Não gosto de probabilidades. Fazem-me sentir enganado, e eu não gosto nada de ser enganado. Aliás, sempre considerei ser essa uma das grandes funções do pseudo campo/ciência que são as probabilidades. Uma probabilidade não é mais do que uma invenção do Homem para tentar mostrar que controla e prevê acontecimentos que o superam, servindo simultaneamente de desculpa no caso de estar errado. Eis um diálogo recorrente no nosso quotidiano:
- Então, que te aconteceu? Estás todo encharcado!
- Oh, na meteorologia disseram que hoje havia uma probabilidade de 10% de chover, achei que não valia a pena ir carregado com um guarda-chuva...
- Pelos vistos estavas enganado...
E as pessoas adoram fazer o jogo perigoso das probabilidades. Quando um acontecimento é provável é como se deixassem de existir vários desfechos possíveis. Na mente de um leigo, uma moeda que em 5 lançamentos gera 5 caras só tem uma face. Um jogador de futebol que em 3 jogos seja expulso 3 vezes já tem o destino traçado no quarto jogo. Um político que vença 7 eleições vai vencer a oitava.
Basicamente, o ser humano abraçou a roleta russa das probabilidades e deixa que esta o governe a si e às suas tomadas de decisão. As probabilidades são, no fundo, uma forma que possuímos de evidenciar alguma sobranceria e arrogância perante um destino que nos engole mas que apesar de tudo é um destino que pretendemos dominar ou fingir que dominamos.
Quem não ouve uma probabilidade é imprudente, e mesmo depois de mostrar que estava certo torna-se um génio "louco". Curioso é que existam algumas excepções em que as probabilidades são esquecidas, como num jogo do Euromilhões. E a Santa Casa agradece que toda a gente jogue, apesar de a probabilidade de cada um vencer o sorteio seja igual a 0,000000003575561921%. É uma das poucas ocasiões em que o Homem se torna mais crédulo na sorte do que na probabilidade, porque somos todos boas pessoas e portanto coisas boas são o que nos tem de acontecer, não é verdade?
E é isto. Como seres irracionais que somos (apesar de nos acharmos seres muito pensadores cheios de capacidade para controlar o Mundo), criamos regras para viver em sociedade que quebrar quando nos convém. E vivemos felizes com isso. Mas atenção, nem todas as regras gozam desta capacidade de serem ignoradas. Como sociedade, continuamos na hipocrisia de criticar aquilo que sai dos padrões do que é socialmente aceite, excepto no caso em que somos os visados. Mas quando criticamos, é provável que aconteça só aos outros.
Fui educado para pensar que vou ser feliz e alcançar todas as metas a que me proponho, isto porque sou um bom menino e por isso mereço ser feliz e sentir-me realizado. Pois bem: provavelmente essa teoria é parva, porque muitas coisas más acontecem a gente boa. Mas também é provável que esta minha dissertação revoltada seja ridícula, simplesmente porque não me sinto feliz agora e provavelmente nunca me hei-de sentir feliz no Futuro. Ou então é provável que nada do que eu diga aqui faça sentido porque sou um poço de confusão de ideias e misturar conceitos e pensamentos numa grande sopa de palavras é o que eu faço, mas também porque tudo é possível em qualquer altura e em qualquer lugar, porque a vida é uma infinidade de possibilidades e não existe ninguém que possa prever ou que esteja certa acerca de tudo. Não sei. Mas é essa a questão dos Prováveis: há sempre uma forma de deixarem de o ser.
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