domingo, 6 de abril de 2014

Plágios

O Plágio é um conceito muito curioso. É normalmente algo que se atribui, com algum desprezo e condescendência, a escritores de terceira categoria mais preocupados com lucros do que com arte. Não é uma palavra comum, própria do quotidiano de um leigo, nem é sequer uma daquelas palavras que represente sequer um defeito com que a maioria das pessoas se identifique: não, um plagiador é uma figura quase mitológica, só aparece nas notícias ou é detectável por algum especialista nas redes sociais. Para todos os efeitos, o plágio praticamente não existe na vida real.

Tretas.

Vivemos num Mundo que é completamente rodeado e dependente do plágio. Uma "invenção" não é mais do que um melhoramento ou junção de algo já existente. Um CD é um vinil mais pequeno e digital, um refrigerante é água aromatizada e uma pastilha elástica é só um pedaço de plasticina comestível.
Desde tenra idade somos confrontados com uma educação em nada original. Numa vida em que há pavor pelo que é estranho, somos obrigados a assimilar rapidamente as regras que a sociedade criou para evitar surpresas e aprendemos na escola, não a pensar, mas a decorar o que outros descobriram.
Aqueles que não se sentem encaixados neste Mundo são um tipo mais ingénuo de plagiador. Passam a vida a dizer "ninguém me compreende", "eu sou especial", "eu sou único". Não é estranho que haja assim tanta gente a sentir-se da mesma forma? Não percebem que é uma pista? Vocês não sabem é relacionar-se com os outros, e consequentemente vai ser difícil que conheçam pessoas como vocês, com esse mesmo problema. Mas elas existem, o que significa que a ironia de acharmos que somos especiais faz de nós pessoas absolutamente comuns, simples ladrões de ideias.
Já a sociedade é, per se, tanto hipócrita como amedrontada pelo conceito de plágio. A Segunda Guerra Mundial terá desempenhado, nesse sentido, um papel muito importante no comportamento geral actual. Depois das atrocidades cometidas por um ser humano (?) que pretendia criar uma raça em que as pessoas fossem todas o mais iguais possível (Hitler, seu plagiador!), a sociedade tem tentado compensar as minorias de forma exagerada e descompensada, através de campanhas de sensibilização que visam dizer o quê? Que europeus, asiáticos, africanos, etc, somos todos iguais (oh, a ironia...). É algo natural e esperado; afinal, depois de um acto terrorista é quando as pessoas prestam mais atenção à maldade no Mundo e à falta de segurança que as rodeia. O ridículo aqui é o dinheiro que se gasta em publicidade e que poderia ser usado para comprar roupas, comida ou vacinas para algumas dessas pessoas "iguais a nós" e que se encontram em necessidade. Não, o que interessa é mostrar o sucesso aquele senhor indiano fez na Medicina, ou como aquele senhor africano é um atleta de excelência, para mostrar que afinal eles são tão bons como nós.
Pessoalmente, percebo pouco de Medicina e por atleta de excelência também não passo, o que significa que estas pessoas até serão melhores do que eu, mas claro que a hipocrisia aqui está no facto de nos ser implantada a ideia de que o facto de eu ser branco e europeu me coloca à partida em pé de igualdade com um génio nascido num país de Terceiro Mundo. A tentativa aqui de mostrar as qualidades de outras culturas esbarra no egoísmo e narcisismo do Mundo Moderno, e o esforço de apelar à ideia de "igualdade" é simplesmente mais uma forma de mostrar a inferioridade dos outros. Uma espécie de bullying às minorias, mas de uma forma tão sublimemente acutilante e discreta que tanto o senhor Adolf como o senhor Ary dos Santos ficariam (por motivos diferentes) orgulhosos.
Por falar em bullying às minorias, o plágio está tão incorporado na História que se criou uma expressão que refere que ela "se repete" e ainda houve quem inventasse termos como "déjà vu" ou "coincidência". Isto porque "plágio" é uma coisa horrível, claro, e quem é que não aprecia um bom eufemismo?
Também plagiamos no Amor. Temos normalmente a vontade de amar alguém que nos compreenda, que se assemelhe a nós, que tenha gostos idênticos aos nossos, mas aquele medo terrível que a sociedade tem do plágio e das descriminações fez com que começasse a circular o mito de que os opostos se atraem. A "cara-metade" deixou de ser alguém que nos entende para ser alguém que nos complementa. Se eu não quiser ser louco e passar o tempo todo a praticar desportos radicais não posso, porque a minha "cara-metade" tem que ser passada da cabeça. Tem lógica? Não. No entanto, gostava de ver isto implementado nos Estados Unidos, só para assistir a constantes tentativas de acasalamento entre Democratas e Republicanos. Gosto de ver séries como Game Of Thrones, portanto acho que para os padrões da realidade até era capaz de gerar uma quantidade de sangue engraçada.
Vamos pôr os pontos nos is: o plágio não tem resolução. Atente-se neste texto: ou eu admito que sou especial e que nunca ninguém na vida resolveu escrever acerca do plágio e estarei a plagiar aquela quota de pessoas que se acham únicas (o que parece provável a avaliar pelos cerca de 1.040.000 resultados que o Google obteve para a palavra referida), ou então aceito que estou a fazer aquilo que uma ou mais pessoas já se lembraram de fazer, e que no fim de contas não tenho assim tanta importância nem criatividade (outro conceito bem dúbio). No entanto, e como a sociedade se esconde atrás de dogmas estúpidos e crenças ilusórias, a aceitação de que não somos aquilo que pretendíamos mas sim derivações daquilo que outros já foram é, por mais paradoxal que pareça, a melhor forma de mostrarmos ao Mundo que somos diferentes.

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