quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Livr(e)

Um dia nasceu um Livro.
Era um simples Livro de capa dura e acinzentada e letras de linhas direitas e clássicas, mas o "simples" aqui dizia muito pouco sobre ele. Afinal, era um Livro. Descendente de uma longa linhagem literária, o Livro partilhava com os seus antepassados um ADN de Aventuras e Suspense, passado há muito na família de edição em edição.
Desde que nasceu que o Livro achou que estava num lugar estranho, em que quem o comandava era muito incoerente e inconsequente. O Homem era um ser muito invulgar. Apregoava coisas que não executava, gabava-se por alcançar metas que afinal estavam longínquas e promovia sentimentos como o respeito e o amor quando não conseguia passar um minuto sem se ver ao espelho. Era tão confuso para um objecto como ele conseguisse estar cheio de vida e um ser supostamente racional passasse o tempo todo a tentar objectificar-se. Os seres humanos não tinham cérebro e pensavam? Ele achava que sim, pelo menos era o que um dos seus primos lhe tinha dito e ele sabia certamente do que falava, visto ser um Livro Técnico de Anatomia Avançada...
Numa tarde melancólica de Outono o Livro ouviu uma coisa interessante (ironicamente falando) comentada por um conjunto de Homens. Apelidavam eles o Livro de "membro da Literatura Moderna" e falavam da evolução dos livros ao longo da História, por via de génios escritores capazes de editar livros brilhantes. Eis um pensamento que o deixou estupefacto com a ingnorância de uma espécie que se considerava o centro do Mundo, o centro da Vida, o centro de Tudo. Achariam mesmo eles que eram donos e senhores de tudo, que comandavam o próprio Destino? Nada estava mais longe da realidade.
O que consideravam os Homens que era um Livro? Esta era uma pergunta pertinente. Um Livro é uma história, um conjunto de palavras ordenadas de uma forma tão única que cada um deles era inigualável, como se fossem peças de artesanato intelectual. Não eram nada físico e palpável, mas de modo a criar uma ilusão na mente humana os Livros deixavam que as pessoas pensassem o contrário, porque era assim que eles eram e queriam continuar a ser, uma espécie altruísta que pretendia fazer o melhor possível pelos outros. A verdade é que os Livros nunca haviam evoluído com qualquer ser humano, mas muitos tinham sido aqueles que tinham crescido com os Livros. E os escritores, esses sujeitos snobs e instáveis com um complexo de Deus viviam permanentemente na certeza de que eram artistas fenomenais.
Estas eram coisas que o Livro no fundo cumpria mas não compreendia. Depois de as suas folhas ficarem amarelecidas e se deteriorarem com dureza e o negrume dos anos ele ia sobreviver através das suas palavras, porque estas são eternas e ficariam gravas no coração de quem o lesse, mas e os escritores? Após a sua morte o que ficava no Mundo que realmente lhes pertencesse? Nada mais do que o nome. E por mais estranho que isso fosse, as pessoas ficavam felizes por tão pouco, ter o seu nome recordado através do tempo, ainda que poucos soubessem os motivos da perenidade dessa memória.
Estranha raça, a dos Seres Humanos, essa que bradava direitos próprios e deveres alheios aos sete ventos e conscientemente esquecia os recíprocos. Estranha raça aquela que tinha todo o potencial para ser superior e inigualável e acabava apenas por apresentar esta última característica, e pelas mais indesejáveis razões. Estranha raça aquela que era tão egocêntrica que não considerava sequer a hipótese de não ter o Mundo nas suas mãos. Estranha raça aquela que cortava árvores e extinguia oxigénio para fabricar livros. E o mais estranho é que talvez fosse esta a única acção das pessoas que fazia sentido para o Livro, pois representava o momento excepcional na vida do Homem em que ele se matava um pouco para poder viver muito mais de seguida. Pois os Livros forneciam o poder para sonhar mais alto e para dizer aos Homens que os impossíveis não existiam, pois eles surgiam e eram contornados em contos de fadas ajudados a tornar intemporais por aqueles que por vezes deixavam de acreditar.
Isso o Livro já entendia, era esse o motivo pelo qual ele existia.

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