Uma pequena nota para falar sobre o autor (e claro que vão já saber a que obra me refiro). Antoine de Saint-Exupéry (eu não disse que já sabiam que livro era?), nascido a 29 de Junho de 1900 em Lyon, França, foi um homem de muitos ofícios. Entre outras coisas, tornou-se conhecido como escritor, ilustrador e aviador na Segunda Guerra Mundial.
A vida de Saint-Exupéry dava um bom filme, e dela só eu faria uma grande rubrica, em tamanho e qualidade. O pequeno Antoine desde cedo se interessou por perceber o funcionamento das máquinas que o rodeavam, e logo se percebeu que este pequeno apaixonado por Mecânica (e em particular por aviões) iria incorporar este gosto na sua carreira futura. Após uma tentativa falhada em ingressar na Escola Naval, em 1921, Saint-Exupéry inicia então o Serviço Militar no Regimento de Aviação de Estrasburgo, tornando-se no ano seguinte piloto militar.
Acabaria precisamente durante a Segunda Guerra Mundial que Saint-Exupéry viria a falecer, depois de não regressar de uma viagem de reconhecimento a Grenoble, em 1944. Primeiro dado como desaparecido, mais tarde como morto, foi em vão que se tentaram recolher provas do incidente até 2004, altura em que parte dos destroços do avião que pilotava deram à costa em Marselha. O corpo, todavia, nunca foi encontrado.
A perda de Antoine de Saint-Exupéry foi enorme para o Mundo, mas ele fez o favor de não nos deixar sem antes escrever uma das obras infantis mais geniais de sempre. "A" Obra Infantil.
O Principezinho (Le Petit Prince no original), editado em 1943, é uma obra que tem marcado gerações, por tudo aquilo que transmite. É fantástico como, na sua plena simplicidade, uma história se pode carregar de tanto simbolismo e mudar tantas mentalidades.
O Principezinho conta-nos as aventuras de um menino que vive sozinho no seu planeta e, farto da rotina do seu próprio planeta, decide partir à descoberta do desconhecido, e trava conhecimento com muitas personalidades distintas ao longo da sua jornada por diversos planetas: ainda no seu planeta de origem, temos a flor vaidosa e exigente, que acha que o Mundo gira à sua volta; depois há o Rei no seu trono majestoso; o vaidoso; o bêbado que em pouco tempo deixou o menino mergulhado numa profunda melancolia; o homem de negócios que estava tão ocupado que nem podia levantar a cabeça para olhar para o seu visitante; o acendedor de lampiões que vivia com um lampião num planeta minúsculo que mal dava para os dois; o geógrafo que desenhava mapas mas desconhecia o seu próprio planeta; o agulheiro que envia os comboios para diferentes direcções; a raposa esclarecedora e realista.
Todos temos a oportunidade de sermos crianças, de sermos puros e sonhar. Todos temos momentos na vida que nos fazem perceber para onde queremos ir. Mas quando crescemos procuramos ser aceites pela máquina que é a sociedade, que nos diz que ser normal é ser bom, que nos revela que devemos andar escondidos, pois as falhas são notadas e os sucessos ignorados. Onde se aplaudem quedas mas se afasta o olhar perante quem se reergue. É incrível como passamos uma infância inteira a sonhar e o resto de uma vida a adiar algo essencial, sermos felizes. Somos durante muito tempo tentados pelos adultos, dizendo que crescer é ganhar responsabilidades mas também autonomia, que tem coisas aborrecidas mas outras coisas muito boas. Nada mais errado. Tornamo-nos adultos quando desistimos de ser o que queremos para passarmos a ser aqueles que os outros querem que sejamos, para vivermos prisioneiros da nossa própria existência. Não há qualquer sentido em sonhar se não acordarmos para fazer dos sonhos substância. E é isso que O Principezinho nos ensina, como devemos respeitar os valores humanos, crescermos como meninos curiosos que desenham uma paisagem no papel e acabarmos como adultos que desenham no vento o seu próprio Futuro e que marcam este Mundo com esse mesmo Futuro. Não é por sermos seres humanos comuns e automatizados que somos alguém, mas sim por sermos pessoas que se destacam pela diferença na missão de fazer do tempo em que caminhamos na Terra um marco irrepetível na História, a nossa História. E aqui devemos aprender com Saint-Exupéry, que pressionado pela maturidade adulta para se dissolver na sociedade, decidiu levar avante a sua paixão por aviões e viver, de forma efémera, é verdade, mas a fazer o que amava. E morrer a fazer o que amava. Isto tudo, não sem antes ter superado o seu desgosto na infância para com a Língua Francesa para nos presentear com uma grande lição humanística, cuja qual o tempo não tem tido sucesso na tentativa de apagar.
Boas Leituras!
Nota: Porque muita gente conhece apenas esta obra de Saint-Exupéry apesar de ele ser autor de outras histórias magníficas (não infantis), aconselho os interessados a lerem dois livros em particular:
- Voo Nocturno (1931), sobre um aviador que, após uma tempestade enquanto sobrevoa o Atlântico, descobre que perdeu o rádio e que o desvio por si feito para escapar à dita tempestade faz com que ele não tenha combustível suficiente para chegar a terra, sendo que acompanhamos a partir daí a história apaixonante sobre um homem que sabe estar condenado no seu destino;
- Terra dos Homens (1939), trabalho autobiográfico e que se foca em vários eventos da vida de Antoine de Saint-Exupéry, em particular um acidente de avião que sofreu em 1935 em pleno Deserto do Sahara com o navegador André Prévot, e no qual ambos quase morreram de desidratação. O livro fala de temas muito fortes como a amizade, a coragem, a morte, a busca desesperada por atribuir um sentido à vida, e dele se retiram diversas citações hoje sobejamente conhecidas, como "o amor não é olhar fixamente um para o outro, é olhar juntos na mesma direcção" .

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