Há os incautos,
Os autistas,
Os argutos
E malabaristas;
Temos quem se destaque
E os que se escondem,
Quem vista fraque
E quem fique refém de ontem;
Quem de tudo se espera
E quem surpreenda,
Quem seja olvidável
E quem se torne lenda;
Há os verdadeiros
E os que mentem,
Os duros
E os que sentem,
Os intolerantes
E os que entendem.
Somos sete mil milhões de seres
Que não sabem bem quem são:
Os activistas fazem de nós todos iguais,
Os líricos clamam pela diferença,
Os decididos sabem para onde vão,
Aos indecisos falta a confiança.
Ainda há os Homens que são ilhas,
E quem veja quando brilhas
E te dê o coração.
Sem espelhos vês no planeta
Sete mil milhões menos um,
Podes ser de fibra e feito de aço
Mas tens sempre algo que te fractura:
Um risco que tal como o diamante
Só é feito por um teu semelhante,
Alguém que não sendo como tu
Não deixa de ser idêntico,
Alguém que sem te ver o corpo nu
Vê-te despido e apático.
Somos sete mil milhões de pessoas no Mundo
E apesar de sentires que és só mais uma,
Pensa:
Só existe mais uma
Capaz de te fazer sentir como nenhuma.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Biblioteca Sabática #14

Primeiro, um pequeno grande apontamento: prometo que o atraso nesta rubrica não se deve a preguiça mas sim a problemas informáticos irritantemente complicados de resolver. Posto isto vou então começar a falar de Lev Tolstoi (1828-1910), que foi um conde russo sobejamente famoso na literatura mundial. Conhecido por se encontrar numa constante batalha entre a vontade de viver uma vida boémia e passar os dias de uma forma absolutamente regrada e longe das luzes da ribalta. Acabou por fazer as duas coisas: enquanto jovem apostou mais nos prazeres da carne e do jogo, mas depois de se casar, em 1862, Tolstoi alcançou a paz na gestão das suas propriedades e fortuna e também com a escrita. Foi durante este período que escreveu autênticas obras-primas como Guerra e Paz ou Anna Karenina, ou ainda a obra apresentada em baixo.


A Morte de Ivan Ilitch (1886) é um livro pequeno mas brilhante, considerado por muitos uma das mais fantásticas obras da Literatura Russa e Mundial. Começa precisamente com o anúncio da morte e o velório de Ivan Ilitch, um funcionário jurídico respeitável e por quem todos têm grande estima. Despreocupado com a vida para além das obrigações, tudo muda quando Ilitch fica gravemente doente e começa a definhar em casa acamado, sem contactar com o mundo exterior. A partir daí assistimos à história brilhante de um homem no limbo entre a vida e a morte e por uma busca de conhecimento interior e pelo sentido da vida. É comovente e simultaneamente desesperante sentirmos que a vida se nos escapa lentamente por entre os dedos e que não fizemos o suficiente por merecermos tornarmo-nos imortais através dos nossos feitos ou palavras; que vivemos o suficiente para realizarmos os nossos sonhos e em vez disso perdemos o tempo todo a tentar fazer parte de uma sociedade que se vai esquecer de nós assim que deixarmos de lhe ser úteis. E por isso, pior do que morrer é sentir que não vivemos. E se na realidade não vivemos é porque não iremos propriamente morrer, ficando a nossa existência presa numa dimensão de insatisfação e desespero por termos tido a oportunidade de sermos tudo e acabarmos como nada.

Boas Leituras!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Esquizofreléctrico

Em nome da Ciência
Deixo correr electricidade nas minhas veias.
Nada falta: também trago bateria e resistência,
Uma para dar energia,
Outra para queimar.
Queimar? Será a isso que me cheira?
Hmmm, deve ser é demência...
(Dizem sujeitos de renome
Que está associada à inteligência...
Veremos se esta não me some!)
Mas afinal fui pouco sagaz,
Há mesmo algo queimado...

ZÁS!
Era o que temia...
Fiz curto-circuito!
Está tanto frio, o que se ouve?
O silêncio, o vazio...
Urge trabalhar depressa!
Corrida às actualizações,
Reparar peça a peça...
E acho que estou pronto!
Vamos ver...
Liguei!
Já estou bem!
(Estarei?)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Um Ano? Um Dia!

Um dia, vinte e quatro horas
Mas com mensagens às remessas,
Mais pressas
E um sem número de demoras.

Resoluções atribuladas
Por entre cabrito e bacalhau,
"Este ano vou ser melhor
Mas amanhã posso ser mau".

E surge a fantasia do mundo ideal
Com tais festejos de Norte a Sul,
Com a concordância no discurso
E a intimidade coberta de azul.

Não se racionalizem revoltas,
Não é a festa que é o pecado,
É querer dar nome à folia
E usar o gasto "Já não te via desde o ano passado!"

Acordemos então do sonho:
Permanecemos iguais!
Eis um dia como os que estão para vir
Mas que apenas não virá mais.