sábado, 2 de fevereiro de 2013

Biblioteca Sabática #1

O termo sabático vem do hebraico shabbat, e significa repouso, descanso. O shabbat designa o período de descanso semanal dos judeus, entre o pôr-do-sol de sexta-feira e o pôr-do-sol de sábado, usado para reflectir sobre a criação Divina. Daí também deriva o termo "sábado", muito devido ao facto de coincidir na sua maioria com o período do shabbat.
Efectivamente, nós aproveitamos usualmente o sábado para descansar, para nos divertirmos, para fazermos algo de que gostamos. É o pico do fim-de-semana, já que tivemos a noite de sexta para "não fazer nenhum" e ainda temos pela frente o domingo para nos deixarmos deprimir pela proximidade de uma nova semana.
Como nem sempre aproveitamos de forma eficiente os sábados, pensei fazer deste dia um dia especial no blog. Em vez de apenas dar a conhecer um pouco da minha escrita, também mostrar o que leio e que uso como inspiração para possíveis criações. Não tenciono fazer críticas literárias complexas e técnicas; apenas pretendo recomendar um livro a quem eventualmente esteja farto de ler sempre o mesmo e ande à procura de algo diferente. Só vou recomendar coisas que já tenha lido e de que goste, aviso já!

Depois das explicações parto então para o que interessa. Estive indeciso entre recomendar o mais recente livro que li, focar-me num dos meus autores favoritos ou começar por um livro marcante. Decidi-me por esta última.

"O Amor é Fodido" (1994, Assírio & Alvim) é um dos livros mais conhecidos (e para mim o melhor) do escritor, cronista e jornalista Miguel Esteves Cardoso. MEC faz parte de um tipo de figuras que muito admiro, as pessoas que conseguem empregar em tudo o que escrevem ou dizem pragmatismo, humor e paixão. Este livro não é excepção à regra. Temos um protagonista, João, que aborda ao longo de 187 páginas a relação que teve com cada uma das mulheres da sua vida, dando especial destaque a Teresa, uma mulher peculiar: "má, vaidosa, cobarde, egoísta" mas, ainda assim, adorável e o grande Amor de João.
O livro começa com a recordação revoltada do suicídio de Teresa e prossegue com o protagonista a recordar com a memória da mesma todos os defeitos e virtudes daquela e de outras mulheres que passaram pela sua vida, numa linguagem bastante incisiva e pouco floreada (que torna este livro diferente dos outros, porque fá-lo soar a verdadeiro).
Há quem diga que o livro tem algo de autobiográfico (já que MEC foi conhecido por ser um bon vivant noutros tempos). Independentemente de tudo isso, se quiserem de uma só vez rir, chorar (para os sensíveis), reflectir e sentir que também há algo de vosso e verídico numa leitura, façam o favor de ler este livro tremendamente divertido, realista e apaixonante.
Deixo-vos o início do primeiro capítulo como mote:

"Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar. Merecias uma morte mais violenta. Se eu soubesse, não te tinha deixado suicidar com aquelas mariquices todas. Aposto que não sentiste quase nada. Não está certo. Eu não morri e sofri mais do que tu. Devias ter sofrido. Porque eras má. Eu pensava que não. Enganaste-me. Alguma vez pensaste no que isso representou na minha vida miserável? Agora apetece-me assassinar-te de verdade. É indecente que estejas morta.
Quando tomaste os comprimidos sabias que estavas a safar-te de boa. Confessa. Foi um bom negócio. As pessoas que levaram uma vida como a tua costumam morrer em circunstâncias que deixam muito a desejar. Afogadas em aquários. Estendidas de pernas abertas numa paragem de autocarro, esfaqueadas, sem cerimónias, e estranguladas por uma histérica na casa-de-banho. Eu tinha-te dado um tiro. Um tiro limpo nessa cabecinha - o suficiente para te assustar, mas rápido. A doer um bocadinho."

Se quiserem sugerir algum livro ou falar mais sobre este, estejam à vontade para enviar um mail para o endereço indicado à direita.
Boas leituras!

Sem comentários:

Enviar um comentário