sexta-feira, 21 de março de 2014

Apalavrado

"No Princípio era o Verbo", era o que a Bíblia dizia. E não era a única. Também ele dizia isso.

Ele olhava para o Verbo da forma mais perdida que é possível a um apaixonado olhar. Era a palavra mais bonita que ele tinha visto. Pro-activo e empreendedor, aquele Verbo era acção na sua essência e despertava a harmonia num Mundo que precisava de e ter de fazer. Só por si o Verbo escrevia livros, mas também os lia; destruía destinos, mas também os consertava; reduzia-se a nada, mas dele também criava tudo. Ela era a palavra perfeita, e sem ela as frases não faziam sentido.
Já ele era um Adjectivo com tudo aquilo a que os adjectivos têm direito: um sonhador incorrigível, um observador nato e acima de tudo era aquele que ficava sentado num canto enquanto tudo acontecia, analisava tudo mas não participava. E isso para ele era um problema, porque como era suposto um Verbo experimentado e aventureiro gostar de um Adjectivo aborrecido e descritivo? Enquanto se completava e embelezava uma frase mil coisas aconteciam. Acção e descrição não simplesmente combinavam, e essa certeza doía.
Não é que o Adjectivo fosse o vocábulo mais inútil e insípido da Gramática, porque não era. Tinha-se escapado a ser barulhento e espalhafatoso como uma Onomatopeia ou incrédulo e ingénuo como uma Interjeição, mas ainda assim era certo que ele estava destinado a ser um actor secundário, e os seus sonhos não eram mais do que meras miragens. Nem tudo dependia dele, e nesse sentido a única acusação que lhe podiam imputar era a de sonhar, não demasiado alto, mas talvez com aquilo que não devia.
E assim a capacidade ambígua para elogiar e criticar fez surgir a dupla personalidade daquele Adjectivo. Ele amava aquele Verbo mas sabia que não era suficiente, que não merecia ser feliz com uma palavra tão perfeita que até sozinha podia formar frases. Ele acima de tudo queria que aquela palavra tão bela fosse feliz, e se isso significasse a sua infelicidade seria o que ele faria.
Mas é um facto de que por vezes o Adjectivo se esquecia dos motivos da sua tomada de decisão, e deu por si a abrir o coração a outros termos como o seu amigo Advérbio, um poço de informação e utilidade que porém pouco acrescentava aos pensamentos do Adjectivo ou ainda a Conjunção, uma especialista em ligações de orações que lhe dizia para ser mais confiante e acreditar que era possível a uma palavra com tantos predicados como ele alcançar as metas mais difíceis. E quando a Conjunção lhe apresentava os seus argumentos o Adjectivo quase enterrava os seus medos, mas não tardava a lembrar-se. E se por acaso conseguisse conquistar o Verbo e mas não tivesse capacidade para o fazer prosperar? E se não tivesse habilitações reais para cuidar daquele Verbo e lhe mostrar que era a palavra mais importante da sua vida? Não se tratava apenas de fazer o Verbo infeliz, mas também uma forma de o destino lhe dizer que ele não merecia sorrir. E essas eram duas situações que o Adjectivo, mesmo considerando no fundo que era um cobarde, não podia suportar que acontecessem. No fim de contas ele não era nenhum Pronome Possessivo, para estar mais preocupado em possuir uma alma pura do que em trabalhar para que essa mesma alma tivesse um futuro especial, digno daquilo que representava.
Talvez se em vez de uma palavra complementar ele fosse um Pronome Pessoal ou um Determinante, aqueles que comandam, que iniciam orações e definem números e géneros, poderia dar-se o caso de ganhar confiança e essa confiança permitir-lhe olhar em frente decidido a não estragar e com a convicção de que era capaz de vencer qualquer obstáculo pelo Amor e por todas as metas que queria ultrapassar, mas ele sabia que era demasiado inconstante e pequeno para estar à altura do desafio. Entristecia-o, mas era a verdade.
E fez então da felicidade do Verbo a sua missão, e eventualmente o Verbo conheceu um Substantivo que o complementava, apesar de ser incrivelmente linear e directo. No entanto juntos formavam frases com sentido, apesar de curtas, e as conversas nunca acabavam em silêncios desconfortáveis, e viveram felizes até ao fim dos seus dias. O Adjectivo acabou de certa forma satisfeito, tinha pela primeira e última vez conseguido terminar algo a que se tinha proposto. E já não doía tanto.

Sem comentários:

Enviar um comentário