Pode ser uma ideia,
O vento que rapta areia,
A revolta do mar,
Feito fera difícil de domar
Ou o calor abafado de uma trovoada
A contrastar com a chuva gelada;
É o avançar da idade
E a dor da saudade,
A descrença da mente
Deixada ir na corrente
Quando o nada surge
Onde outrora havia tudo,
Onde o som é grave
E o grito mudo;
A letra de uma canção
E a melodia do meu coração:
São coisas que se movem num turbilhão.
sábado, 29 de março de 2014
sexta-feira, 21 de março de 2014
Apalavrado
"No Princípio era o Verbo", era o que a Bíblia dizia. E não era a única. Também ele dizia isso.
Ele olhava para o Verbo da forma mais perdida que é possível a um apaixonado olhar. Era a palavra mais bonita que ele tinha visto. Pro-activo e empreendedor, aquele Verbo era acção na sua essência e despertava a harmonia num Mundo que precisava de e ter de fazer. Só por si o Verbo escrevia livros, mas também os lia; destruía destinos, mas também os consertava; reduzia-se a nada, mas dele também criava tudo. Ela era a palavra perfeita, e sem ela as frases não faziam sentido.
Já ele era um Adjectivo com tudo aquilo a que os adjectivos têm direito: um sonhador incorrigível, um observador nato e acima de tudo era aquele que ficava sentado num canto enquanto tudo acontecia, analisava tudo mas não participava. E isso para ele era um problema, porque como era suposto um Verbo experimentado e aventureiro gostar de um Adjectivo aborrecido e descritivo? Enquanto se completava e embelezava uma frase mil coisas aconteciam. Acção e descrição não simplesmente combinavam, e essa certeza doía.
Não é que o Adjectivo fosse o vocábulo mais inútil e insípido da Gramática, porque não era. Tinha-se escapado a ser barulhento e espalhafatoso como uma Onomatopeia ou incrédulo e ingénuo como uma Interjeição, mas ainda assim era certo que ele estava destinado a ser um actor secundário, e os seus sonhos não eram mais do que meras miragens. Nem tudo dependia dele, e nesse sentido a única acusação que lhe podiam imputar era a de sonhar, não demasiado alto, mas talvez com aquilo que não devia.
E assim a capacidade ambígua para elogiar e criticar fez surgir a dupla personalidade daquele Adjectivo. Ele amava aquele Verbo mas sabia que não era suficiente, que não merecia ser feliz com uma palavra tão perfeita que até sozinha podia formar frases. Ele acima de tudo queria que aquela palavra tão bela fosse feliz, e se isso significasse a sua infelicidade seria o que ele faria.
Mas é um facto de que por vezes o Adjectivo se esquecia dos motivos da sua tomada de decisão, e deu por si a abrir o coração a outros termos como o seu amigo Advérbio, um poço de informação e utilidade que porém pouco acrescentava aos pensamentos do Adjectivo ou ainda a Conjunção, uma especialista em ligações de orações que lhe dizia para ser mais confiante e acreditar que era possível a uma palavra com tantos predicados como ele alcançar as metas mais difíceis. E quando a Conjunção lhe apresentava os seus argumentos o Adjectivo quase enterrava os seus medos, mas não tardava a lembrar-se. E se por acaso conseguisse conquistar o Verbo e mas não tivesse capacidade para o fazer prosperar? E se não tivesse habilitações reais para cuidar daquele Verbo e lhe mostrar que era a palavra mais importante da sua vida? Não se tratava apenas de fazer o Verbo infeliz, mas também uma forma de o destino lhe dizer que ele não merecia sorrir. E essas eram duas situações que o Adjectivo, mesmo considerando no fundo que era um cobarde, não podia suportar que acontecessem. No fim de contas ele não era nenhum Pronome Possessivo, para estar mais preocupado em possuir uma alma pura do que em trabalhar para que essa mesma alma tivesse um futuro especial, digno daquilo que representava.
Talvez se em vez de uma palavra complementar ele fosse um Pronome Pessoal ou um Determinante, aqueles que comandam, que iniciam orações e definem números e géneros, poderia dar-se o caso de ganhar confiança e essa confiança permitir-lhe olhar em frente decidido a não estragar e com a convicção de que era capaz de vencer qualquer obstáculo pelo Amor e por todas as metas que queria ultrapassar, mas ele sabia que era demasiado inconstante e pequeno para estar à altura do desafio. Entristecia-o, mas era a verdade.
E fez então da felicidade do Verbo a sua missão, e eventualmente o Verbo conheceu um Substantivo que o complementava, apesar de ser incrivelmente linear e directo. No entanto juntos formavam frases com sentido, apesar de curtas, e as conversas nunca acabavam em silêncios desconfortáveis, e viveram felizes até ao fim dos seus dias. O Adjectivo acabou de certa forma satisfeito, tinha pela primeira e última vez conseguido terminar algo a que se tinha proposto. E já não doía tanto.
Já ele era um Adjectivo com tudo aquilo a que os adjectivos têm direito: um sonhador incorrigível, um observador nato e acima de tudo era aquele que ficava sentado num canto enquanto tudo acontecia, analisava tudo mas não participava. E isso para ele era um problema, porque como era suposto um Verbo experimentado e aventureiro gostar de um Adjectivo aborrecido e descritivo? Enquanto se completava e embelezava uma frase mil coisas aconteciam. Acção e descrição não simplesmente combinavam, e essa certeza doía.
Não é que o Adjectivo fosse o vocábulo mais inútil e insípido da Gramática, porque não era. Tinha-se escapado a ser barulhento e espalhafatoso como uma Onomatopeia ou incrédulo e ingénuo como uma Interjeição, mas ainda assim era certo que ele estava destinado a ser um actor secundário, e os seus sonhos não eram mais do que meras miragens. Nem tudo dependia dele, e nesse sentido a única acusação que lhe podiam imputar era a de sonhar, não demasiado alto, mas talvez com aquilo que não devia.
E assim a capacidade ambígua para elogiar e criticar fez surgir a dupla personalidade daquele Adjectivo. Ele amava aquele Verbo mas sabia que não era suficiente, que não merecia ser feliz com uma palavra tão perfeita que até sozinha podia formar frases. Ele acima de tudo queria que aquela palavra tão bela fosse feliz, e se isso significasse a sua infelicidade seria o que ele faria.
Mas é um facto de que por vezes o Adjectivo se esquecia dos motivos da sua tomada de decisão, e deu por si a abrir o coração a outros termos como o seu amigo Advérbio, um poço de informação e utilidade que porém pouco acrescentava aos pensamentos do Adjectivo ou ainda a Conjunção, uma especialista em ligações de orações que lhe dizia para ser mais confiante e acreditar que era possível a uma palavra com tantos predicados como ele alcançar as metas mais difíceis. E quando a Conjunção lhe apresentava os seus argumentos o Adjectivo quase enterrava os seus medos, mas não tardava a lembrar-se. E se por acaso conseguisse conquistar o Verbo e mas não tivesse capacidade para o fazer prosperar? E se não tivesse habilitações reais para cuidar daquele Verbo e lhe mostrar que era a palavra mais importante da sua vida? Não se tratava apenas de fazer o Verbo infeliz, mas também uma forma de o destino lhe dizer que ele não merecia sorrir. E essas eram duas situações que o Adjectivo, mesmo considerando no fundo que era um cobarde, não podia suportar que acontecessem. No fim de contas ele não era nenhum Pronome Possessivo, para estar mais preocupado em possuir uma alma pura do que em trabalhar para que essa mesma alma tivesse um futuro especial, digno daquilo que representava.
Talvez se em vez de uma palavra complementar ele fosse um Pronome Pessoal ou um Determinante, aqueles que comandam, que iniciam orações e definem números e géneros, poderia dar-se o caso de ganhar confiança e essa confiança permitir-lhe olhar em frente decidido a não estragar e com a convicção de que era capaz de vencer qualquer obstáculo pelo Amor e por todas as metas que queria ultrapassar, mas ele sabia que era demasiado inconstante e pequeno para estar à altura do desafio. Entristecia-o, mas era a verdade.
E fez então da felicidade do Verbo a sua missão, e eventualmente o Verbo conheceu um Substantivo que o complementava, apesar de ser incrivelmente linear e directo. No entanto juntos formavam frases com sentido, apesar de curtas, e as conversas nunca acabavam em silêncios desconfortáveis, e viveram felizes até ao fim dos seus dias. O Adjectivo acabou de certa forma satisfeito, tinha pela primeira e última vez conseguido terminar algo a que se tinha proposto. E já não doía tanto.
sábado, 15 de março de 2014
Minimal
Não começo
Nem sou começo,
Não salto
Nem sou salto,
Não sonho
Nem sou sonho.
Não sei o que me deu:
O Futuro não é risonho,
Nem eu.
terça-feira, 11 de março de 2014
Escridor
Escrevo, escrevo
E não paro,
Faço comum
Movimento raro
Enquanto eu e a pena somos um.
Só desenho o que a alma me dá,
Foi embora a calma,
Resta a dor cá.
E aí não paro,
Luto em fúria com as palavras,
O linguajar caro,
Um chorrilho de mágoas.
Escrevo dor, é o que sou,
Pássaro que não voou,
Barco que se afundou nas águas.
Do infeliz é que reza a História
E dos amargurados
É que perdura a memória.
E não paro,
Faço comum
Movimento raro
Enquanto eu e a pena somos um.
Só desenho o que a alma me dá,
Foi embora a calma,
Resta a dor cá.
E aí não paro,
Luto em fúria com as palavras,
O linguajar caro,
Um chorrilho de mágoas.
Escrevo dor, é o que sou,
Pássaro que não voou,
Barco que se afundou nas águas.
Do infeliz é que reza a História
E dos amargurados
É que perdura a memória.
segunda-feira, 3 de março de 2014
Doutor Divago: Parte 2
Deixem-me, de uma vez por todas. Juro que não vos percebo, dizem-se pessoas racionais mas dirigem-me a palavra. Não há nada de racional nisso.
Sou absolutamente maquiavélico, um ser que pouco tem de humano, que nada tem para oferecer a este Mundo para além de podridão e revolta. É assim tão difícil entender isso? Estou estragado e estagnado, não tenho cura e sou doença. Daquelas infecciosas, que se espalham sem se dar por isso, mas capazes de matar de forma tudo menos indolor. Sou peste que causa putrefacção na carne e na alma, a merda de um buraco negro que absorve matéria positivista, um Dementor que suga toda felicidade, que remove sonhos e os retalha à frente dos donos sem direito a Expecto Patronum que me arrase. Arrasado já eu estou.
Não façam de mim bom nem altruísta, não digam que me acho mau porque só lido com as agruras alheias. Sim, preocupo-me com vocês nas vossas fases mais desesperadas, mas a realidade é que me estou cagar para vocês. Percebam que eu tenho de me autodestruir mas não sem antes vos levar a todos comigo. É uma idiossincrasia minha e é algo que não posso mudar. Nem quero. Sim, estou interessado no que vos aconteceu de mal, mas só para me certificar de que não vos posso enterrar mais profundamente no Inferno, para que ardam até que nem memória de vocês reste. Quero que apodreçam todos, que desapareçam da minha vista o mais rapidamente possível. Continuam com a intenção de viver vidas felizes e de chegar ao fim com um sentimento estúpido de realização? Então afastem-se, JÁ! Corram e não olhem para trás, não tentem contactar-me e, sobretudo, desistam de me salvar. Não existe a metade que me falta, por mais que queiram.
Eu quero ficar sozinho.
Eu tenho de ficar sozinho.
Eu mereço ficar sozinho.
E aquele título ridículo lá em cima só me enche de ainda mais nojo. Doutor. Como se eu não fosse já demasiado ridículo para ainda atribuir a mim próprio títulos destes.
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