sábado, 6 de julho de 2013

Biblioteca Sabática #8

Será que, em relação a um determinado autor, podemos sentir-nos mais fascinados por um livro que sabemos não ser o mais genial e pensado do mesmo e talvez nem sequer o nosso preferido? Nunca me tinha acontecido até agora, mas posso garantir que é possível.
Vou poupar nas palavras a José Saramago, porque o próprio as dispensa. Vencedor do Prémio Camões em 1995 e do Prémio Nobel da Literatura em 1998, tem conquistado o Mundo com o seu tremendo espírito criativo e genialidade, mesmo após o seu falecimento, há cerca de três anos.


Claraboia foi editado em 2011 apesar de ter sido escrito por Saramago com uma idade a rondar os 28 anos, quando ainda era um desconhecido do Mundo da literatura. Não foi editado em vida do autor por este considerar a obra como que indigna de ser publicada, por não corresponder a certos padrões impostos por si.
Vou ser pragmático: Claraboia é um livro ingénuo, talvez demasiado ingénuo em algumas passagens. Somos apresentados a um prédio e aos seus moradores, às interacções entre eles, às vidas que têm e que anseiam ter, aos erros que cometem e as consequências que de lá advêm. Mas este é um livro demasiado "sincero", um livro em que o autor não consegue disfarçar grandemente que os sonhos e esperanças de algumas personagens não são nada mais nada menos que os seus. Mas por muito paradoxal que possa parecer, é curiosamente o grande ponto fraco do livro que o torna fascinante.
Pensemos em José Saramago, no homem e escritor que se tornou. Pensemos agora no jovem Saramago com 27 anos, um rapaz cheio de vontade mas também muitas inseguranças, sem tiques na sua escrita (para os mais críticos do estilo de Saramago: a pontuação aqui ainda é feita da forma "usual" na Língua Portuguesa) um jovem que no seu interior trava uma luta interior entre o sonho e o medo. Um jovem que guarda em si o desejo de ser alguém e num só livro distribui sobre diversas personagens todo esse desejo, na tentativa de atribuir diversos finais possíveis aos transportadores dessa vontade e com a esperança de que a ele calhe uma das histórias de sucesso, apesar de o fracasso lhe estar igualmente presente na memória. E portanto, acabamos por obter uma interessante luta entre o optimismo e o negativismo dentro de um só edifício, que neste caso já não é o prédio de Claraboia mas sim a mente de um Saramago que não sabe o que esperar do futuro. A magia que este livro acaba por nos passar é precisamente essa, a revelação da evolução de um jovem desconhecido mas com potencial até se tornar num escritor de renome, vencedor de Prémio Nobel. Tecnicamente, apesar de não ir em nenhum lado figurar na lista de melhores livros de sempre e de provavelmente só merecer destaque por ter sido escrito por Saramago, Claraboia é uma metáfora sobre perseguirmos os nossos sonhos e no sucesso que chega quando lutamos pelo que queremos com persistência e convicção, ultrapassando os nossos receios. O único aspecto negativo do livro é o facto desta história ser extra-enredo, mas ainda assim é uma obra literária merecedora da nossa atenção, porque ainda assim tem algumas passagens bonitas.


"Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo. Para nunca mais! Ouviste? Para nunca mais. Quanto mais forte for o teu desejo de felicidade, mais infeliz serás. A felicidade não é coisa que se conquiste. Hão de dizer-te que sim. Não acredites. A felicidade é ou não é."

"Tudo o que não foi construído sobre o amor gerará ódio."


Boas Leituras!

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