domingo, 22 de dezembro de 2013

Uma Mão Cheia de Nada

O Zero era um número muito triste. Nunca tinha tido amigos e todos o tratavam de forma diferente. Afinal, enquanto que o universo dos números se regia por quantidades, ele não tinha qualquer valor. Havia números mais positivos, outros havia que eram capazes de viver a vida de uma forma mais negativa, mas ao Zero ninguém dava atenção e companhia. Tinha havido aquela vez em que ele tentara travar amizade com o Menos Um, que andava sempre cabisbaixo por não encontrar a raiz dos seus problemas. Nos primeiros tempos as coisas correram bem, mas cedo este último se fartou de tentar compreender o Zero e arranjou um amigo imaginário.
Como tal o Zero questionava-se com frequência. "Que estou eu aqui a fazer? Não sirvo para nada! As pessoas não precisam de mim para falar de quantidades! Quando alguém quer falar de mim, eu estar ou não estar é exactamente a mesma coisa! A minha vida é miserável..."
Não o podiam acusar de não tentar. Um dia o Zero tentou somar-se ao Dois, mas aquele número ficou exactamente na mesma, o Zero não acrescentava nada à sua existência. Logo a seguir o Zero tentou subtrair-se, mas o resultado mantinha-se: os números não sentiam nada de diferente, nem uma leve comichão. Estar ou lá estar um certo algarismo de aspecto ovalado e simplista não fazia a mínima diferença.
Ele tentou dividir-se por alguns números, mas aí era ele que se mantinha igual; a situação não parecia melhorar. Tentou o recíproco, mas os outros números não aceitavam dividir-se por ele, diziam que o Zero como denominador era "um zero à esquerda". Depois lá está, à esquerda das vírgulas representava algo pequeno a que poucos ligavam, menor que uma unidade; já à direita da vírgula era completamente desprezado. Pobre Zero, não tinha sorte nenhuma!
Em última instância tentou algo com que sempre sonhara, tentou arranjar alguém com quem se multiplicar. E aí as coisas correram novamente mal. Foi nesta altura que o Zero percebeu que se sentia completamente inútil, pois não havia um único número que se queria multiplicar com ele. Todos argumentavam que se o fizessem ficariam também reduzidos a nada e as suas vidas tornar-se-iam igualmente miseráveis, sem nada a acrescentar ou retirar a uma tabuada ou a um caderno de Matemática.
Porque é que tinha de ser ele a representar a ausência? Porque é que tinha de ser ele a estar destinado à solidão? Era tão mais fácil ser como o Um, o Ministro da Numeração e Representante Oficial da Unidade, ou então o Oito, o Número da Criatividade, que quando se deitava para sonhar tornava-se infinito... Numa eternidade de números, porque tinha ele de ser aquele que não tinha qualquer interesse para ninguém? E ainda se sentia pior quando olhava para o Cem, o Mil, o Milhão ou até o Googol, números cheios de zeros mas de enorme valor para o Mundo da Numeração e para a sociedade em geral, em particular para os raptores dos filmes, fãs de números redondos e chorudos; e a única diferença que havia entre eles e o Zero era que eles ali à frente de uma infinidade de nadas tinham um singelo "1", e só isso é que os tornava tão diferentes... Aliás, depois de se ter um qualquer algarismo à frente, o Zero via outros semelhantes a si ganharem uma importância invejável, tornando o número de que faziam parte gigantesco e imponente.
Todas estas coisas colocaram o Zero no meio de uma enorme depressão, no meio de uma enorme dor. Era preciso parar aquela dor, era preciso acabar com aquele sofrimento. O Zero decidiu naquele momento que se ia apagar de todos os livros e computadores da Terra, e assim não mais precisava de suportar uma vida em que não era importante para ninguém.
Ora, isto criou-lhe mais um problema. Por muito que ele gastasse todas as borrachas existentes e queimasse os livros que pudesse, não se conseguia eliminar, porque iam surgindo sempre novos livros. O Zero não era apenas um grafismo representativo do nada, era um conceito que vivia nas mentes das pessoas. E como os conceitos são eternos, cedo o pobre Zero concluiu que se encontrava destinado a passar a eternidade com a horrível sensação da inutilidade da sua vida. Pior do que ser nada, pior do que a dor que não passava, era o sentimento de impotência para mudar o destino que fazia com que este algarismo perdesse toda a alegria de viver. Não havia uma única acção a tomar, não havia possibilidade de mudar o rumo da história, e o Zero passa agora pela provação de sobreviver a gerações consecutivas sem ser notado.
Mas há algo que nunca ninguém disse ao Zero...
Todos os gráficos precisavam de uma origem, e essa origem era o zero. O universo formou-se no princípio de tudo, no segundo zero do minuto zero da hora zero do ano zero. Todas as músicas bonitas começam aos zero segundos. A água congela a partir dos zero graus. A fórmula resolvente para equações do segundo grau exigia que estas fossem iguais a zero. O império romano não sobreviveu ao tempo e não usava o zero. Já a numeração árabe foi a primeira a incluir o zero e eram eles os mais avançados na História em termos de medicina e ciência, enquanto na Idade Média a Europa era retrógrada. Na infinidade do Espaço a gravidade era zero. Sem o Zero e a sua relativa menor importância, todos os outros números tornar-se-iam menos importantes também, por comparação.
Tudo isto fazia do Zero um número único e muito especial. E ele desconhecia-o, tudo porque não existiu quem lhe apontasse os méritos, porque estavam todos muito preocupados em mostrar que eram números mais interessantes que um pequeno algarismo que representava uma panóplia de sinónimos como nada, nulo, ausência, falta ou vácuo.

No fundo, Zero.

2 comentários:

  1. Gostei mesmo muito deste texto. E amo a maneira como dás vida a conceitos ou a coisas inanimadas e como a tua escrita faz com que não consigamos nunca mais dissociar as tuas histórias destes conceitos característica dos grandes escritores as suas histórias serem memoráveis. Que escrevas muitos mais destes :)

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  2. Muito Obrigado, a sério! O reconhecimento e apreço dos amigos pode não ser suficiente para se construir uma carreira, mas é o suficiente para me colocar um sorriso na cara! =)

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